Blogues: o Público no caminho certo

No que respeita ao uso de blogues dentro de jornais, o Público deu mais um passo no caminho certo com o Tecnopolis. É um blogue escrito pelo João Pedro Pereira, jornalista da casa, e segue a lógica que vemos por exemplo no The Guardian, no El País e no The New York Times: ter os próprios jornalistas e cronistas a blogar directamente em espaços destinados ao efeito, além de convidados escolhidos a dedo (ou comprados no mercado…)
Só falta agora o João Pedro conseguir uma ligação mais efectiva à edição, e vice-versa. E falta, também, alguma massa crítica. Isto é: mais blogues da casa, que possam estabelece diálogos (ler: links) entre si.
O caso do “meu” Expresso é diferente: há jornalistas da casa — a começar pelo director — a blogar, mas como a ferramenta de edição é a mesma do jornal, por um lado faltam-lhe os típicos mecanismos dos blogues, não “puxando” o autor para o uso das técnicas de escrita em rede, e por outro surgem como extensões diárias dos espaços de opinião da edição semanal, quando não apenas de reproduções desses espaços.
Dito de outra forma: as linguagens (discurso, design, …) usadas são as mesmas, dificultando a imposição na blogosfera, que não (se) reconhece (n)aqueles textos.
O Expresso Multimedia permanece, por isso, um pouco em circuito fechado, lido e comentado pelos leitores da edição online e com poucas ligações à web, sendo que as que existem são de fora para dentro, isto é, são estabelecidas pelos blogues que fazem links para o Expresso. O monólogo persiste sobre o diálogo.
Eu sei que é muito difícil dar a volta a isto. Vejo o esforço da equipa do Expresso Multimedia, que procura estabelecer links internos e externos nas peças da actualidade (noticiário). Mas a iniciativa de dialogar e hipertextualizar nos blogues tem de partir de quem os escreve, não há edição que resista a isso, e muito menos uma edição a quem já se pede demais para os meios que se lhe oferece.
No Público, e com a excepção do António Granado, também se notou esta dificuldade de os seus bloggers se integrarem nas linguagens e hábitos do blogging, mas as iniciativas mais recentes (o Ciberescritas e o Tecnopolis) vêm corrigir isto.
Agora (e apesar da dificuldade técnica de chamar “blogue” aos espaços opinativos do Expresso): em centenas e centenas de edições online de jornais, televisões, rádios e revistas portuguesas, estes dois são praticamente os únicos casos que conheço em que existem blogues associados à marca. Este atraso é preocupante quando pensamos no futuro desses negócios a médio prazo. Sem presença nem actividade nos locais onde estão os futuros leitores de um órgão de comunicação, fica mais difícil chegar até eles. E entretanto as alternativas tomarão conta dessas ligações.
E não é por falta de bloggers. Há uma quantidade apreciável de jornalistas, de todos os títulos, que são bloggers por conta própria, e que poderiam facilmente trabalhar para a marca.
Então porque é?

Debate

6 opiniões no artigo “Blogues: o Público no caminho certo”

    1 Alexandre Gamela em 18 Jun 08 16:27

    Eu estou disponível e não levo caro heheh. Mas também me parece que muitos dos blogues que existem associados a jornais são virados para dentro, ou seja, são colunas de opinião digitais, que não promovem o diálogo, e como não são - na sua grande maioria- realmente interessantes, é natural que não cativem um utilizador que já tenha uma lista própria de feeds de blogs independentes. Felizmente há excepções e curiosamente quase todas pertencem ao Público. Acredito que as coisas mudem gradualmente.

    2 Mário em 18 Jun 08 16:51

    Acho que pequenos produtores independentes (como eu) poderiam colaborar com os media, dessa forma construindo a pouco e pouco uma economia de colaboração que criasse vantagens para ambos os lados.

    3 Paulo Querido em 18 Jun 08 17:06

    Eheh. Ambos (Alexandre e Mário) seriam de grande utilidade para qualquer jornal. Assim algum jornal perceba isso.

    4 Bino em 18 Jun 08 18:00

    Houve uma coisa que o António Granado disse nas conversas Superbock que até hoje não consegui esquecer, foi quando referiu que apenas meia dúzia de jornalistas do Público é que tinham blog.
    Fiquei surpreendido. Ser jornalista e não ter um blog é como ser futebolista e não ter uma bola em casa.

    5 tina oiticica harris em 18 Jun 08 22:09

    O que vejo no LATimes é que os melhores blogues ditam a tônica da seção. Por exemplo, Bill Plashke, esportes, saiu na capa do caderno principal hoje depois da vergonha pela qual os Lakers passaram em Boston ontem.

    Acho que os chamaríamos de colunistas de respeito, como os do passado jornalístico do Brasil.

    Boa noite, Paulo Querido!

    6 Paulo Querido em 19 Jun 08 01:07

    Ser jornalista e não ter um blog é como ser futebolista e não ter uma bola em casa.” LOL!

    (Passadas 5 horas de a ter lido, ainda estou a matutar na frase, tão redonda ela é.)

    O LA Times tb faz um bom uso dos blogues, sim. Acompanho menos, porque não há tempo para tudo, mas estive lá a saltitar mesmo antes de escrever este texto.

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