O país real e o país inventado

portugal mapa antigoPortugal não é um país, mas três.
A blogosfera política não vê um país: vê uma inextrincável teia de compromissos e de projectos de poder e descreve aquilo que pretende que seja visto como a realidade em cada momento e consoante a visão do respectivo projecto de poder.
A mediaesfera faz mais ou menos a mesma coisa, mas com a desvantagem de já estar previamente alinhada em duas barricadas. Os noticiários mostram a “realidade” do sangue, miséria e desgraça — com a omnipresente polícia que todas as semanas faz a maior apreensão de sempre.
Resta depois o país real, do qual quase nada sabemos. Crise económica? Mas os indicadores desmentem. A sociedade à beira de uma ruptura? Bem sei o quanto alguns desejam vingança sobre o buzinão da ponte, mas à parte a contestação profissional, que é paga para isso e ainda bem, não se vêem sinais de fumo. As duas questões deprimentes de Portugal têm décadas de existência, não decorrem deste governo — e não há quem não saiba disso.
Agora, não nos falta informação — nos media como nos blogues — sobre que país a classe em exercício dos cronistas políticos & similares gostava de ter. Como escreve Vital Moreira em Wishful thinking: “Por mais que os média ajudem, é impossível manter durante muito tempo a invenção de uma país à beiro do abismo. Quem está à beira de um ataque de nervos é quem procura à força tomar os desejos por realidades”.

  1. 1 POS

    Caro Paulo, não quero comentar o post, mas o mapa. Trata-se da primeira representação cartográfica de Portugal [com o reino dos Algarves à parte :-)] e foi feito por Fernando Álvaro (ou Álvares) Seco, tendo uma curiosa peculiaridade: o país era representado ao baixo, contrariamente àquilo a que estamos habituados e à forma como foi aqui publicado.

  2. 2 Paulo Querido

    Os feelings são uma coisa espantosa e eu devia seguir os meus mais vezes. Caro Pedro, quando fui ao Google sacar uma imagem de Portugal rapidamente, que estava com pressa de sair para uma reunião, vi essa e diferenciava-se dos mapas convencionais e era bonita e nem hesitei e pensei, vou usar isto indiscriminadamente como um botão, estou aqui cheio de pressa nem reparo, e ainda me vão dizer que se trata de um mapa importante, adiante, logo se vê :)
    Tenho uma representação do Algarve assim em gravura antiga, mal amanhada nas cores (cópia barata de alfarrabista lisboeta) que bem pode ser deste tempo, hei-de verificar.

  3. 3 Doe, J

    “Crise económica? Mas os indicadores desmentem.”

    E é realmente uma pena não conseguirmos viver de indicadores, por enquanto.
    Tanto mais que os “indicadores” até são quase como o bacalhau já que há 1001 maneiras de os cozinhar. :)

  1. 1 O Discurso. O Decurso | [ fractura.net ]
  2. 2 deictico.org » sentidos » O Discurso. O Decurso

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