Afinal, ela disse que sim: intervalo (curto) para um bocejo
Contrariando o que EU escrevera aqui, Manuela Ferreira Leite desta vez — uma vez não são vezes, diz o ditado — disse que sim.
Menezes mordeu os lábios e entristeceu. Este é o único cenário em que não poderá fazer a rábula do volta, estás perdoado.
Lopes, vamos ver. Depende dos seus objectivos. Nesta altura ganhava de bandeja, mesmo a Leite, sobretudo a Leite.
Os outros descansaram — excepto Pedro Passos Coelho, que tudo fará para brilhar e tem a partir de segunda-feira uma passadeira vermelha à frente para, isto caso queira — uma vez não são vezes, diz o ditado — provar que tem realmente ambições políticas, um pecado do qual o julgava isento. Basta-lhe dizer polidamente “não” com a sua boa voz, acenando que sim com a cabeça. Não a tudo o que a senhora disser, apenas isso, dizer não, dizer o contrário, porque o futuro da política portuguesa será o contrário do que Manuela Ferreira Leite disser, é fácil.
Manuela Ferreira Leite representa o PPD/PSD no seu melhor — que por esta altura é também o seu pior.
Com ela à frente, o partido estancará a perda de credibilidade.
Com ela à frente, o partido fecha a porta a alguma hipótese de futuro que lhe restaria com uma candidatura “jovem”.
Com ela à frente, o bocejo da política do consenso e vagamente contra-democrática vai voltar ao PSD, adiando as refregas e purgas que, se ocorressem livremente, limpariam o aparelho para voltar fresquinho ao assalto ao poder, lá mais para a frente.
Com ela à frente José Sócrates poderá contar com uma Oposição concordante e atenta para bem da sua governação.
Com ela à frente, Cavaco fica descansado, claro que Cavaco fica descansado, que é tudo o que o bom homem quer, sopas, descanso e muita reflexão.
Mas com ela à frente, a direita continuará o seu percurso de turbulência e vão surgir — é aposta firme — mais um ou dois partidos a disputar o centro conservador moderno, algo por onde hoje ainda se exacerbam os franco-atiradores da cartilha económica liberal amantes de Bush, cabouqueiros porém de uma realidade social (logo, política) inegável — e sobretudo invisível aos olhos da velha forma de fazer política em Portugal.
Esta velha forma de fazer política em Portugal já se esgotou como apelo ao voto, como deviam ter percebido com as ascensões de José Barroso, primeiro, depois Lopes, depois Sócrates e depois Menezes. Estes — para o bem e para o mal — são os políticos do Portugal, hoje. Lopes espalhou-se porque também ele é antigo, logo anacrónico, mas Sócrates (goste-se ou odeie-se) é moderno, convicto e pragmático, não alinhado com o passado do PS.
A dra Manuela Ferreira Leite estanca a maledicência e a confusão e com o seu pulso fará das hostes laranjas betinhos bem comportados.
Mas o que poderia ser um longo bocejo, não o vai ser. O número de índios aumentou muito, a política — como tudo o resto — está a escapar ao controlo das indústrias do entretenimento e condicionamento.
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