Era um redondo vocábulo
Era um redondo vocábulo é uma das músicas menos ouvidas de José Afonso, que escreveu o poema em Abril de 1973, numa dos seus períodos de “férias involuntárias” na prisão de Caxias (o regime era muito benévolo com ele, forçava-o ao descanso da actividade política).
José Afonso sobreviveu ao regime de carcereiros em que viveu a maior parte da sua vida. A sua obra sobrevive-lhe, revelando uma extraordinária força, e uma força que está muito para além do seu envolvimento com a política.
Sempre tenho aproveitado as ocasiões de celebração da Revolução para, sem deixar de invocar o período histórico ao qual estou ligado por todos os lados, ir fazendo o trabalho de isolamento do artista — um dos maiores do Portugal do século XX — do contexto em que ele viveu, e que o estigmatizou durante tempo demais aos olhos de uma parte do país que, burra, vê/ouve em Zeca apenas “esse comuna”.
Ele encolheria os ombros, mas eu não.
Durante uma década, a sua obra esteve confinada ao grupo de origem: os cantores de intervenção que com ele conviveram, os amigos destes e os descendentes. Dos primeiros a romper com isso foram os Madredeus, depois dos quais a recriação das músicas, canções e poemas de José Afonso se tornou numa normalidade.
Assistimos, hoje, à universalização do seu imenso e riquíssimo legado. Riquíssimo na experiência humana, nos sentimentos, no experimentalismo (José Afonso esteve sempre a experimentar, a sair da casca, um passo à frente do tempo), na filosofia.
Nesta tarde de mais um 1º de Maio simples, pacífico, como todos os 1ºs de Maio de sempre deveriam ter sido, escolhi dois exemplos dessa universalização da obra de José Afonso.
Uma animação de legohist, um colectivo (?) de Setúbal com uma produção multimedia assaz interessante:
E uma versão da fadista Cristina Branco
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«uma parte do país que, burra, vê/ouve em Zeca apenas “esse comuna”.»
O que prova que o preconceito, filho da ignorância e da estreiteza de vista - que o Zeca também combateu - “cega” e rouba o discernimento a quem o pratica.
Os galegos respeitam e reverenciam o Zeca; na Galiza a sua obra e a sua memória são acarinhados. Será que a Galiza é simpatizante comunista? Ou tem apenas a inteligência de reconhecer o génio e a qualidade artística onde elas estão, sem “palas nos olhos”, sem pré-julgamentos?
Felizmente existe “a outra parte do país” que tem pelo Zeca a admiração e o respeito que merecem ambos: o Homem e a Obra.
A música é de facto extraordinária. Tem aquele toque soturno que paradoxalmente nos embala e inquieta. Também gosto muito da versão do Júlio Pereira no álbum “Rituais”.