Zeppelins: voltaremos a tê-los?

Em os hangares dos dirigíveis seven traça um quadro histórico breve dos zeppelins, a que eu somo a pergunta: voltarmos a tê-los nos nossos céus?
O artigo no Obvious é bonito, repleto de fotografias muito bem escolhidas em função da história que conta — abreviada mas focando o essencial. Aliás, basta ler os comentários para perceber o poder do post: muitos leitores que nunca tinham ligado à história dos zeppelins ficaram agarrados ao texto.


Hangar de Lakehurst em New Jersey, nos EUA, onde o tremendo zeppelin Hindenburg não chegou a aterrae, incendiando-se antes

Já nos comentários, o autor adiciona: “Sempre achei os zeppelins das criações mais delirantes do homem. São pura e simplesmente fascinantes e irreais. São máquinas insanas saídas de um livro de Jules Verne em direcção a qualquer mundo perdido. Custa-me a acreditar que alguma vez existiram
Não deixam de ser impressionantes, sem dúvida!
E como outros delírios de Verne tornaram-se afinal realidade. Talvez deslocada no tempo, porém. Considero que os dirigíveis vieram cedo demais. Sendo certo que a história da aviação comercial teria sido diferente se o Hindenburg não se tem incendiado, não o é menos que os zeppelins não morreram. Apenas regressaram ao universo dos sonhos e às pranchetas de desenho dos ousados — e às fantasias de alguns, que pagam por viagens turísticas em dirigíveis pequenos e modernos, especializados em casamentos & baptizados e orçamentos para empresas.
Quando falo em universo dos sonhos e pranchetas de desenho, falo do futuro da aviação comercial. Com o petróleo entrado na sua curva descendente de extracção, o preço não mais parará de aumentar — seja mascarado pelo que for: OPEPs, governos, interesses pessoais de Bush, “crises” no Médio Oriente ou “excesso” de demanda pelos chineses e outros emergentes. Não se sabe a partir de que ponto deixará de ser economicamente viável a aviação a jacto, mas é sensato prever que esse momento chegue (é pelo menos um pouco mais sensato do que esperar por um novo tipo de combustível, ou energia, capaz do boost que tiramos da gasolina).
Os dirigíveis são uma alternativa para as viagens aéreas.
Como noutros casos de técnicas e tecnologias que sofreram da comercialização prematura — estou a lembrar-me das centrais de fissão, que se sabia comportarem riscos que permanecem sem solução décadas volvidas –, os zeppelins evoluiram magnificamente neste período em que só receberam a atenção dos seus defensores e entusiastas.
Talvez ainda no meu tempo de vida (e no teu, seven) os grandes hangares europeus voltarão a ser iluminados e a azáfama neles fervilhará.
(Nota pessoal: na minha modesta opinião, faltou a todo o debate sobre o futuro aeroporto de Lisboa o ponto do futuro da aviação comercial; fossem as questões de segurança, que permanecem no pós 11 de Setembro, fossem as questões pertinentes das alternativas aos piores, dentro dos previsíveis, cenários do preço do combustível, fossem questões de engenharia relativa à adaptação das instalações a novos tipos de aviação comercial. De notar que no extremo das preocupações de alguns, quando o novo aeroporto de Lisboa estiver a operar em pleno podem não voar jactos comerciais em número suficiente para o justificar.)

  1. 1 seven

    Muito lisonjeiro o teu artigo, Paulo. Agradecemos.

    A questão que levantas é muito pertinente. Os dirigíveis talvez não tivessem aparecido cedo demais. Tiveram azar apenas. Ou talvez não.

    O engenho de von Zeppelin era genial e, sublinho, concebido para ser cheio com Hélio, um gás inerte. Nesta altura da história será que alguém se pergunta porque o Hindenburg continha exclusivamente Hidrogénio nos seus tanques, transformando-se numa potencial bomba voadora?

    Ontem como hoje a história é a mesma: porque quem fornecia o Hélio aos alemães eram… os EUA. E negaram-se a fazê-lo a partir de 1936 - quando as incursões de Hitler fora da Alemanha ainda estavam para vir. Isto não vos lembra nada passado recentemente? Note-se que ainda assim os alemães adaptaram os seus dirigíveis com medidas de segurança extraordinárias.

    Pois é. Hélio, petróleo, dólares.

    Talvez os dirigíveis renasçam quando for “conveniente”, mais cedo do que se pensa. E nós portugueses, como sempre, teremos mais uma vez dado um magnífico tiro no pé com um novo aeroporto, de onde seremos os únicos a não tirar qualquer benefício.

    Um abraço.

  2. 2 Paulo Querido

    Nem mais, seven. Um magnífico tiro no pé desde já é não termos sequer ousado falar no assunto.

  3. 3 seven

    Já agora: fiquei a pensar nos dirigíveis e “cozinhei” mais um post para hoje com material que ainda por lá tinha sobre o Hindenburg. Era deslumbrante…

    Pode ser que sintamos alguma nostalgia e nos viremos de novo para este meio de transporte ;)

  4. 4 Mário

    Para voos turísticos sem pressas e deadlines os Zeppelin são bons (assim como os balões), agora para tudo o resto duvido. Desde sempre que o transporte comercial evoluiu para possibilitar transportar cada vez mais, cada vez mais rápido, pelo que não estou a ver involução nesse aspecto.

  5. 5 Paulo Querido

    Mário, dou-te razão. Faço notar, todavia, 2 coisas.
    Como sucedeu nos correios de superfície, um dos caminhos para cortar custos é diferenciar o transporte em função da urgência. Há imensas mercadorias que podem chegar ao destino em 12 horas em vez de 6 (os modernos zeppelins são muito mais rápidos que os seus bisavôs). E até humanos: se eu pagar menos para chegar, suponhamos, a Madrid em 3 horas em vez de 2, em viagem de turismo sou bem capaz de alinhar.
    A aviação a jacto tem vindo a ser limitada. O conforto é cada vez menor, ficamos cada vez mais longe dos centros urbanos, gastamos cada vez mais tempo entre os pontos, em grande parte nos aeroportos. O low cost é isto mesmo, levado à essência. Mas com o aumento do preço dos combustíveis um dia chegará em que não se pode espremer mais o custo. E então, o que achas que sucederá?

  6. 6 Paulo Querido

    Eu a escrever isto… Não tenho aqui dados, mas a aviação com fins turísticos é um grande quinhão do bolo. Muito grande e com tendência a aumentar, se houver meios.

  7. 7 Mário

    O que sucederá em concreto não sei, mas salvo colapso desta forma de civilização, será encontrada uma forma de reduzir custos, aumentando e eficiência do transporte. Se a mudança for gradual a organização da sociedade não mudará muito, se não fôr…..
    Mas para continuar tinha de saber muito mais do que o pouco que sei :)

  8. 8 Paulo Querido

    “salvo colapso desta forma de civilização, será encontrada uma forma de reduzir custos, aumentando e eficiência do transporte”. Yeap. Os dirigíveis encaixam no leque de soluções previsíveis agora, a esta distância.

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