Batman: O Cavaleiro das Trevas em dois períodos

Fomos ver o último Batman, O Cavaleiro Das Trevas (The Dark Knight). É muito simples descrever o que senti. Dois períodos.
Um. Dá para perceber onde gastaram eles a horrível pipa de massa que o filme custou. Foram 185 milhões de dólares bem gastos.
Dois. Dá para perceber porque é que a bilheteira pagou o filme nos primeiros 3 dias de exibição — com um recorde que constitui por si só um marco para o cinema do século XXI: 6,2 milhões de dólares do primeiro fim de semana vieram do box office do Imax, uma das principais armas para que a indústria do cinema resista ao assalto do P2P.
Ok, uma adenda: boa parte do resultado deve-se ao infeliz Heath Ledger. A película torná-lo-á imortal. Com razão. O seu Joker faz-nos esquecer a criação original do super hiper mega ultra fabuloso actor Jack Nicholson para o primeiro Batman moderno (o de Tim Burton em 1989 com Michael Keaton a usar a mácara das orelhinhas que fez as delícias da Ana). Sim, leu bem. O personagem de Nicholson é (justamente) legendário e Ledger cometeu a proeza, rara no cinema, de recriar o personagem mantendo as características essenciais mas descartando tudo o mais (e se era fácil limitar-se a homenagear os tiques de Nicholson) e construindo um Joker irrepetível que é o dele e sendo diferente do de Nicholson é igualmente um excelente, irrepreensível trabalho de representação.
Também gostei mais de Christian Bale que dos anteriores esquizofrénicos alados. Rosto fechado por rosto fechado, o seu é mais expressivo que o de Keaton. E tem definitivamente mais densidade — o que, para um filme pipoca, é obra.

Debate

15 opiniões no artigo “Batman: O Cavaleiro das Trevas em dois períodos”

    1 Pedro Rebelo em 5 Ago 08 09:05

    Ok. Para quem é verdadeiro apreciador do Batman, daqueles que compram os livros e os livros sobre os livros e tudo o mais, confesso que custa um pouco ouvir chamar o dito (o filme, não o personagem) de pipoca… Ainda assim, ao contrário do filme anterior da mesma saga, não me é fácil encontrar argumentos para rebater esta opinião…

    Tal como já referi noutros lugares, acho que o primeiro filme desta nova saga seria mais merecedor do titulo Cavaleiro da Trevas do que este onde o referido Cavaleiro pouco ou nada acrescento à história de loucura do Joker ou a de honestidade e exacerbação moral de Harvey Dent…

    O Joker (já é quase um lugar comum de tanto que tal é escrito)é a alma de toda a coisa… Uma alma tão estranha, tão infantil na sua loucura que facilmente nos cativa. Infelizmente tal como escreves, o Joker de Heath Ledger será irrepetivel pois muito gostaria de o ver crescer…

    2 Paulo Querido em 5 Ago 08 10:34

    Pedro, eu adoro cinema pipoca e em mim a expressão é, quando muito, carinhosa, não é depreciativa. O cinema entretenimento é em geral depreciado por críticos e cinéfilos, e eu, que não sou nem uma coisa nem outra (embora pudesse puxar das medalhas de presença no Quarteto, Cinemateca e salas em geral, prefiro não o fazer — há épocas para tudo na vida), sou fã declarado da arte de entreter.

    3 Pedro Rebelo em 5 Ago 08 11:18

    E já agora, fã do Batman não?
    Também sou daqueles que acha que para um Domingo à tarde não há como um filme de Domingo à tarde (ninguém vê o “Mes nuits sont plus belles que vos jours” numa tarde de Domingo certo?)…

    Muito bem, estamos entendidos…

    p.s. Bem diz a senhora lá de casa que algo de estranho se passa… Nem fiz um artigo sobre o Batman…

    4 Bino em 5 Ago 08 12:58

    Batman sempre teve os melhores vilões.

    5 Paulo Querido em 5 Ago 08 14:04

    Sim, os melhores vilões são os do único superherói sem poderes mágicos, demasiado humano, até, na exposição dos seus problemas e traumas. O Batman é o mais humano dos heróis da ficção pop.

    6 Mr. Steed em 5 Ago 08 17:24

    O busílis da questão está mesmo aí. cinema pop vs. cinema de autor. São ondas diferentes e cada um tem virtudes e defeitos. É algo que falta nesta área. Na música a linha está mais ou menos bem marcada (felizmente, como em tudo na vida, nada é assim preto no branco e há obras que ficam numa zona cinzenta). No cinema nem por isso.

    Quanto ao Imax, os custos são demasiado elevados para permitir a massificação. O trunfo da indústria anda mais pelo digital e pelo 3D. O digital em grande escala vai reduzir custos e permitir uma flexibilidade maior na programação, além de acabar com o problema das perdas de qualidade das cópias em 35mm a cada passagem.

    Por outro lado, os cinemas vão diversificar mais os seus serviços. Além dos filmes, poderão transmitir eventos desportivos e espectáculos ao vivo.

    Brevemente, a Zon Lusomundo vai fazer uma experiência com a Formula 1. Será interessante ver como resulta.

    Quanto à pipoca…dá tanto ou mais dinheiro que os bilhetes :)

    7 Paulo Querido em 5 Ago 08 22:04

    Mr Steed, da mesma forma que, na música, gostei (e gosto) simultaneamente de pop, clássica e jazz (três apenas, para simplificar), no cinema vejo, desfruto, de filmes de entretenimento puro (sou fã, entre outras, das séries Salteadores, Star Wars e Alien, para citar 3 quase ao acaso), de séries B (vi imenso, hoje vejo menos cinema de baixo orçamento e até filmes falhados), de filmes de autor (sigo em especial alguns realizadores italianos).

    Não vejo nisso um problema. Nem nunca este ecletismo constituiu para mim uma castração ou limitação cultural. Pelo contrário.

    Sobre o Imax, é assim e não é. Salvo erro em 95 ou 96 fiz, para a revista do Expresso umas reportagens sobre o Imax (era coordenador do cinema o João Lopes, foi mesmo há imenso tempo). Estava um empresário português prestes a arrancar com a primeira (e única, até ao momento) sala de cinema Imax do país. Entretanto fechou.

    Na altura vi os diversos tipos Imax: a normal, plana e 3D, e a cúpula, também normal e 3D. Sei dos planos de desenvolvimento do Imax e só posso dizer que até aqui tudo tem corrido conforme a empresa delineou. Digamos, simplesmente, que a “massificação” é uma questão de perspectiva.

    Tive pena que na Expo 98 não tivéssemos tido salas Imax.

    Se formos ler as notícias sobre o box office deste Verão, as receitas Imax estão entre os destaques. Não fui buscá-las por gosto pessoal.

    Sim — a distribuição digital será um trunfo. O 3D plano é menos: como o Imax, estamos perante uma experiência única, mas focalizada, ou seja, servirá para determinados assuntos, certos públicos e alguns períodos (Verão, nomeadamente). Já a experiência Imax (imersão, 3D esférico — uma pedra!) tem nichos e espaços um pouco mais alargados.

    Claro que esta é uma discussão especulativa, aberta e apaixonante! :)

    Não acredito muito nessa dos eventos em directo. Se me falar que os empresários e cinema diversificarão investindo nos eventos itinerantes — ecrans gigantes na praia ou praça para ver a final do futebol, o concerto –, de acordo. Mas vivos dentro de uma sala escura onde tenho de me deslocar e pagar bilhete, ná.

    A pipoca dá MAIS dinheiro que os bilhetes! :)

    8 Paulo Querido em 5 Ago 08 22:05 9 Mr. Steed em 5 Ago 08 23:24

    ….o antigo imax. conheço bem.

    infelizmente a localização n era a melhor (VFX é uma terra simpática mas fica um bocadito fora de mão.

    agrada-me a confiança do Paulo no Imax. é uma tecnologia impressionante mas continuo com as minhas dúvidas quanto à massificação.

    o debate sobre o imax, o digital e o futuro do cinema nas salas dava para encher mais um blogue mas não queremos espantar os leitores :)

    os directos nas salas são uma hipótese muito falada pelos gurus americanos. not our cup of tea mas pode ser que o resto do povo adira.

    os cinemas ao ar livre são um negócio a explorar por cá. tenho uma história alinhavada para contar lá no meu tasco sobre os gregos (os reis do cinema na praia) e o mamma mia!

    e sim, os gajos ganham montes de dinheiro com o raio do milho…

    10 Mr. Steed em 5 Ago 08 23:27

    bolas, esqueci-me de esclarecer uma coisa, quando falava da diferença entre pop e erudito referia-me ao facto de na música existirem críticos para a música erudita e para os géneros populares. no cinema é 4×2x2 tudo ao molho. Embora haja malta que faz bem o crossover entre géneros, o João Lopes é um deles ;)

    11 Paulo Querido em 6 Ago 08 00:53

    vírgula, o João Lopes é O MELHOR deles!

    Ok.

    12 Paulo Querido em 6 Ago 08 00:57

    Na altura disse ao empresário (é o dono do centro comercial, ou era, não sou propriamente versado em VFX) que não acreditava no projecto, ali. Mas ele defendia-se com a caderno de encargos do franchise (o Imax funcionava assim, penso que continua). A especificação era feita por canadianos… a quem nunca ocorreria pensar na especificidade do bom povo português, seus graus culturais e seu magnífico trânsito ;)
    No caderno dizia algo como, se bem me lembro: um local com 3 milhões de pessoas num raio de 30 kms. Contas feitas, os 30 kms davam de Lisboa a Cascais! (Não havia ainda CREL).

    Foi pena.

    O mais engraçado é que nunca vi Imax ali, sempre que vi foi no estrangeiro. Mas vi todos os filmes que cá passaram.

    13 Paulo Querido em 6 Ago 08 01:00

    Não acredito nos directos nas salas - nem sequer nos EUA. Mas pronto, deixemos os gurus ganharem o seu.

    Cinema ao ar livre, YES! Boas recordações do S. Luiz, em Faro, e do cine qq coisa (não retive o nome) de Olhão. Devia regressar, o cinema ao ar livre. Eu adorava. E acho que tinha sucesso.

    14 Mr. Steed em 6 Ago 08 11:54

    Essa história das distâncias e da especificidade tuga é tramada. O Paulo Branco descobriu isso quando decidiu construir o maior complexo de salas do país em Alcochete. Uma pena. As salas eram óptimas (a sala de maiores dimensões é fantástica), o cinema tinha fachada própria (coisa rara nos dias do multiplex encafuados nos centros comerciais)que permitia organizar eventos todos estilosos. O problema? Os custos de manutenção e a falta de público. A malta de Lisboa tinha oferta perto de casa e a área à volta de Alcochete (ainda) não tinha gente suficiente. Agora a UCI pegou naquilo em versão reduzida (só funcionam algumas salas)mas aquilo continua às moscas).

    15 Paulo Querido em 6 Ago 08 12:54

    Pois.

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