O negócio dos links. No Público

o negocio dos linksSaiu hoje a minha segunda reportagem produzida para o Público: O negócio dos links. Está no P2, páginas 8 e 9, e pode ser vista na imagem ao lado (abre maior clicando em cima). Também pode ser vista online na versão PDF do Público, aqui. Partindo do caso da Associated Press, a peça dá conta da emergência do link como uma nova moeda.
A teoria não é propriamente desconhecida na web, a vantagem do artigo é — e agradeça-se ao Público por isso — levar para o círculo de pessoas que ainda só confia no que lê no papel de jornal um assunto cada vez mais pertinente para a indústria do jornalismo.
Entre outros interlocutores a peça cita Bruno Giussani (Lunch over IP, Ted Conferences), que foi amável comigo na troca de correspondência que mantivemos sobre isto, e Pedro Dória (Pedro Doria | Weblog), O Estado de S. Paulo, cuja leitura seca e directa sobre a relação entre os mainstream media e a blogosfera é de grande valia.
A Questão Essencial, e à qual gostaria de ter tido a resposta de Jeff Jarvis, mas não chegou a tempo para a edição papel, é esta: a economia dos links gerará alguma vez valor suficiente para pagar os custos do bom jornalismo, que são pagos em dinheiro (para não falar das vidas)?

Debate

11 opiniões no artigo “O negócio dos links. No Público”

    1 A resposta é o link « Synergias em 9 Jul 08 19:07

    [...] 9, 2008 · Sem Comentários De um Paulo para outro Paulo: belo trabalho! Balão de oxigénio na imprensa escrita [...]

    2 Miguel Caetano em 10 Jul 08 00:54

    a economia dos links gerará alguma vez valor suficiente para pagar os custos do bom jornalismo, que são pagos em dinheiro (para não falar das vidas)?

    É ilusório colocar as coisas desse ponto de vista como se o grande Jornalismo de Investigação, as grandes reportagens - que representaram sempre apenas uma parte ínfima da produção noticiosa dos media em geral, principalmente em mercados menos desenvolvidos como o português - tenha que depender sempre do investimento de enormes recursos em termos financeiros e de tempo de dinheiro por parte de jornalistas “profissionais” que passam meses a vasculhar por todos os cantos do mundo por pequenas pepitas de informação cedidas a muito custo por fontes privilegiadas e confidenciais. Isso é a visão ideológica de uma classe profissional que raramente correspondeu à realidade. Faz parte da ideologia do jornalismo, assim como a objectividade. Os jornalistas são pessoas como as outras mas que beneficiam do seu estatuto profissional para ter acesso privilegiado a informação que em condições normais o cidadão comum não teria acesso.

    Muito mais proveitoso do que fazer a contabilidade dos números dos postos de trabalho que os media tradicionais foram sacrificando ao longo dos últimos meses (anos?) é contar o número de blogs nos mais variados nichos criados ao longo dos últimos anos que se dedicam não só a reciclar informação mas também a agregá-la, a analisá-la ou até mesmo a comparar pontos de vista opostos sobre essa informação. É evidente que o vínculo contratual desses bloggers com os seus “empregadores” - quando não se trata de um projecto individual… - é muito mais precário e instável. Isso pode dar azo a eventuais tentações de relações promiscuas com empresas tanto por parte dos autores como dos proprietários dos blogs. Mas é igualmente óbvio que isso sempre foi o pão nosso de cada dia de todos os media que dependem da publicidade ou do financiamento estataL. Ninguém é santo, ao contrário do que a “ideologia” do jornalismo prega.

    Temos que encarar a transformação da actividade jornalística numa perspectiva económica e tecnológica, como uma mudança de paradigma. A notícia deixa de ser um produto acabado para passar a ser um work-in-progress colaborativo. Por mais aberrante que isso possa parecer para um jornalista da “velha guarda”, o modelo de futuro irá aproximar-se mais do da Wikipédia do que do New York Times do século XIX do famoso lema “All The News That Fit To Print”. A questão é que esse modelo de jornalismo-wiki necessita de inventar mecanismos de credenciação e reputação suficientemente eficazes de forma a assegurar pelo menos uma parte da confiança a que os melhores media tradicionais nos habituaram, seguindo princípios de funcionamento semelhantes aos do software livre. Será o Wiki Leaks jornalismo? E o F*cked Company, será que foi alguma vez jornalismo? E o Indy Media? E o Rue89?

    Partir do princípio de que os bloggers e as wikis são apenas parasitas da informação produzida por jornalistas é uma visão bastante maniqueísta. A Internet faz com que a ideologia do jornalismo deixe de fazer sentido porque torna-se muito mais fácil obter o acesso directo à informação junto da própria fonte de origem e combiná-la com outros dados de modo a fornecer um contexto. Não quer dizer que toda a gente tem o mesmo acesso à informação ou que está tudo disponível na Internet mas também não quer dizer que a pessoa responsável pela divulgação de informação com valor noticioso via Internet seja sempre um jornalista. Lembro-me disso a propósito de um tiroteio que ocorreu no ano passado na universidade Virgina Tech nos EUA e cujo primeiro relato fidedigno partiu de um dos estudantes que decidiu descrever o que é que se estava a passar através do seu blog no Livejournal. Na altura, o único jornalista que se lembrou de pesquisar na Internet por informação foi o Robin Hamman. Quer queiramos, quer não, o link tornou-se uma ferramenta jornalística,

    Quero com isto dizer que é toda a ideologia, os princípios e o modo de funcionamento do jornalismo profissional que necessitam ser reformados. Será que o jornalista foi o primeiro a reger-se pela procura da verdade, pela objectividade, por apresentar todas as perspectivas possíveis sobre um determinado evento ou tema e por enquadrar os factos num contexto temporal mais longo? Em que é que isto é único e exclusivo da actividade jornalística? O que é o bom jornalismo? Por exemplo, embora eu não concorde com a esmagadora maioria das opiniões do Economist eu gosto muito de ler os artigos deles. No entanto, eles combinam factos brutos com opinião, fazendo por vezes recurso ao humor. Isso quer dizer que os escritores do Economist não são jornalistas?

    3 Paulo Querido em 10 Jul 08 05:41

    Miguel, mais que ser a visão ideológica, é a visão idílica que alguns jornalistas (e não só) gostam de dar (e de ter) da profissão que exercem.

    Apesar disso, ou talvez em nome dessa “ideologia”, continuam a morrer centenas de jornalistas por ano.

    A tua deslocação do eixo da pergunta para fora do meu âmbito não consegue porém escamotear o essencial: a economia dos links, que é absolutamente vital para a sobrevivência online de um projecto jornalístico, não se afigura capaz de gerar o valor suficiente para pagar os custos do projecto — põe bom jornalismo nisso, põe menos bom jornalismo nisso, ou põe os bloggers nisso (sabes tão bem como eu que a questão se coloca da mesma forma; a diferença é que um blogger pode, eventualmente, trocar outras e-moedas, como o prestígio e a notabilidade, no mundo real — conferências, livros, palestras, consultoria — e um jornalista não o fará).

    Continua a faltar qualquer coisa. O elo perdido, ainda por descobrir, que trará a indústria do jornalismo para a rede. Ou então esta nunca existirá — é uma possibilidade que não descarto e alguns autores insistem nela.

    Atenção: a contabilidade dos postos de trabalho tem de ser feita. Faz parte da natureza da sociedade.

    Estás a sobrevalorizar os aspectos ideológicos e até filosóficos deste assunto, que são apaixonantes e eu não recuso debatê-los. Mas o que dita a evolução do jornalismo são as questões económicas que o enquadram. E, posso recordar, a minha questão é de âmbito económico.

    Eu sou dos que acha que a mudança de modelo de distribuição coloca a nú a existência de demasiadas repetições de noticiário. Não tanto a mudança tecnológica, não tanto a mudança económica (embora ambas também), mas sobretudo a mudança geográfica — a geografia fazia parte essencial da mais valia da indústria do jornalismo. Na Internet uma notícia está simultaneamente em todo o lado onde haja um leitor para ela. É ubíqua. No mundo atómico, não é isso que se passa. Uma notícia de Coimbra fica em Coimbra até ser de lá tirada por um jornal de Aveiro, que vai distribuir uma cópia aos leitores de Aveiro; a valia passou a estar no transporte de Coimbra para Aveiro. Depois, há outra vez mais valia no transporte de outra cópia para os leitores de Lisboa, e assim sucessivamente, mudando de geografia, ou mesmo de escala (passando aos leitores nacionais, continentais, intercontinentais; aqui pode haver lugar a um pequeno acrescento de valor à cópia, nomeadamente envolvendo-a a explicando-a a leitores distantes da cultura original; valor da “tradução cultural”, se me faço entender.).
    O dom da ubiquidade que caracteriza a Internet explode esta economia. Fica bem patente, por exemplo, nas notícias da Lusa: vemos espalharem-se cópias de site em site, sem qualquer valor acrescentado para ninguém, introduzindo uma camada de ruído que a prazo satura os leitores de um título.
    A primazia da “cacha” — a corrida para dar primeiro que os outros — que é sacrossanta para todo o jornalista, transformou-se na web. Aqui, a corrida não é para levar uma cópia aos leitores antes do concorrente, mas sim para ter uma matéria o mais original e interessante possível. A web valoriza muito a originalidade. É estranho dizer isto sobre um meio onde a cópia e a transcrição constituem a esmagadora maioria dos conteúdos? À primeira vista, é. Mas numa segunda leitura percebemos que é uma inerência da rede: num local onde toda a gente diz as mesmas coisas ao mesmo tempo, os mecanismos de refinamento procurarão seleccionar não quem grita mais alto (é economicamente inútil, pois que sabemos que todos gritam o mesmo, não tem valor, ou só tem meta-valor), mas sim quem fala diferente.
    É por isso que a reputação tem um papel tão importante na rede. É mais linkado aquele que ao longo de um período de tempo suficientemente lato mais vezes disse coisas originais que forem realçadas (na mouche, qualquer um pode acertar uma vez; mas só os grandes atiradores acertam repetidamente). Quem só copia tem menos links e menos visitas. O lufa-lufa do blogging consiste em identificar primeiro os pensamentos originais, que marcam a diferença, e comentá-los, adicionar-lhes algum valor. E de vez em quando conseguir uma originalidade com valor próprio, uma pepita (um post que vai ter muitos links, lá está).

    O Remixtures é um exemplo perfeito para observar. Tornaste-te uma autoridade na tua área. Graças a quê? Não foi certamente a copi-colares textos de outros nem a maledizeres os gajos da indústria musical antiga, ainda que também o possas fazer. Foi por mais vezes transmitires valor aos teus leitores, valor através do teu trabalho minucioso e do teu discernimento, que te diferencia da barulheira e da falta de tpc que caracteriza a maioria das publicações sobre a música e o confronto dos modelos antigo e novo.

    Voltando ao assunto da economia do jornalismo, é claro, portanto, que o modelo de 300 meios levarem as mesmas notícias a públicos diferentes, gerando valor com o transporte, não tem cabimento num contexto de rede ubíqua à escala planetária, onde a informação está disponível instantaneamente onde haja um consumidor que a demande. Logo, a primeira reacção é aquela que estamos a assistir e a viver: redução do número de jornalistas nas Redacções de meios operadas por gestores que simplesmente não perceberam, como eu escrevi no artigo, qual é agora o negócio deles.
    A segunda reacção, ou movimento, vai ser reunir as pessoas capazes de gerar, repetidamente, conteúdos originais, ou de grande utilidade (vivendo imerso em informação, é difícil seleccionar e identificar o importante — o papel do jornalismo nunca foi tão importante, quanto mais rico em informação for um ambiente, mais necessita de filtros e passadores que apurem as natas), ou de grande importância (a reportagem de conflitos armados, a geo-economia, o jornalismo de atenção, o jornalismo-coragem dos jornalistas capazes de ver para além do que lhes impingem os políticos e os empresários).

    Agora, convergindo contigo: “A notícia deixa de ser um produto acabado para passar a ser um work-in-progress colaborativo“. Yep. Mas isto não vai contra nada do que é o jornalismo. Em qualquer redacção, a notícia sempre foi vista como um work in progress, a única novidade, e é relativa, é a parte do colaborativo: alguns jornalistas terão dificuldades aqui. A notícia só é um produto acabado na medida em que tinha de ser embalada para distribuição: eu fechava o Diário Popular às 12:45 com fotos feitas a correr para a capa, que 5 minutos depois de serem fotografadas para a rotativa “desapareciam” (para acelerar o processo, não eram praticamente fixadas); mas o Eurico Vasconcelos a seguir dava-nos, com tempo, uma cópia do boneco para pensarmos aquele assunto para o dia seguinte.

    Tens dos jornalistas da velha guarda uma visão, eu diria, demasiado romântica :) A velha guarda estava muito próxima do leitor, que não era a entidade abstracta em que foi transformado a partir dos anos 90, graças em grande parte à televisão, que massificou brutalmente o jornalismo. Os meus jornalistas de referência, hoje quase todos desaparecidos (as velhas guardas sucedem-se…), comiam nas mesas ao lado dos leitores e dos produtores de notícias. O processo de recolha e trabalho de uma informação até a tornar notícia passava por um colectivo de gente que está bastante além dos jornalistas. Ainda hoje passa, embora eu possa admitir que se têm vindo a erguer fronteiras dentro da Redacção.

    A questão é que esse modelo de jornalismo-wiki necessita de inventar mecanismos de credenciação e reputação suficientemente eficazes de forma a assegurar pelo menos uma parte da confiança a que os melhores media tradicionais nos habituaram“.

    Bem. Essa é uma questão. A mim, essa preocupa-me menos. Observo a evolução na web e consigo ver os mecanismos a emergir, ainda em fases de muito lixo, mas a emergir já na forma final. Menos Digg (a questão dos escrúpulos) que Meneame (ou DoMelhor, já agora), mais Huffington Post e Techcrunch que 31 da Armada, mais ElPaís.com que Expresso, mais Reuters que AP, mais Current.tv que SIC, mais Newswine e del.icio.us, mais Twitter, consigo ver.

    A outra, a minha, é: esse modelo de jornalismo enquanto work in progress colaborativo necessita de inventar os mecanismos de repartição das mais valias geradas suficientemente eficazes para garantir os salários e remunerações sem as quais não há lugar à fixação das pessoas — e a fixação das pessoas é fundamental para a evolução. Mesmo a Wikipedia evolui enquanto modelo e também quantitativamente não pelos milhões de editores ocasionais, mas pelas centenas que se fixaram em torno do projecto.

    (Nota: talvez o jornalismo se venha a aproxima menos da Wikipedia e mais do Wikia. Mais da Reuters e do NYT que da Lusa e da BBC.)

    O WikiLeaks é jornalismo. O F*cked Company foi durante anos uma fonte de jornalistas, mas no seu core não é jornalismo (nem pretende). O Indy Media é tão jornalismo como O Diabo ou a TV 7 Dias, onde está a dúvida? Há público que gosta de ver o mundo de formas estranhíssimas, concordo, mas será menos jornalismo, ou não será jornalismo, procurar as coisas que lhes interessam — um definição de notícia, aí está — e levar-lhas? O Rue89 conheço muito mal, mas pareceu-me jornalismo.

    Partir do princípio de que os bloggers e as wikis são apenas parasitas da informação produzida por jornalistas é uma visão bastante maniqueísta.
    Sem dúvida. Recuso tal visão. Descreveria a relação mais como uma simbiose. Por outro lado, partir do princípio que os bloggers sobreviveriam sem a informação produzida por jornalistas, é uma visão bastante humorista.

    Respostas às tuas perguntas:

    Será que o jornalista foi o primeiro a reger-se pela procura da verdade, pela objectividade, por apresentar todas as perspectivas possíveis sobre um determinado evento ou tema e por enquadrar os factos num contexto temporal mais longo?
    Não. Devo acrescentar que a objectividade é introduzida tardiamente na actividade jornalística, já no século XX, e mais como um instrumento de trabalho do que como uma finalidade. Quem disser o contrário (que é uma finalidade do jornalismo) ou é idiota ou é mal intencionado e o castigo é enfiar-se na Hemeroteca e ler os jornais para trás — e pode cingir-se apenas aos jornais de referência, que é onde há mais casos, e mais claros, de olhar inclinado. A objectividade é um método, não um estado ou uma faculdade.

    Em que é que isto é único e exclusivo da actividade jornalística?

    Em nada.

    O que é o bom jornalismo?
    É o jornalismo que resulta em valor para o leitor. Quanto mais valor este receber, melhor foi o jornalismo praticado.

    Por exemplo, embora eu não concorde com a esmagadora maioria das opiniões do Economist eu gosto muito de ler os artigos deles. No entanto, eles combinam factos brutos com opinião, fazendo por vezes recurso ao humor. Isso quer dizer que os escritores do Economist não são jornalistas?
    Não. Quer dizer que os jornalistas da Economist são invulgarmente bons (e praticam o método da objectividade, começando por declarar quais são os seus biases, e encontrando bons factos e sabendo relacioná-los uns com os outros, perseguindo o que sucedeu e tentando encontrar uma explicação that fits).

    4 Paulo Querido em 10 Jul 08 06:36

    Sobre objectividade, bias e jornalismo (e bloguismo), sei que vais gostar de ler isto: Biases Affecting Information Processing. Faço notar a data. Repara na sua premência hoje.

    (Sidenote: é o 4º SERP para a busca por biases. Os algoritmos da Google são tão belos como a Vénus de Milo e tão admiráveis como a Grande Pirâmide e a Torre Eiffel, o que há, é pouca gente para dar por isso)

    5 Miguel Caetano em 10 Jul 08 11:47

    a economia dos links, que é absolutamente vital para a sobrevivência online de um projecto jornalístico, não se afigura capaz de gerar o valor suficiente para pagar os custos do projecto

    Talvez não em mercados pouco desenvolvidos como o português. Mas a questão é que um projecto jornalístico online já não irá ter a mesma estrutura de funcionamento e os mesmos custos financeiros do que um jornal ou uma revista offline. Aliás, ele poderá inclusive não contar com um quadro fixo de pessoal mas apenas com escritoes a tempo parcial.

    A segunda reacção, ou movimento, vai ser reunir as pessoas capazes de gerar, repetidamente, conteúdos originais, ou de grande utilidade (vivendo imerso em informação, é difícil seleccionar e identificar o importante — o papel do jornalismo nunca foi tão importante, quanto mais rico em informação for um ambiente, mais necessita de filtros e passadores que apurem as natas), ou de grande importância (a reportagem de conflitos armados, a geo-economia, o jornalismo de atenção, o jornalismo-coragem dos jornalistas capazes de ver para além do que lhes impingem os políticos e os empresários).

    Pois, mas talvez esse jornalismo esteja já a ser feito pelas próprias pessoas que vivenciam os factos no terreno, talvez não de uma forma organizada, objectiva e imparcial. Por exemplo, talvez os relatos mais fidedignos ou pelo menos completos da guerra no Iraque tenham vindo dos próprios bloggers iraquianos. Os custos, os sacríficios que esses bloggers incorrem no seu dia-a-dia quase nunca são recompensados em termos financeiros e muitos acabam assassinados. Do mesmo modo que hoje em dia se eu quiser obter informação realmente fidedigna sobre um conflito militar qualquer numa zona distante do globo ou sobre uma crise política ou económica eu vou ao Global Voices Online que se “limita” a agregar e a filtrar a informação disponibilizada por milhares de bloggers em todo o mundo mas que nos permite obter os mais variados pontos de vista sobre uma questão. A maioria dos tradutores, autores e editores-bloggers do Global Voices Online são voluntários.

    A outra, a minha, é: esse modelo de jornalismo enquanto work in progress colaborativo necessita de inventar os mecanismos de repartição das mais valias geradas suficientemente eficazes para garantir os salários e remunerações sem as quais não há lugar à fixação das pessoas — e a fixação das pessoas é fundamental para a evolução. Mesmo a Wikipedia evolui enquanto modelo e também quantitativamente não pelos milhões de editores ocasionais, mas pelas centenas que se fixaram em torno do projecto.

    Sim, mas será que essas centenas de editores são remunerados por essa actividade? Será que eles se dedicam a tempo inteiro a essa actividade? Na maioria dos casos, a resposta é não. Voltando ao exemplo do Global Voices Online, acho que o modelo de funcionamento deste projecto é bastante instrutivo no que toca ao jornalismo online. Mostra que ao contrário do que o Bruno Giussani quer fazer passar, em certas áreas muitos dos bloggers já substituem os media tradicionais. Para além disso, é toda uma cadeia de produção e edição de informação que dispensa o investimento de elevadas quantias de dinheiro a que os media tradicionais, os bastiões do jornalismo, nos habituaram. Será que as pessoas que contribuem para o projecto fariam um melhor trabalho se fossem remuneradas? A lição que poderemos tirar daqui é que quando se trata de uma actividade de produção intelectual - quer seja informação, cultura ou conhecimento -, e quando todos têm acesso às mesmas ferramentas tecnológicas - cujo custo tende a ser cada vez menor - talvez seja mais importante gerar uma comunidade onde o maior número possível de pessoas se sintam motivadas a participar do que remunerar mais de uma dezena de profissionais.

    Talvez a economia dos links não dê para financiar um modelo económico de produção jornalística aproximado ao anterior. Mas o mais provável é que daqui a uns anos acabaremos por verificar que não faz sentido tentar recuperar esse arcabouço económico no ecossistema digital porque já não precisamos dele. É evidente que isto implica uma série de mudanças bastante traumáticas para uma série de empresas um pouco por todo o mundo. Mas há quem prefira continuar a viver na ilusão de que os jornalistas constituem a fonte exclusiva de abastecimento de notícias, quando isso já não é assim e vai deixar de ser cada vez mais assim. Mas daqui a uns anos já ninguém dará por falta de nada…

    6 Paulo Querido em 10 Jul 08 14:48

    Miguel, as diferenças são sobretudo económicas. A estrutura de custos é completamente diferente. A questão é: o valor gerado pelos links será suficiente para cobrir os custos? Refiro-me à estrutura de custos online, não me refiro a réplicas do papel ou da antena. Não me interessa se há menos custos ou mais custos: há custos, ponto final.

    Os serviços baseados no trabalho voluntário (Wikipedia) funcionam apenas num ecosistema que não dependa deles. É uma visão utópica, essa de um mundo de informação assente na produtividade de voluntários. É uma visão que deixa o capital a arfar, de língua na boca, mas infelizmente para o capital, não é realista. O trabalho voluntário tem de ser encarado como complementar. Válido, claro. Tem vindo a ser valorizado crescentemente.

    Insistes na Wikipedia, mas a Wikipedia é apenas um formato. há mais. A história do software open source comprova que um modelo não substitui completamente outro; o mercado adapta-se a ambos, retirando de cada modelo o seu melhor. A Rue89 tem jornalista profissionais (profissionais as in remunerados). O TechCrunch é produzido por uma equipa de jornalistas que têm ali o seu principal emprego (alguns deixaram empregos nos MSM). O Huffington Post segue o mesmo caminho. O Darren ganha bem com o Problogger, escrito só por ele e alguns convidados (que não recebem, que eu saiba). A maior parte do trabalho de primeira página do Digg é feito por pessoas que recebem por isso (o problema é não conhecermos bem os modelos de financiamento). Há muitos modelos, não valorizemos como exemplo apenas um deles.

    A questão da diferença tem mais a ver é com a pergunta que o Pedro Doria coloca, e bem, na boca dos empresários do meio: qual é agora o negócio? É que o negócio deixou de ser embrulhar publicidade com notícias (ou vice-versa) e levar o produto ao cliente, cobrando a montante (publicidade) e a jusante (consumidor).

    O jornalismo testemunhal sempre existiu. não há aqui nada de novo, nem capaz de alterar. A agregação mudou de lugar, mas não é por surgirem mais agregadores que desaparecem os títulos de jornais, ou nestes o jornalismo em cima do “raw material” que os agregadores agrupam.

    Enquanto cidadão especializado em tratar informação, tu tendes a ver o mundo como composto por teus iguais. Não é. A grande maioria das pessoas, ontem, hoje e amanhã, está disposta a pagar um preço para que lhe facilitem o processo de aquisição de informação que considerem útil, relevante — ou simplesmente desejem ter.

    O Giussani não diz isso, mas o contrário. Ele admite que há áreas onde o blogging substitui, com vantagem até, o que até aqui fazia parte do produto tradicional. Cabe repetir que o produto de média tradicional comporta o jornalismo em doses variáveis; para dar um exemplo, num canal de TV generalista que emite 24 horas, tens umas 4 ou 5 de jornalismo, o resto é entretenimento, divulgação, etc; não falamos SÓ de jornalismo quando falamos de media.

    E *depois* de o admitir, questiona: como pagar as áreas de intervenção que permanecem fora do âmbito do cidadão comum, continuando reservadas a equipas especialistas?

    Aliás, na sequência disto, há autores que falam de uma espécie de purificação do jornalismo através da web, que terá sido contaminado na segunda metade do séc XX por se ver metido em produtos duvidosos. Não sou desses, mas não deixo de espreitar a teoria.

    A lição que poderemos tirar daqui é que quando se trata de uma actividade de produção intelectual - quer seja informação, cultura ou conhecimento -, e quando todos têm acesso às mesmas ferramentas tecnológicas - cujo custo tende a ser cada vez menor - talvez seja mais importante gerar uma comunidade onde o maior número possível de pessoas se sintam motivadas a participar do que remunerar mais de uma dezena de profissionais

    Miguel, vê o Top 100 do Technorati, vê a evolução dele ao longo dos últimos 4 ou 5 anos. E depois repete-me a frase. Tens — aí sim — uma carga ideológica, um desejo, mais que uma realidade.

    Dito isto, é claro que o processo jornalístico muda e vai mudar e vai equalizar-se, se quiseres, com o público. A passagem do modelo emissor a modelo conversacional é de grande importância. É uma má imagem, mas pronto: deixa de ser um sistema simbiótico em que o jornalismo é a “vaca” e o leitor-blogger a “ave parasita”, mas continuará a ser um sistema simbiótico onde a “vaca”, determinante ou não penso ser cedo para responder, continua a ter o maior quinhão de responsabilidade.

    Mas há quem prefira continuar a viver na ilusão de que os jornalistas constituem a fonte exclusiva de abastecimento de notícias, quando isso já não é assim e vai deixar de ser cada vez mais assim.
    Não vejo que ainda haja muita gente nesse patamar. Mesmo quem não se mexe — os directores, os decisores — não é por ter essa ilusão, mas por não saber ainda bem para onde se mexer (qual é, agora, o meu negócio?). As alternativas de abastecimento aumentaram necessariamente com a democratização do acesso aos meios de produção de informação e o desaparecimento das barreiras físicas à sua distribuição e estamos numa fase de alguma desorientação face à economia capaz de sustentar o futuro — mas repito o óbvio que tantos esquecem: quanto maior for a abundância de informação, mais valorizáveis são os processos de a seleccionar, tratar e agrupar.

    Repara para onde está a ir a pesquisa. Para modelos mistos, isto é, onde a supremacia do algoritmo cede espaço à intervenção humana no processo de catalogação e escolha.

    Acabo com uma pergunta: tu és um jornalista? Sei que é uma resposta complexa. Mas podes responder numa palavra, sim ou não. (aviso: a tua resposta não mudará o que eu penso sobre o teu trabalho e a minha própria resposta.)

    7 Miguel Caetano em 10 Jul 08 17:04

    Os serviços baseados no trabalho voluntário (Wikipedia) funcionam apenas num ecosistema que não dependa deles. É uma visão utópica, essa de um mundo de informação assente na produtividade de voluntários. É uma visão que deixa o capital a arfar, de língua na boca, mas infelizmente para o capital, não é realista. O trabalho voluntário tem de ser encarado como complementar. Válido, claro. Tem vindo a ser valorizado crescentemente.

    Sim, é evidente. Mas esse modelo voluntário nunca será completamente monetizado. Essa onda dos conteúdos gerados pelo utilizador é apenas uma moda se o projecto não valorizar a participação da comunidade. Aliás, o Global Voices Online funciona justamente em moldes quase totalmente não lucrativos e voluntários. No entanto, funciona. Assim como existem milhares de comunidades um pouco por todo o mundo de selecção e filtragem de informação. É evidente que a lógica segue sempre o Princípio de Pareto 80/20 em que 80 por cento dos utilizadores são meros espectadores/leechers e 20 por cento ou menos do que isso são participantes activos. Mas quando se parte de uma base potencial de participantes muito maior do que anteriormente, as economias de escala são fenomenais.

    A Rue89 tem jornalista profissionais (profissionais as in remunerados). O TechCrunch é produzido por uma equipa de jornalistas que têm ali o seu principal emprego (alguns deixaram empregos nos MSM). O Huffington Post segue o mesmo caminho. O Darren ganha bem com o Problogger, escrito só por ele e alguns convidados (que não recebem, que eu saiba). A maior parte do trabalho de primeira página do Digg é feito por pessoas que recebem por isso (o problema é não conhecermos bem os modelos de financiamento). Há muitos modelos, não valorizemos como exemplo apenas um deles

    Sim, mas a questão é que não há atenção - leia-se dinheiro - disponível para todos. Mas isso não importa, porque muita gente irá fazê-lo de um modo não lucrativo ou não, a tempo parcial ou inteiro. E não foram as credenciais de jornalista que determinaram o sucesso desses projectos que referiste - muito pelo contrário - mas sim a capacidade de criação de comunidades activas em que os leitores são parte integrante do processo de produção da informação, através da indicação de dicas, da publicação de comentários, etc. Isso são más notícias para os órgãos de comunicação social que não conseguirem adaptar o seu modelo de funcionamento ao online.

    Enquanto cidadão especializado em tratar informação, tu tendes a ver o mundo como composto por teus iguais. Não é. A grande maioria das pessoas, ontem, hoje e amanhã, está disposta a pagar um preço para que lhe facilitem o processo de aquisição de informação que considerem útil, relevante - ou simplesmente desejem ter.

    Será que é mesmo assim ou será que é mais wishful thinking da tua parte? Porque é que os jornais despedem profissionais? Porque é que as tiragens têm vindo a descer? Porque é que os jornais gratuitos - que na esmagadora maioria dos casos não produzem qualquer informação noticiosa, constituindo muitas vezes uma forma de publicidade encapotada - são cada vez mais populares e dão cada vez mais dinheiro? Aliás, isso que tu referes contraria o que disseste anteriormente que a economia dos links não era suficiente para pagar os custos da produção profissional de informação.

    E *depois* de o admitir, questiona: como pagar as áreas de intervenção que permanecem fora do âmbito do cidadão comum, continuando reservadas a equipas especialistas?

    Aliás, na sequência disto, há autores que falam de uma espécie de purificação do jornalismo através da web, que terá sido contaminado na segunda metade do séc XX por se ver metido em produtos duvidosos. Não sou desses, mas não deixo de espreitar a teoria.

    Eu partilho dessa opinião. Os economistas são muito mais competentes para analisar temas económicos do que jornalistas. Os juristas também. É evidente que um jornalista generalista sem formação especializada que está sempre a apagar fogos e a saltar de tema para tema não tem competência para escrever sobre certos temas como a reforma do código penal.

    Miguel, vê o Top 100 do Technorati, vê a evolução dele ao longo dos últimos 4 ou 5 anos. E depois repete-me a frase. Tens - aí sim - uma carga ideológica, um desejo, mais que uma realidade.

    Mas aí volto a repetir o que eu disse lá atrás: esses bloggers subiram ao topo da blogosfera porque conseguiram criaram uma comunidade e tirar partido da relação de confiança estabelecida com o público. Mas creio que aqui deixa de fazer qualquer sentido falar em jornalismo. Porque eu associo o jornalismo a uma função profissional de um emissor que selecciona e filtra o que não interessa, tendo em conta as “limitações da largura de banda” do suporte impresso. Mas na Web tudo pode potencialmente interessar às pessoas. É por isso que no BoingBoing podemos encontrar tanto questões muito sérias (censura online na China) como as coisas mais frívolas do mundo (máquinas de fazer cocktails ou uma estátua do Gandhi feita em cartão).

    mas repito o óbvio que tantos esquecem: quanto maior for a abundância de informação, mais valorizáveis são os processos de a seleccionar, tratar e agrupar.

    Ora aí é que está: não me parece que a economia dos links recompense necessariamente em termos monetários quem trate e agrupe essa informação. O problema é exactamente o mesmo que ocorre na música. Mas se o mercado não for suficiente para responder a essa necessidade quase fisiológica das pessoas se informarem, isso não quer dizer que elas irão deixar de se informar. O que me parece é que elas não estão dispostas a dar dinheiro por essa informação.

    Acabo com uma pergunta: tu és um jornalista? Sei que é uma resposta complexa. Mas podes responder numa palavra, sim ou não. (aviso: a tua resposta não mudará o que eu penso sobre o teu trabalho e a minha própria resposta.)

    Pessoalmente, vejo-me como um blogger. O jornalismo implica um espartilho muito grande da liberdade de actuação de uma pessoa. Acabo sempre por associá-lo a burocracia, hierarquização, controlo, impessoalidade, selecção e filtragem. Parece-me que é uma designação que remete para uma largura de banda bastante estreita, para um ambiente de escassez informacional. Penso que isso deixa de fazer sentido na abundância. O blogger é uma espécie de DJ que recicla e cola pequenos pedaços de informação e que conversa com os leitores. A sua missão é estimular a conversa. No entanto, haverá também quem ache que o blogger é um jornalista mas um jornalista com sentido de humildade porque tem consciência de que o seu blog é um diálogo aberto e permanente com os outros. Daí que acho que todo o sonho de um blogger seja ser animador de comunidades.

    8 Miguel Caetano em 10 Jul 08 17:13

    Oops, acho que não fechei um blockquote :-(

    9 Paulo Querido em 10 Jul 08 23:28

    Mas esse modelo voluntário nunca será completamente monetizado.
    Claro que não. Não é esse o objectivo. Os modelos são coexistentes. É a lição do software open source, conceito que existe desde antes da própria web.

    Essa onda dos conteúdos gerados pelo utilizador é apenas uma moda se o projecto não valorizar a participação da comunidade

    Nem mais. A valorização traduz-se em diversas moedas de troca. O link é uma delas, um das melhores porque uma das essenciais para a economia em rede. A reputação, outra.

    Vamos ter um ambiente em que funcionarão projectos sem o lucro em dinheiro como objectivo declarado, de meias com projectos que saberão recolher o lucro em dinheiro nalgum ponto do processo.

    A Google é um destes últimos. Um admirável, a vários títulos. Está, sem dúvida, a recolher o dinheiro que na economia da informação na geografia dos átomos ia parar ao bolso dos balsemões e berlusconis (daí a presente irritação deles, actually).

    Pareto, sim, mas rectificado: põe 90/10 nisso. Ou menos.

    Sim, mas a questão é que não há atenção - leia-se dinheiro - disponível para todos.
    Nesta altura, não. E duvido que alguma altura. Assim, não há forma de ter uma empresa do tamanho da SIC para produzir o output que ela é capaz de colocar na rede. Não é viável. Mas aqui entra o que disseste antes: o que a SIC actualmente coloca online, é colocável por uma pequena fracção do investimento; os meios deles foram pensados para os átomos, as câmaras, os processos, tudo. Eu posso concorrer com uma webcam de 5 dólares. A diferença não está no material usado, está então onde?

    Certo: no olho que dirige a câmara, seja esta de 5 dólares ou de 5.000. No cabo precisas de uma câmara de 5.000, na rede precisas de uma câmara de 5. Adequar o investimento ao meio.

    Tu conheces o parlamentoglobal.pt? Ficará para a história da web portuguesa (se lá chegar) como um exemplo clássico de como não fazer. Um flop. Provavelmente, o custo de produção por pageview mais caro de toda a web 2.0.

    Porque comete um grupo de media super hiper ultra bom um erro daquela dimensão?

    Há muitas razões, mas eu avanço a única razão decisiva: porque pode dar-se a esse luxo, tem o dinheiro e o capital de prestígio suficientes para convencer outros a alinhar naquele desperdício.

    E não foram as credenciais de jornalista que determinaram o sucesso desses projectos que referiste - muito pelo contrário - mas sim a capacidade de criação de comunidades activas em que os leitores são parte integrante do processo de produção da informação, através da indicação de dicas, da publicação de comentários, etc. Isso são más notícias para os órgãos de comunicação social que não conseguirem adaptar o seu modelo de funcionamento ao online

    Sim — ando a repetir este discurso a quem ainda me atura nos jornais e nas redacções. Sem grande êxito, está bem de ver.

    Mas deixa-me rectificar. O Arrington construiu uma comunidade como referiste e o que fez assim que se viu com dinheiro sólido?
    Pois. Contratou jornalistas. Formou uma equipa de grandes cavadores de notícias, gajos experientes, que não se ficam por press-releases nem têm problemas em incomodar os empregados do Schmidt até que eles levem o boss a revelar alguma coisa. Não te canses: embora este tipo de talentos de comunicação e cavadela de informação não seja um exclusivo dos jornalistas, formados na universidade ou na tarimba, é mais fácil (logo, económico) encontrá-los aí, nos jornais, onde a sua concentração é muito maior que na blogosfera.
    Foi à indíustria dos media buscar gajos bons, misturou-os com gajos bons da informática e está a construir um pequeno império de poder e lucro na rede. Sim: poder e lucro na rede. Eu quis fazer um Crunchbase europeu mas onde arranjar um euro neste caralho deste país para investir num projecto tão far out?

    As más notícias que mencionas são verdadeiras. Sem gerar correntes entre os leitores, é muito mais difícil manter um título e fazê-lo vingar. (Mas há outros modelos, nichos, não cabem agora aqui porque estão para além do link).

    Porque é que os jornais despedem profissionais? Porque é que as tiragens têm vindo a descer?
    Pela mesma razão. Há uma deslocação da atenção em 2 sentidos. Um sentido, a oferta de actividades aumentou (mais consolas, mais filmes, mais música, mais telemóveis, tudo a concorrer pela atenção antes canalizada para os jornais). Outro sentido, o próprio consumo de informação está a passar para a Internet.
    Com menos eyeballs, evidentemente o embrulho fica menos apetecível para a publicidade. Que re-orienta os seus orçamentos para a web.

    Porque é que os jornais gratuitos - que na esmagadora maioria dos casos não produzem qualquer informação noticiosa, constituindo muitas vezes uma forma de publicidade encapotada - são cada vez mais populares e dão cada vez mais dinheiro?
    Os gratuitos são um fenómeno fácil de explicar. Ocupam na cadeia de valor o degrau imediatamente acima da blogosfera: os seus conteúdos tendem a valer zero (na blogosfera valem um pouco mais que zero por causa do efeito comunidade, certo), mas ocupam um espaço que estava por monetizar, um dos últimos redutos onde ainda há atenção. Os transportes e os locais de ímpasse (salas de espera, átrios de faculdade).
    Não tenhas ilusões: é como o petróleo, no final do período fica económico extraí-lo das areias onde o custo de extracção é elevado para o padrão de qualidade que se pode obter (a atenção dos commuters é a areia), o negócio dos gratuitos tb sofre do mesmo mal dos pagos porque é a mesma indústria (papel manchado distribuído geograficamente) e os sinais de saturação já aí estão, começaram os processos de consolidação financeira (os maiores a comprarem os menores). A consolidação é sempre um sinal de dimuição do valor do negócio, fica preciso ir buscar lucro ao próprio tecido, ao próprio processo, e não ao mercado, aos clientes.

    Mas se o mercado não for suficiente para responder a essa necessidade quase fisiológica das pessoas se informarem, isso não quer dizer que elas irão deixar de se informar. O que me parece é que elas não estão dispostas a dar dinheiro por essa informação
    Claro que não estão, mas as pessoas nunca estão dispostas a dar dinheiro por nada. No entanto, nunca deixaram de dar dinheiro pela informação. Podem é ter a ilusão que não pagam — o que é muito diferente de não pagarem.
    Até quando lêem um gratuito, alguém paga a alguém por esse gesto.
    Quando ligam a net para ir ler as notícias ao Sapo, estão a pagar a mensalidade de consumo. O Sapo por sua vez paga aos produtores de informação. Este modelo funcionou a contento das partes durante anos. Agora, está a evoluir para outra coisa que ainda não se percebeu bem qual é. Está a evoluir porque os produtores de informação querem mais que uma pequena parte do bolo, como estavam a ter. E fazem muito bem. Mas agora têm de arranjar unhas para tocar esta viola — e não estamos a ver nada, é um silêncio que até dói.
    Indo um pouco mais além: mesmo entre a blogosfera nacional, cujo tamanho é diminuto, já se pode apreciar a compra de produção em jeito de B2B. Na Europa já há mercado, embora premeie nesta fase os países onde a mão de obra é mais barata (América Latina). Aí tens outro modelo viável de dinheiro, negócio, carcanhol, que possa sustentar não direi uma coisa do tamanho do Expresso, mas um projecto de jornalistas com a cabeça no lugar e uma plena compreensão sobre onde estão metidos. E por aqui me fico.

    10 Paulo Querido em 10 Jul 08 23:44

    ena ena, estou a gostar desta conversa :) Tem sido um prazer.

    11 5 anos de bloguismo | ma-schamba em 13 Jul 08 02:24

    [...] a fonte costuma ser suficiente). Apenas mais dependentes do jornalismo, portanto do rame-rame. Talvez por isso há quem pense em pagamentos à comunicação social: pouco aprenderam com o desabar do comércio [...]

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