Blogonomics

O artigo Euforia bloguista nos economistas publicado na edição 1770 do Expresso, neste 30 de Setembro de 2006, teve vida difícil e acabou por ser muito encurtado.
Em virtude desse golpe, as declarações dos dois autores citados no artigo foram amputadas de tal forma que não reflectem as respectivas respostas.
Decidi portanto publicar aqui, na íntegra e sem edição, as respostas de Rui Cerdeira Branco e Luís Aguiar-Conraria. Nas edições de papel e electrónica do Expresso ficou a menção, com o link, desta página com a versão completa e não editada das declarações.
Está também publicada no final desta página uma tabela com oito sugestões de leitura, cinco nacionais e três internacionais, elaborada para a primeira versão do artigo. De notar que um dos blogs referidos na tabela fora notificado acerca da publicação do link no Expresso, o que acabou por não se verificar, ficando aqui o meu pedido de compreensão.

Luís-Aguiar Conraria

“Há escassez de economistas na blogosfera?”

Depende do que entendamos por Economistas. Se considerarmos que Economista é aquele que se interessa por assuntos económicos então a resposta só pode ser uma. Não há escassez alguma, bem pelo contrário, pululam como cogumelos e parece que se reproduzem como coelhos.

Se falamos de pessoas que pensam sobre os assuntos económicos de uma forma analítica e cuidada, que têm uma formação de base (não necessariamente Economia) que lhes permite sustentar as suas análises (de forma a que o que escrevem seja mais do uma mera opinião), então, não havendo abundância, estamos muito longe da escassez.

É muito fácil dar exemplos de pessoas que têm escrito de forma pensada e relevante sobre assuntos económicos. O Hugo Mendes (sociólogo de formação, ‘Véu da Ignorância’), o João Aldeia (’Pura Economia’), Tiago Mendes (’Aforismos e Afins’ e ‘Mão Invisível’), André Azevedo Alves (’O Insurgente’), Paulo Pedroso (’Canhoto’) e João Miranda (’Blasfémias’). E podia, muito facilmente, apontar mais nomes.

“Ou há apenas escassez de economistas conhecidos (no sentido de figuras mediáticas)?”

Há escassez de figuras mediáticas. Ponto final. A blogosfera é um meio de comunicação duro. A resposta dos leitores é imediata. A resposta dos outros bloggers é bastante rápida. Não é fácil para uma figura mediática ter de enfrentar a controvérsia e o contraditório quase ao minuto. Repare-se que mesmo figuras mediáticas, como Pacheco Pereira, Ana Gomes, Vital Moreira, ou Medeiros Ferreira dificilmente participam de corpo inteiro no debate blogosférico (talvez esteja a ser injusto para com Vital Moreira). Constança Cunha e Sá e Vasco Pulido Valente foram a excepção das figuras mediáticas. Eram bloggers de corpo inteiro, infelizmente, um dia depois de terem superado as audiências de Pacheco Pereira desistiram.

Voltando à pergunta sobre economistas mediáticos. Em Portugal parece que só é mediático quem esteve no governo. Assim, o mais mediático será Paulo Pedroso. Penso que outros ex-ministros seriam, pura e simplesmente, cilindrados.

“Os blogues de economia, e os blogues de economistas, são usáveis enquanto ferramentas de ensino (falo da ligação directa aos alunos das faculdades de economia)?”

São. Não tenho nenhumas dúvidas de que sim. Eu ainda não usei, mas quando voltar a ensinar macroeconomia, ou economia internacional, tentarei criar com os alunos um blogue de debate. Penso que se aprende imenso a escrever, porque quando se escreve com cuidado é-se obrigado a ler com olhos analíticos. Os blogues puseram milhares de pessoas a escrever. Se se conseguir fazer o mesmo com alunos de Economia, especialmente se devidamente orientados, será excelente.

Penso que uma das grandes falhas dos Economistas é a sua grande incapacidade para comunicar com leigos e para desmontar argumentos essencialmente falsos apresentados por leigos. Por exemplo, chega a ser penoso ver como os economistas não conseguem explicar em público as vantagens do livre comércio internacional.

A blogosfera pode ser uma óptima forma de colmatar tais falhas.

“Ou são pedagógicos em termos mais, digamos, latos? (Ou não são de todo…?)”

Penso que a resposta anterior já responde a esta. Penso que em termos mais latos os blogues são, ou podem ser, úteis.

“As conversas (e discussões) em torno da economia, na blogosfera portuguesa, são mais úteis do ponto de vista do ensino ou do exercício da política?”

Questão muito interessante esta. Até agora tem sido mais útil como instrumento de debate político. Um exemplo relativamente recente foi o debate em torno da OTA e do TGV. Apenas quem seguiu a blogosfera teve oportunidade de acompanhar um debate sério, informado e profundo sobre o assunto. Quem apenas seguiu os jornais pouco de relevante leu. O que de mais interessante apareceu nos jornais foram alguns editoriais completamente baseados na blogosfera (não digo plágios porque tal acusação seria demasiado grave).

Penso que para já, a blogosfera pode ser um instrumento útil enquanto ferramenta de ensino de Economia Aplicada. Pode ser que a prazo, à medida que o conhecimento se torne mais importante do que a opinião, a blogosfera se torne mais útil como ferramenta de ensino de Economia Pura.

Rui Cerdeira Branco

1. Há escassez de economistas na blogosfera? Ou há apenas escassez de economistas conhecidos (no sentido de figuras mediáticas)?

Em Portugal: Economista a bloggar desconfio que há muitos. Conheço uns poucos. Economistas a bloggar especificamente sobre Economia é que é mais raro. Conheço os exemplos que já mencionei e nenhum deles julgo corresponder (por enquanto) ao universo de figuras mediáticas ou sequer de referência no meio académico. Sei de alguns exemplos de utilização de sites pessoais (baseados nas universidades) por parte de professores para disponibilizar matérias adicionais aos alunos mas não conheço nenhum que use um blogue com a interactividade que estes pressupõem. O que é mais comum é encontrar economistas/gestores que foram e são políticos a comentarem política económica ao estilo da oposição política do momento o que é outra coisa (Tavares Moreira, Miguel Frasquilho…no 4ª republica por exemplo). Mas os exemplos dados por prémios nobel não tem seguidores que eu conheça por cá.

2. Os blogues de economia, e os blogues de economistas, são usáveis enquanto ferramentas de ensino (falo da ligação directa aos alunos das faculdades de economia)? Ou são pedagógicos em termos mais, digamos, latos? (Ou não são de todo…?)

Em Portugal: O melhor exemplo que conheço que frequentemente -o frequentemente é relevante, pois quando está activo o blogue centra-se particularmente na economia - me parece gerar “externalidade positivas” nos âmbitos que citas é o Pura Economia do João Aldeia. Mas prega sozinho com pouca interacção por falta de interlocutores no que se refere ao debate, por exemplo. Contudo, apresenta sugestões de leitura, recensões, aponta novidades na área. Já dei por mim a recolher ideias e investigar novidades (ainda que sem fins académicos). Imagino que um aluno também possa fazer este percurso. Comparado com o que há lá por fora na blogoesfera estamos a anos luz. Escuso-me a conjecturar sobre os porquês deste estado das coisas por cá, mas as ideias que me vêem à cabeça são muito pouco abonatórias para a comunidade docente de economia. Infelizmente, o cenário não é surpreendente. Vamos acreditar que os docentes/ investigadores utilizem outros métodos para realizar os seus debates e promover o seu ensino e (ainda) não tenham percebido que há um lugar para o modelo do blogue no meio académico.

3. As conversas (e discussões) em torno da economia, na blogosfera portuguesa, são mais úteis do ponto de vista do ensino ou do exercício da política?

Como ponto prévio convém esclarecer que uma das vertentes da economia ocupa-se da política económica, mas esta ciência está longe de se resumir a ela. Dito isto é evidente que é essencialmente no campo da política económica e dos suportes ideológicos que sustentam várias correntes de pensamento económico que se centra a maioria das conversas/discussões. Demasiadas vezes revela-se impossível criar uma base comum de análise partindo de indicadores consensuais sobre o que foi ou está a ser a economia nacional, o que diz muito do nível do debate subsequente e suas limitações. Contudo, isto nem sempre acontece e não desprezo que há uma vantagem pedagógica na discussão em torno da política económica. Por um lado, há o confronto de extremos particularmente cristalino na blogoesfera (algo pouco visto no mundo da política pura e dura do dia a dia), confronto que tendo muito de caótico pode servir os não engajados que assistam criticamente ao que se discute. Por outro, qualquer economista que se preze e que se proponha ser um técnico competente que apresenta instrumentos e alternativas ao político para este levar a cabo a sua política económica deve perceber, o mais cedo possível, que existem dois mundos distintos: o do economista e o do político.
O trabalho de um economista que se propõem ser um cientista de um fenómeno social complexo é já de si suficientemente exigente, convém por isso que este conheça de antemão o que costuma vir por acréscimo com as sugestões/ caminhos apresentados por si ao político, bem como, convém ter bem presente que ele próprio só deve tecer considerações políticas depois de ter apurado com honestidade científica os dados sobre os quais estudará os caminhos possíveis. O tipo de reacções, os argumentos e “argumentos” e o debate directo que existe nos blogues pode servir de aproximação a esse outro lote de consequências das medidas de política económica propostas para economistas “menos rodados” ou em formação… Esta dialéctica está latente em muitos dos debates e discussões havidas na blogoesfera em torno da opções de política económica. Nesse sentido havendo já uma capacidade crítica mínima por parte do leitor/aluno, identificar quando há clareza e confusão de papéis, onde começa o papel de economista e o do político, é altamente pedagógico. Seria interessante que alguns professores de política económica levassem alguns desses debates, particularmente os mais extremados para as salas de aula e com eles discutissem precisamente esta questão da fronteira que define em boa parte o papel do economista. Tenho ideia que há na economia bem menos certezas e relações univocas dominantes do que aquelas que transparecem em muitas das discussões na blogoesfera. Talvez partindo da blogoesfera para os clássicos, cabendo ao professor o upgrade qualitativo do debate, estes debates tivessem de facto um contributo pedagógico que não no estrito sentido da discussão política (que também não é desprezível). Há alguma cultura económica de borla disponível na blogoesfera, isso é um facto.

A chatice (ou talvez não) é que tudo isto é avulso, tão depresa se discute a eficácia de uma medida de política económica como se comenta a espantosa versatilidade onomástica dos nomes dos craques da bola que vêm do Brasil. A especialização mora ao lado. É só espuma e mesmo esta muito dispersa. Pela minha parte, gostava de poder aprender mais qualquer coisa de economia portuguesa na blogoesfera lusa, no bom espírito fundador da Internet.

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Em Portugal

Canhoto, ocanhoto.blogspot.com
referência: Paulo Pedroso, ex-ministro do Trabalho e da Solidariedade

A destreza das dúvidas, aguiarconraria.blogsome.com
referência: Luís Aguiar-Conraria, economista, professor na Universidade do Minho

Adufe 3.0, adufe.blogsome.com
autor: Rui Cerdeira Branco, economista, mestrado em estatística

O Insurgente, oinsurgente.blogspot.com
referência: André Abrantes Amaral, advogado

Pura economia, puraeconomia.blogspot.com
autor: João Aldeia, economista

Lá fora
The Becker-Posner blog, becker-posner-blog.com
referência: Gary Becker, Nobel da Economia em 1992

The conspiracy to keep us poor and stupid, poorandstupid.com
Autor: Donald Luskin, consultor

The daily dish, time.blogs.com/daily_dish
Autor: Andrew Sullivan, doutorado em ciência política