Episódio do telemóvel: o péssimo e o bom

dameotelemovelruiunas.jpgSobre o episódio do telemóvel, vi hoje dois excelentes exemplos de tratamento do assunto, nos antípodas um do outro: o péssimo e o bom.
O péssimo é o insuportável video de Rui Unas para as Produções Fictícias. Se pensam (como eu) que as televisões já exploraram as imagens e o assunto muito para lá dos limites do aceitável, sobrepondo-os a qualquer tipo de debate útil, vejam isto e pensem outra vez.
A mim não provoca mais do que nojo do autor — já nada mais tenho por sentir em relação ao episódio.
O bom é o artigo de Leonel Moura para o Jornal de Negócios, Em defesa dos miúdos. Não concordo completamente com as conclusões dele, mas isso não me impede de recomendar a leitura: além de ser contra a corrente minimal repetitiva de “opinião” que regurgita dos meios por estes dias, só pode mesmo fazer-nos pensar. E perspectiva o assunto no lado correcto: o da sociedade que somos hoje e seremos amanhã, não o da sociedade do século passado, onde se formaram todos os que hoje opinam sobre o caso.
Um excerto (a questão da liberdade, mais que os saberes tecnológicos, um pilar do generation gap que hoje vivemos, e que pode ser bem mais aprofundada):

Este episódio, trivial em si mesmo e que deveria ter sido resolvido no contexto próprio, revela um evidente desfasamento entre aquilo que são alguns modelos e rotinas do passado e a realidade do presente. O Mundo mudou mais depressa do que a capacidade de adaptação de muita gente, em particular dos mais velhos. Daí que enquanto que estes imaginam ser possível agir com a cabeça no passado, enquanto que passeiam o corpo pelo presente, coisa que obviamente faz tropeçar, os mais novos vivem já totalmente mergulhados no século XXI. Uma das coisas que mais distingue estas duas posturas é precisamente a questão da liberdade.

Debate

4 opiniões no artigo “Episódio do telemóvel: o péssimo e o bom”

    1 pedro em 3 Abr 08 15:33

    Não não não. É ridículo falar dos novos tempos a propósito deste caso. Será mais o caso de uma miúda mal-educada e de uma escola onde as regras de funcionamento serão uma coisa vaga e pouco definida. Não é preciso mergulhar no século XXI nem em análises aprofundadas. O que precisamos é de um banho de bom-senso. Século XXI? Só porque os miúdos sabem teclar mensagens de telemóvel (a tecnologia dos analfabetos) como antes (ou ainda hoje) mandavam bilhetes?

    2 Paulo Querido em 3 Abr 08 22:43

    sim sim sim. Há diferenças profundas de estatuto. Logo, de poder. Estes tempos são novos — pelo menos para esta civilização.

    3 Paulo Querido em 4 Abr 08 00:25

    A diferença não é do bilhete em papel para o telemóvel. Isso é utensílio.

    4 MF em 7 Abr 08 01:02

    Concordo com o Pedro. Não há nada que os putos saibam fazer que eu não possa ; mas há coisas que eu sei fazer que eles não sabem , a saber , e principalmente , relacionar. Aprender de memória , coisa do século XX , logo ultrapassada segundo os do século XXI , tem uma componente altamente necessária : ok , o saber está todo na net ( também já estava nas enciclopédias) , mas o lembrar que tal está relacionado com tal , a net ( e a enciclopédia) não dá. A tecnologia não ensina a pensar , a pesquisar , só a manipular.
    E máquinas necessitam sempre de quem as saiba fazer.
    A vida está facilitada em alguns aspectos , mas continua a ser a Vida. Difícil. E a necessitar de regras ainda mais complexas. Ou não andam já a regulamentar a net? E por favor , reuniões de adolescentes no video do telele? Ainda bem que precisei de gente e não de imagens para me reunir.
    Não acho graça e sei faze-lo. Não faço porque não quero , mesmo que digam que estou a ficar no sec. XX. Fretes ? já não tenho idade para isso. Inovações xpto que me dêm prazer? Venham elas!

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