O falhanço do capitalismo e o retorno da política

Para onde quer que eu olhe ultimamente, vejo sinais do regresso ao Estado. Não é só nas democracias sul americanas, como a Venezuela, onde os autóctones, como Chavez — que acaba de nacionalizar um banco –, se vão vingando do que os donos do dinheiro lhes fizeram com a cobertura político-militar dos Estados Unidos.
Não é só nos países BRIC, não por acaso todos eles dirigidos por pulsos firmes (e musculados em dois casos).
No próprio coração do sistema capitalista começam a despontar, claros para quem os queira ver, sinais de reforço do papel do Estado.
Quando a economia de planificação central soçobrou todos desataram a cantar hinos ao capitalismo e ao mercado. Mas sempre permaneceu claro para mim que era absurdo acreditar que os problemas das maiorias se resolveriam por redobrarmos a defesa dos interesses das ínfimas minorias — e o tempo encarregou-se de me dar razão: num sistema económico que se baseie na competição mais ou menos selvagem e sem regras, liberal, entre humanos, a riqueza tende a acumular-se nos mesmos ganhadores e a evolução resume-se a o número de perdedores aumentar na razão do número de novos ganhadores, se os antigos os deixarem despontar.
O facto de a Humanidade como um todo se ter deslocado para a frente ao longo da linha de saúde e de outros indicadores de evolução serve aos liberais para justificar tudo, secundarizando — entre outras coisas — o esmagamento das classes médias e médias baixas, empurradas para baixo, e o aumento do fosso entre os muito, muito ricos e os outros, numa gritante distorção do papel de cada classe na geração dessa mesma riqueza. As classes médias acostumaram-se a aceitar a desigualdade de um modo esquizofrénico: pensam que são ricas. Como os judeus da Alemanha de Hitler enfiados nos comboios, preferem acreditar que nada de mal lhes acontecerá no fim da viagem. Ainda não despertaram.
Nada tem de espantoso para mim que sejam os muito, muito ricos, os primeiros — entre os defensores do liberalismo e da “iniciativa privada”, bem entendido — a virem explicar os falhanços do capitalismo ao longo das últimas décadas.
Como Bill Gates faz numa peça da Time cuja leitura (ou audição) recomendo.
Capitalism has improved the lives of billions of people — something that’s easy to forget at a time of great economic uncertainty. But it has left out billions more. They have great needs, but they can’t express those needs in ways that matter to markets. So they are stuck in poverty, suffer from preventable diseases and never have a chance to make the most of their lives. Governments and nonprofit groups have an irreplaceable role in helping them, but it will take too long if they try to do it alone. It is mainly corporations that have the skills to make technological innovations work for the poor. To make the most of those skills, we need a more creative capitalism: an attempt to stretch the reach of market forces so that more companies can benefit from doing work that makes more people better off. We need new ways to bring far more people into the system — capitalism — that has done so much good in the world.
Gates assume-se como um capitalista com coração, que é uma moda recauchutada: faz lembrar as senhoras dos ricos da terra, que assistindo a caminho da igreja, e nas galerias desta, ao resultado das assimetrias na distribuição da riqueza gerada pelo trabalho, distribuiam esmolas mais ou menos generosas conforme a severidade da estação.
Mas isso em si não tem mal. O “capitalismo criativo” que Gates invoca será útil nesta fase do campeonato de tirar o mundo do buraco onde a América de Bush o meteu in the first place (embora Bush seja nada mais que a gota de água que faz transbordar o copo do falhanço da economia dirigida pela ganância, em vez da solidariedade).
A crise é tão grande, e ainda se vai replicar e multiplicar por tantos lados, que todas as ajudas nesta altura são bem vindas.
As do capitalismo criativo.
As das esmolas dos ricos do Norte aos pobres do Sul.
As da intervenção do Estado americano nos bancos e corporações que, dirigidas em função exclusiva do lucro financeiro, falharam.
As de Chavez, por louco que o homem nos pareça hoje.
As de Lula, que meteu o Brasil no trilho do futuro fazendo crescer as classes médias — apesar de ter a aprender com o vizinho índio a não deixar sair tanto dólar. (Não percam o artigo o Brasil que existe, o Brasil que poderia existir, de Pedro Dória).
Talvez assistamos a uma nova geração de políticos doers, depois da revoada de talkers que — basta olhar para o G8 — se deixou levar pelo canto da sereia liberal para se tornarem num bando de inúteis.

Debate

10 opiniões no artigo “O falhanço do capitalismo e o retorno da política”

    1 Fernando Penim Redondo em 5 Ago 08 15:00

    Partilho as preocupações do Paulo mas, como sou chato, pergunto: ok, então por onde é que vamos ?
    Pergunto porque a esquerda não parece querer puxar pela imaginação e regressa sempre, à falta de melhor, ao ESTADO.

    Lamento mas não acredito nessa solução enquanto não me explicarem porque é que vai ser diferente do que fizemos no Século XX com os resultados que se conhecem.

    O ESTADO em que vivemos não é uma alternativa ao mercado, é ele próprio uma forma de mercado; até dá para vender um Bush, ou qualquer outro sabonete, eleitoralmente.

    As eleições, antecedidas de grandes campanhas publicitárias, vendem votos nos candidatos como quem vende telemóveis. Quando hoje se diz que o capitalismo financeiro vende ilusões, coisas que não existem e nunca existirão, não se poderia dizer o mesmo das “eleições democráticas” ?
    Elas são no essencial um concurso para adjudicar a gestão privada (feita pelos grupos de interesses plasmados nos partidos) do interesse público (coisa que ainda está para se saber bem o que seja).

    Por isso caro Paulo acho que essa dicotomia estado-mercado é uma ilusão; o que realmente conta é se os cidadãos sabem e querem organizar a produção de forma muito mais produtiva e muito mais justa, sem recorrer à empresa capitalista e ao assalariamento do tempo de trabalho.

    Enquanto tal não acontecer o Estado será aquilo que Marx já tinha dito, a expressão de uma dada situação de exploração neste caso capitalista.

    2 Paulo Querido em 5 Ago 08 16:29

    Fernando,

    as minhas modestas reflexões ficam-se pela superfície do que vejo acontecer. E o que vejo acontecer é a falência de um modelo que tem sido glorificado pelos iludidos e incultos da natureza humana.

    Muito longe de mim apontar um regresso ao estado centralista e a economia planificada, um modelo para o qual nunca dei. As far I can see, as sociedades menos mal resolvidas do século XX assentaram em cima de um mercado livre com regulação firme. Nessa lógica, se alguma coisa as pessoas podem defender, é mais e melhor regulação, de preferência com mecanismos de fiscalização da própria regulação que combatam a tendência entrópica dos organismos.

    “Elas são no essencial um concurso para adjudicar a gestão privada (feita pelos grupos de interesses plasmados nos partidos) do interesse público (coisa que ainda está para se saber bem o que seja)”. Iup. Não vejo mal algum nisso. A Grande Questão é combater os desmandos dos grupos que vão sendo rotativamente chamados à gestão e conseguir manter um equilíbrio social. A partir daí, as evoluções para a justiça social serão bem vindas. Mas não tenho grandes ilusões nessa matéria.

    “Por isso caro Paulo “acho que essa dicotomia estado-mercado é uma ilusão; o que realmente conta é se os cidadãos sabem e querem organizar a produção de forma muito mais produtiva e muito mais justa, sem recorrer à empresa capitalista e ao assalariamento do tempo de trabalho”

    Hum… Há alguma expectativa no ar relativamente ao que as tecnologias de comunicação de massas podem trazer à organização social. As experiências com o open source e os wikis são muito interessantes e sigo com atenção o wikinomics e a sabedoria das multidões (há resultados de investigações neste campo absolutamente surpreendentes, em que as decisões tomadas pela média de uma multidão ou grupo não-específico são tão boas, quando não melhores, que as decisões do sábio ou colégio de sábios da matéria em causa).

    Mas eu fui-me habituando ao longo dos tempos a desconfiar dos amanhãs que cantam — e em especial dos tecnológicos.

    Agora, deixe-me dizer-lhe que o Fernando parte de um erro muito frequente nos intelectuais: o de que existe um grupo que são “os cidadãos”, com auto-consciência, auto-determinação e vontade. Eu, que sou um incorrigível optimista em relação ao associativismo, aprendi à custa das minhas desilusões que não há tal coisa como “os cidadãos” que “sabem” e “querem”. Há moles de geometria variável dirigíveis caso a caso pelos líderes de ocasião, indivíduos ou pequenos grupos.

    Até PROVA em contrário, não conheço melhor democracia que a democracia representativa em regime partidário. Só gostava que esta fosse mais elástica e aberta à iniciativa individual. Por isso rio-me (é o termo) dos que proclamam o fim dos partidos; estes precisam de se renovar, é um facto, e de acompanhar as gerações (o PSD está nitidamente em contra-maré, com um inultrapassável fosso geracional (e cultural) entre a “liderança” e as “bases”).

    Resumindo: sem nenhuma pretensão de ter soluções, penso que ainda temos a organização Estado e o sistema concorrencial (capitalismo reinventado, ou outra treta qq) para mais umas décadas, talvez séculos — dependendo o prolongar deste binómio sobretudo do grau de suavidade da transição da economia do petróleo para a seguinte.

    Assim, os sindicatos que se refresquem, os cidadãos empenhados que inventem novas formas de associativismo com vista à defesa dos seus interesses de grupo, os capitalistas que aprendam que o dinheiro não é a única, nem sequer a melhor expressão de riqueza em sociedade. E por aí fora.

    3 Fernando Penim Redondo em 5 Ago 08 17:13

    Eu também não gostaria de parecer alguém que tem a solução na manga. Digamos que sou um bocado avesso a modas e lugares-comuns e acho que vale sempre a pena perguntar para desafiar.

    Quando eu digo “cidadãos sabem e querem organizar a produção de forma muito mais produtiva e muito mais justa” não estou a pensar em nenhum grupo de esclarecidos. Quando os fugitivos dos feudos na idade média se juntaram em vilas, à revelia dos senhores, e iniciaram as actividades da pré-história industrial, não tinham consciência de que estavam a derrubar um sistema.

    Tenho a certeza de que o Paulo conhece muito melhor do que eu o panorama das actuais pequenas empresas tecnológicas de sucesso.
    Será que estão organizadas nos moldes tradicionais patrão-empregado ou numa nova lógica cooperativa de saberes mesmo que a forma da empresa ainda seja a tradicional “sociedade por quotas” ?

    Se o novo está a nascer algures eu gostava de perceber.

    Um abraço

    4 Paulo Querido em 5 Ago 08 17:25

    Fernando, em Portugal não conheço um único caso de organização empresarial em Grande, Médio, Pequeno ou Micro formato que não seja a tradicional. Sociedade por quotas, patrões/empregados. Há é patrões “esclarecidos” e “modernos”, que dão aos empregados grande amplitude de movimentos (desconfio que serão menos generosos no cheque, mas também não sei).

    Mas mesmo estes são raros.

    A lógica cooperativa de saberes, ou “coompetitiva” (eu prefiro), funciona na Internet entre grupos (indivíduos e/ou empresas, numa mole indistinta e livre) com interesses comuns ao longo de períodos variáveis de tempo. São organizações reticulares fluídas. Penso francamente que constituirão uma alternativa de peso às organizações tradicionais do trabalho. A sua agilidade é invejável.

    Produzem grandes cometimentos e são agentes de mudança — mas dada a sua natureza reticular são menos conspícuas, logo os media não as projectam, com a agravante de os media tenderem a reflectir o mainstream e não o inovador, que é sempre minoritário.

    Mas são também difíceis de modelizar. Aparecem e desparecem. As equipas formam-se e des-formam-se. Acho mesmo difícil extrair delas um exemplo de funcionamento replicável em termos de organizar conscientemente uma empresa, há um carácter espontâneo e solto e selvagem que impede isso.

    5 Fernando Penim Redondo em 5 Ago 08 20:55

    Sendo assim sou levado a concluir que ainda não é sentida a necessidade de criar uma nova forma de organizar a produção, ou seja, que a forma existente ainda funciona minimamente.

    Quando tal deixar de acontecer as pessoas, tal como faz a água, procurarão novos caminhos.

    Foi assim que sucedeu ao longo da história.

    6 Troll fofinho em 6 Ago 08 09:25

    Com influências destas começo a ver de onde vêm as ideias castradoras-censórias do PQ.

    7 Paulo Querido em 6 Ago 08 12:41

    Destas? Quais? Influências? Da Time? De Gates? De esquerda? Direita? Centro? Do Centro do Lado Oposto?

    Que troll tão fofinho! Ainda morria de saudades, eu.

    8 Troll fofinho em 6 Ago 08 12:56

    Confessa que as tem…

    9 Paulo Querido em 6 Ago 08 13:16

    Tenho é um troll tão fofinho, tão querido, tão rico!

    10 Certamente! tecnologia: Certamente! Um guia para os leitores principiantes em 10 Ago 08 22:03

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