Professores em protesto — caro PM, é melhor sair da toca
Comecemos por aqui: eu estou de acordo com António Ribeiro Ferreira, que no Correio da Manhã teve a melhor síntese de 3 anos de Maria de Lourdes Rodrigues: “os professores vão para a rua porque uma senhora com um saudável mau feitio [...] acabou com o Ministério dos Professores e tenta, há três anos, criar o Ministério da Educação“.
Esclarecido o meu ponto, o protesto dos professores está para além do protesto dos professores e por isso mesmo o Primeiro Ministro deve ter — espero bem — as campainhas de alarme, os mails de alerta, a corte de analistas e sociólogos e politólogos a gritar-lhe aos ouvidos que o melhor é sair da toca e fazer alguma coisa.
Tipo, uma solução?
Qual — isso é com ele, é para isso que lhe pagamos, se eu tivesse bestunto para sacar soluções destas tinha feito o tirocínio e proposto ao cargo. Parece-me que não é atirar a ministra pela borda fora, mas isto sou eu a falar.
Está para além do protesto significa que é uma bandeira — a bandeira que os professores colocam nas mãos até aqui nuas dos entalados desta saudável obsessão com a economia que caracterizou 100% das acções do governo.
Mesmo que seja corporativo e injusto em si próprio, o protesto do professores encerra um descontentamento mais profundo. É o descontentamento das classes do meio, as mais prejudicadas do ciclo económico-político que começou em 1999, no rescaldo da Expo, e que tem vindo a erodir o poder de compra e o poder social — mas não o poder político, ATENÇÃO — do miolo da sociedade portuguesa.
Esse miolo é pai, filho e aluno dos professores. É o bancário dos professores. É o dono da leitaria onde os professores tomam o pequeno almoço. É o jornalista que dá as notícias do descontentamento dos professores. É o mecânico do popó dos professores. (Segue, porque há outra ilação a tirar daqui)
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Oh homem, olhe que anda enganado. A citação mais não é que um trocadilho com graça e pouco miolo. A “coisa” (a avaliação) foi vomitada cá para fora sem se ter a noção se podia funcionar ou não (entenda este “funcionar” na acepção mais básica: tempo, recursos, mecanismo, disponibilidade dos intervenientes). A questão mais filosófica de adequação dos meios aos fins também não é cristalina. Uma pessoa até se pergunta se a “coisa” foi mesmo feita para funcionar…
O resto é fumaça. A escola a tempo inteiro (de horário quase laboral) é um conceito bizarro em paragens mais civilizadas, onde a escola acaba por volta das 15:30 e o extra curricular, facultativo, não vai muito mais além. E não se inventou nada: o inglês (para os mais pequenos) já existia em muitas escolas. Para muitos alunos é uma sobrecarga. Do ponto de vista da implementação, é uma coisa a martelo. Consta que no Reino Unido se anda a preparar o ensino de línguas (sublinho o plural) no 1º ciclo há uns anos com projectos piloto, formação de professores, definição de estratégias — até há uma colaboração com uma instituição portuguesa. Do ponto de vista da massa laboral necessária, o estado fez o outsourcing dos serviços a empresas/câmaras que, por sua vez, subcontratam trabalhadores precários e pagos a peso de… lata. Duas observações: o estado vai pagar serviços que pode prestar com os próprios recursos e, tem razão, a classe média está cada vez mais classe proletária.
E temos o aumento de alunos e o aumento do sucesso. Enfim, o aumento de alunos saúda-se (foram-se buscar alguns que escaparam ao sistema). Já o sucesso está assente em estacas de papelão. Proliferam por aí cursos “profissionalizantes” que têm a virtude de ir buscar os tais que se afastaram do sistema com uma abordagem mais… assistencial e de serviço social. Nada a opor, se bem que esta transformação do ensino me faça alguma confusão. E sem querer ser injusto com as boas práticas que possa haver, este sucesso faz-se em muitos casos à custa de uma exigência nula: aos alunos apenas lhe é pedido que frequentem a escola e pouco mais. Quanto ao resto, vale tudo menos tirar olhos. Se a letra dos regulamentos dos cursos não permite certas coisas, as práticas (encorajadas superiormente, entenda-se) deixam muito a desejar. Exemplo? Os alunos não podem faltar mas faltam mas depois oficialmente não faltam. Digamos só que estes cursos são motivo de tensões internas nas escolas.
O que há mais para além disto? Uma ministra com dificuldades de articulação de mensagens e de conteúdos. Secretários de estado (provavelmente, os verdadeiros filósofos da coisa) com uma visão do ensino ligada àquilo que é vulgarmente designado de eduquês. E uma noção de política-espectáculo em que o que vale mais é a gestão de apoios, opiniões e oposições do que propostas bem pensadas e sedimentadas.
PS: O anterior estatuto do professor tinha um embrião de um sistema de avaliação que nunca foi regulamentado. Não, não falava em avaliação com quotas.
[...] aqui escrevi recentemente, mas com os dias a passar as certezas frouxas abrandam para a zona das dúvidas [...]