Opinião nos media: a mudança que tarda, o futuro que hesita
publicado 8 Janeiro 2008 em Imprensa.Meia dúzia de períodos notáveis, uppercuts sem apelo, os de Tiago Barbosa Ribeiro no texto desistência intelectual.
Quando se banalizam determinadas palavras, não sobra nada. Desde logo, debate político. Também por isso, vale a pena ler este post do Valupi sobre os últimos artigos de António Barreto no Público. O problema não é só de Barreto, cujo percurso intelectual admiro; na realidade, alarga-se a outros colunistas, comentadores e bloggers. Talvez pelo espírito do tempo de uma maioria absoluta e da falta de comparência das oposições, nota-se uma ausência de reflexividade e densidade crítica nas divergências que se manifestam em relação ao governo. O normal debate político é substituído pelo ataque ideológico mais basista, pela denúncia do estilo, pela obsessão com as conspiratites, pela preguiça ou pelo simples enfado, que é o que tudo isto representa. E assim, dia após dia, o espaço público empobrece-se com o contributo de quem mais acusa a sua falta de dinamismo. Tenho pena, sinceramente.
Está a chegar a hora da renovação de quadros, mas esta tarda — e se um ou dois passam (ou até somam prestígio por contraste), a concentração de produtos fora do prazo de validade não traz saúde à opinião publicada. Talvez devido ao momento de desorientação que os responsáveis pelos media vivem e as diferentes interrogações que o futuro levanta — a começar pela (de)composição de alguns dos nossos grupos. De uma coisa não é certamente: da falta de talento das novas fornadas.


Não concordo. O que os blogs vieram trazer foi uma nova fornada de gente que pensa, que investiga, ou que, pelo menos, divulga aquilo que é “esquecido” pelos media tradicionais.
Estou de acordo com a cadeirada acima: os blogs não são informação. São meta-informação. Comportam-se como um espaço crítico de opinião [espera-se] desvelada.
Mas compreendo um pouco o que o Tiago diz. O que ele diz é que os media e os políticos não se sabem movimentar entre a revolução. Não estão habituados a ser tocados por ela - uns relatam-na assepticamente ou a mando da vigência, outros fingem ser a revolução.
O que não compreendo nele - não estou habituado a lê-lo assim . é a sua dificuldade em caminhar entra a revolução.
Porque, meus amigos, estamos a viver o PREC da internet… e está para durar…
Carlos, um blogue é apenas uma ferramenta de edição e comunicação. Produz-se informação com a ferramenta. Produz-se crítica com a ferramenta. É uma ferramenta demasiado versátil para ser espartilhada assim tão facilmente em “é informação” ou “não é informação”. (E na TubarãoEsquilo temos sobretudo projectos editoriais ambiciosos, que fogem dessa classificação espartilhante dos blogues enquanto registo diarístico de mundanices, meta-críticas ou conversas, conforme a hora e o local.)
Agora, isto nada tem a ver com o texto e com o que escreveu o Tiago. No que tem a ver, a blogosfera revelou que há talentos novos (novos aqui refere a idade) e a emergir, prontos a substituir — com vantagens várias, como a de estarem em geral mais perto da cultura da rapidez em que vivemos e serem mais lestos — uma gama de “opinion makers” que leva, em inúmeros casos, mais de três décadas de domínio na comunicação social.
Paulo, por meta-informação quero dizer a publicação de tudo o que não vem nos meios mais tradicionais, jorbais, tv, rádio e internet institucionais. Talvez o termo tenha sido mal escolhido. Mas concordo contigo quando dizes que surgem projectos que já não têm apenas que ver com isso.
Os bloggers são agora mais conscientes do que a ferramenta proporciona. Parece-me também estarem a tomar consciência da sua responsabilidade - porque a têm - e a assumi-la.
Sim, a TubarãoEsquilo é disso exemplo, apresentando blogs que fogem ao mainstream puramente diarístico e, casos há, em que os bloggers são já opinion makers. E casos há em que estes opinion makers não o eram fora da blogosfera.
E essa é a revolução que refiro, o PREC em que nos encontramos e que permite que todos, uns mais que outros, nos transformemos em opinion makers, numa altura ou outra. É a Cauda longa da opinião, se quiseres. [Esta da Cauda Longa agora dá para tudo].
Esta revolução começa a incomodar muita gente. É uma nova forma de democracia, em que a participação é real. É uma Wiki-Democracia que vai sendo construida aceleradamente e por todos os que cá andam, nem que não sejam democratas - para seu enorme desgosto.
A minha leitura do texto do Tiago - blogger que sigo e admiro - é diferente. Ele acusa a blogosfera da banalização das palavras. E eu dou-lhe razão. A blogosfera realmente banaliza as palavras e as ideias. Mas é normal que assim seja, até que sobressaia um ou outro. É como digo: são os excessos de uma revolução, e o Tiago, mais que muitos outros, deveria saber andar lá no seu meio.
Mas a blogosfera, como sempre pensei que aconteceria, começa a auto-regular-se. Começam a notar-se as vozes mais vibrantes e as que apenas lhes dão eco [o que não é, por si, defeito]. As redes estão aí. Os projectos editoriais, como a TubarãoEsquilo, estão em marcha.
São cada vez mais os jornalistas que sentem necessidade de utilizar esta ferramenta sem espartilhos de editores.
Com isso aumenta a responsabilidade de ter um blog, quando se opta por dar voz a opinião, seja ela acerca de que assunto for. E. a meu ver, ainda bem.
Abraço,
CJT