Marcha atrás

O “não” da Irlanda em referendo ao Tratado de Lisboa é uma marcha atrás escusada numa altura destas.
Penso que é melhor irmos pensando nisto: se desconfiamos sistematicamente das decisões das “elites” que elegemos, algo está errado no sistema político que instituímos. Não conheço nenhum sistema que resista muito tempo a sistemáticos curto-circuitos no seu modus operandi.
O pior deste tratado é o pior destes tempos em que os “amanuenses” têm um poder excessivo sobre o curso das “empresas”, muitas vezes maior que os “patrões”. É não ter um ou mais líderes políicos com carisma que o faça engolir às massas.
São os dramas da democracia.

Debate

8 opiniões no artigo “Marcha atrás”

    1 ricardo nunes em 13 Jun 08 18:37

    se calhar desconfiamos porque as supostas elites passam a vida a mentir-nos.

    não nos disseram a nós portugueses que iria haver um referendo por cá? e depois o que fizeram?

    mentem quando afirmam que o tratado não é uma constituição.

    mentem quando invadem países soberanos como o Afeganistão e o Iraque.

    não é verdade que na Irlanda o tratado de Nice foi chumbado na 1ª vez e depois tudo fizeram para haver novo referendo até que fosse dito o sim?
    isto é que é democracia? estranha esta democracia, onde não se respeita a decisão dos povos.

    passam a vida a enganar os cidadãos e depois querem carta branca para um tratado que retira poderes a países soberanos, que está escrito de maneira a que apenas meia dúzia de iluminados o percebam, e depois ainda acham estranho que votem contra; e não seria apenas a Irlanda a votar contra caso tivesse sido dada essa possibilidade a outros povos, também muitos deles votariam contra.

    alguém no seu juízo perfeito assina um documento sobre o qual muito pouco conhece ou percebe? não creio.

    “In September 2002, Blair published amid great fanfare his dossier purporting to demonstrate that Saddam Hussein’s Iraq currently possessed weapons of mass destruction. This was entitled “Iraq: Its Infrastructure of Concealment, Deception, and Intimidation,” and it was clearly crafted to provide a pretext for waging unprovoked and aggressive war against Iraq. This dossier was exposed as a fraud in two distinct waves of demystification. The first exposure took
    place in February 2003, when it emerged that entire sections of this report, which had been billed as the most up-to-date evaluation that could be offered by the very formidable capabilities of MI-6 and the rest of the British intelligence machine, had simply been lifted, plagiarized without attribution, from older documents in the public domain. The Iraq dossier had been concocted by Blair and his media guru Alistair Campbell, a figure
    who combined the worst of image-mongers like Michael Deaver and Karl Rove, using materials provided by British intelligence. Parts of Blair’s dossier had been stolen from articles written by Sean Boyne of Jane’s Intelligence Review, who was horrified by the
    nefarious use to which his work had been put. “I don’t like to think that anything I wrote has been used as an argument for war. I am concerned because I am against the war,” complained Boyne. Another source from which Blair had lifted material verbatim was a thesis entitled “Iraq’s Security and Intelligence Network,” published in September 2002 by a graduate student, Ibrahim al-Marashi, a California resident. Al-Marashi was equally
    indignant, commenting that “this is wholesale deception. How can the British public trust the government if it is up to this sort of tricks? People will treat any other information they publish now with a lot of skepticism from now on.””

    rjnunes

    2 Paulo Querido em 13 Jun 08 19:19

    “se calhar desconfiamos porque as supostas elites passam a vida a mentir-nos”

    Somos portanto masoquistas repetentes. Continuamos a eleger elites sabendo que elas nos mentem. Cambada de néscios. O povo é uma desgraça.

    3 ricardo nunes em 13 Jun 08 19:35

    caro paulo,

    não sei o que somos, apenas sei que o que afirmo acima são factos, os quais não pode desmentir.

    sabe, na minha modesta opinião o povo português nas próximas eleições deveria seguir apenas um caminho, ir votar, porque o voto é um direito que lhe assiste e que muito custou a conseguir, mas deveria ser um voto nulo, para explicar às tais elites que não podem ficar impunes, à mentira, à corrupção.

    rjnunes

    4 Gabriel Silva em 13 Jun 08 23:40

    «Não conheço nenhum sistema que resista muito tempo a sistemáticos curto-circuitos no seu modus operandi.»

    É verdade. Mas por isso mesmo seria bom evitar esse distanciamento, e dá-me a ideia que as ditas elites é que tem esticado a corda afastando-se das pessoas.

    5 Paulo Querido em 13 Jun 08 23:46

    Gabriel, a sociedade está a esticar. Aí também.

    6 JLS em 14 Jun 08 01:25

    «mentem quando afirmam que o tratado não é uma constituição.»

    Parece-me que esse é exactamente o tipo de afirmação que traduz exactamente o que sociedade sente. Engana-se se me refiro à “mentira”. Refiro-me antes ao desconhecimento dos Tratados que vão, potencialmente, a referendo. As pessoas desconheciam o Tratado Constitucional e desconhecem o Tratado de Lisboa. No entanto, basta um mísero Velho do Restelo dizer que é “igual”, para se gerar esse sentimento. Daí ao voto no não é um instante. E até nem é tanto pela existência de Velhos do Restelo, é perfeitamente normal dizer que não a algo desconhecido e é isso que se passa. Desconhece-se e não se pretende conhecer. E é inútil dizer que você, pessoalmente, até quer conhecer. Das pessoas que vão efectivamente votar, pode-se dizer que uma boa percentagem, seguramente, vota no escuro. Certeza absoluta existe quanto aos abstencionistas que, na Irlanda, foram praticamente 50%.

    Nem me parece, por isso, que seja um problema, essencialmente, de confiança nas elites, como o Paulo argumenta. Existirá esse elemento, sem dúvida, mas é pura irresponsabilidade “confiar” cegamente. Votar no escuro porque A, influente, disse que assim devia ser.
    Por outro lado, não podia concordar mais quanto à parte final do post. No fundo, falta um Obama, na Europa e em mais países individualmente considerados, que é capaz de motivar e gerar interesse das pessoas na política - quer na sua facção, quer na oposta; porque isso acaba, inevitavelmente, por funcionar em ambos os sentidos. Mas esse fenómeno não cria “confiança” pura e simples. Cria, simultaneamente, interesse!

    De resto, nem me parece muito razoável referendar Tratados inteiros. Faz muito mais sentido referendar as partes mais “polémicas”, que possam suscitar mais interesse e discórdia de forma até não inutilizar todo o Tratado (aliás, quem defendia que este Tratado era “igual” ao anterior, estava, no fundo, a inutilizar todo o Tratado anteriormente rejeitado e até, em parte, os Tratados anteriores, actualmente em vigor).

    7 Paulo Querido em 14 Jun 08 01:38

    O referendo só devia existir para o que faz sentido: questões sociais e morais. Tipo, e com alguma boa vontade minha, o aborto.
    Referendar questões fundamentalmente políticas é inútil. Não dá para entender. Para quê criar um complexo sistema democrático para eleger decisores a quem depois retiramos o poder de levarem por diante as decisões que os incumbimos de tomar (para nosso descanso), sujeitando-as a um referendo? Mais vale contratar um bando de gestores para as contas correntes e aprovar orçamentos e decidir as questões de fundo através de plebiscitos referendários.
    O recurso ao referendo revela um doentio cuidado de políticos fracos. Um político forte é aquele que, legitimado pelo voto, dirige o país (ou a câmara) para os objectivos apresentados às eleições — e fá-lo por sua conta e risco. Dirigir em função das sondagens, da popularidade e da “vontade” da opinião pública, é dirigir mal. É falta de tomates. É falta de visão. É — em suma — ser um fraco político.
    É (na minha modesta opinião) preferível um PM como Cavaco foi e Sócrates é, que governam com alguma dose de alheamento à espuma da “opinião” “pública” — seja expressa em colunas de jornal, blogues ou sondagens feitas semanalmente por telefone — do que andar a fingir que se tomam medidas consoante o vento sopra.
    Podemos não gostar. Óptimo. Nas próximas eleições, pune-se o mau governante e elege-se alguém que repar o dano.
    Antes tentar e falhar do que querer agradar perpetuamente às massas.
    Democracia é escolher um líder para governar durante um período de tempo.
    Democracia não é querer depois impor como melhor a decisão dos condutores do banco traseiro.

    8 Doe, J em 14 Jun 08 10:13

    “Continuamos a eleger elites sabendo que elas nos mentem.”

    E qual é a alternativa sabendo de antemão que bastam os votos dos proprios para que lá cheguem e desatem a apregoar “legitimidade”? Onde está a correspondência, que essa sim seria representativa, entre os votos em branco e a “cadeira vazia”?

    Quando lhe dão a escolher entre o fogo e a frigideira você por acaso considera que isso é realmente uma alternativa?

    E onde está a responsabilização durante o mandato? Ou por acaso a sua noção de democracia cinge-se a um cheque em branco sem limite e com uma validade pré-determinada de 4 anos?

    “Cambada de néscios.”

    Fale por si meu caro amigo, fale por si.
    Olhe que para quem prega “democracia” adoptar o velho “Quem não está por mim está contra mim” não lhe fica nada bem. ;)

    “Democracia é escolher um líder para governar durante um período de tempo.”

    Um lider?! Não estará a confundir com um programa? Ou a China também já é uma democracia e ninguém aqui tinha percebido? :)

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