O país real e o país inventado
publicado 19 Fevereiro 2008 em política.
Portugal não é um país, mas três.
A blogosfera política não vê um país: vê uma inextrincável teia de compromissos e de projectos de poder e descreve aquilo que pretende que seja visto como a realidade em cada momento e consoante a visão do respectivo projecto de poder.
A mediaesfera faz mais ou menos a mesma coisa, mas com a desvantagem de já estar previamente alinhada em duas barricadas. Os noticiários mostram a “realidade” do sangue, miséria e desgraça — com a omnipresente polícia que todas as semanas faz a maior apreensão de sempre.
Resta depois o país real, do qual quase nada sabemos. Crise económica? Mas os indicadores desmentem. A sociedade à beira de uma ruptura? Bem sei o quanto alguns desejam vingança sobre o buzinão da ponte, mas à parte a contestação profissional, que é paga para isso e ainda bem, não se vêem sinais de fumo. As duas questões deprimentes de Portugal têm décadas de existência, não decorrem deste governo — e não há quem não saiba disso.
Agora, não nos falta informação — nos media como nos blogues — sobre que país a classe em exercício dos cronistas políticos & similares gostava de ter. Como escreve Vital Moreira em Wishful thinking: “Por mais que os média ajudem, é impossível manter durante muito tempo a invenção de uma país à beiro do abismo. Quem está à beira de um ataque de nervos é quem procura à força tomar os desejos por realidades”.


Caro Paulo, não quero comentar o post, mas o mapa. Trata-se da primeira representação cartográfica de Portugal [com o reino dos Algarves à parte :-)] e foi feito por Fernando Álvaro (ou Álvares) Seco, tendo uma curiosa peculiaridade: o país era representado ao baixo, contrariamente àquilo a que estamos habituados e à forma como foi aqui publicado.
Os feelings são uma coisa espantosa e eu devia seguir os meus mais vezes. Caro Pedro, quando fui ao Google sacar uma imagem de Portugal rapidamente, que estava com pressa de sair para uma reunião, vi essa e diferenciava-se dos mapas convencionais e era bonita e nem hesitei e pensei, vou usar isto indiscriminadamente como um botão, estou aqui cheio de pressa nem reparo, e ainda me vão dizer que se trata de um mapa importante, adiante, logo se vê
Tenho uma representação do Algarve assim em gravura antiga, mal amanhada nas cores (cópia barata de alfarrabista lisboeta) que bem pode ser deste tempo, hei-de verificar.
“Crise económica? Mas os indicadores desmentem.”
E é realmente uma pena não conseguirmos viver de indicadores, por enquanto.
Tanto mais que os “indicadores” até são quase como o bacalhau já que há 1001 maneiras de os cozinhar.