Resumo da semana: o restaurante da Assembleia e o fumo em locais proibidos (post iconoclasta da semana)

Já que tenho uma reputação (verdadeira) de iconoclasta e o epíteto (falso) de provocador, dou aos meus queridos seguidores mais um bom motivo. Assuntos: Pinto da Costa foi jantar à Assembleia da República e José Sócrates desrepeitou um sinal de é proibido fumar.
O país político esta semana tremeu. Os blogues chiaram de indignação. Os jornais correram atrás dos foguetes, convencidos que continuam de que o foguetório “dos blogues” emana do seu leitorado (é um bocado ao contrário, mas pronto).
Porque o fresco Pedro Passos Coelho deu excelentes entrevistas e mostrou que o PSD cometerá um disparate dos antigos se o trocar por uma hesitante repetente que ainda crê que as camisolas ganham jogos?
Não. Esse assunto passou ao lado. Não interessa. Não tem relevância suficiente para a política, o país e a sociedade.
Porque o governo português e alguns empresários assinaram no estrangeiro dúzia e meia de relevantes acordos, uns de importância geo-estratégica, outros de relevo para a nossa anémica “iniciativa” privada?
Bah. Who cares about oil. O preço do barril é manifestamente um assunto secundário quando comparado com — só para dar um pequeno exemplo — o jantar para que o presidente do Futebol Clube do Porto foi convidado no restaurante da Assembleia da República.
Economia? Acordos de governo internacionais? Um candidato credível e preparado para o maior partido da oposição?
Bah. Ké ké iiissó meu!, isso da economia e dos acordos com uma das grandes nações do petróleo quando o primeiro ministro teve o desplante de puxar do cigarrinho dentro dum avião — vocês já imaginaram o crime de lesa-pátria, aquele grandecíssimo prevaricador desobedeceu à lei do tabaco???

Mas se o meu povo está feliz, eu fico feliz. Fico feliz por sabermos quais os factos marcantes da viagem de José Sócrates à Venezuela do polémico Hugo Chavez: o nosso primeiro fumou um cigarro ilegal, pediu desculpa, prometeu deixar de fumar e zurziu em quem o criticou por isso.
A viagem correu bem? Correu mal? Foi um êxito? Um insucesso? Nem sim nem não antes pelo contrário? Além do cigarro e do helicóptero com o dobro da lotação de jornalistas — DA-SE, ACONTECEU ALGUMA COISA? Tenho de ir ler as letrinhas pequeninas, é?

Se o bom povo português está feliz, eu fico feliz. Fico feliz com sabermos que o facto político da semana não é o completo banho de Passos Coelho à concorrência, passando primeiro o outro Pedro, que ficou a barafustar lá atrás, e batendo-se agora com o cromo mais custoso do PSD, mas sim a elevação à categoria de equivalente do hemiciclo, com direito à distinção de Solo Sagrado, do modesto restaurante da Assembleia da República — onde uma vez fui convidado do ainda deputado José Magalhães, que optou por almoçarmos ali pela mais simples das razões, que é a razão pela qual os deputados convidam quem lhes apetece para repastarem em sala acolhedora e boa amesendação sem grandes demoras: ele tinha pouco tempo, queria despachar-se e voltar rapidamente ao trabalho.
(A Chanfana de Poiares também lá foi jantar com um grupo de deputados — sem direito a notícia, infelizmente. Mas o blogueiro estava lá.)

Como é evidente, eu não acho boa onda convidar Pinto da Costa, ponto. Seja para o que for, ponto. Na minha lista de pessoas a convidar para um janar, ele está para lá da 6.500.000.000ª posição. Mais depressa jantava com o actual Papa, com quem, penso, seria capaz de ter uma conversa com algum interesse.
Mas o que eu acho ou deixo de achar é mais ou menos irrelevante para quem acha que, pelo contrário, o homem é boa companhia e ser visto na sua presença, mesmo nos tempos que correm, é bem.
Mas devo sobre isso tecer 2 considerações.
Uma, a de que admiro o gesto dos deputados. É em momentos complicados, como aquele que Pinto da Costa atravessa, que se vê quem está do nosso lado. Numa altura em que ficou difícil defender o homem — ou, dito de uma forma melhor, na altura em que se tornou fácil a qualquer anterior cobarde aproveitar agora a posição de fraqueza do homem para o zurzir — aquele punhado de seus simpatizantes quise ser solidário.
Posso discordar — discordo — e desconfio que alguns dos que lá estiveram também discordam, mas isso não me impede de reconhecer o gesto. Há gestos que se têm, ponto final.
Segunda consideração: considero a escolha do restaurante da Assembleia uma escolha menos feliz. Este tipo de gestos não dependem de um local, podia perfeitamente ter sido noutro sítio. Se a escolha foi propositada — emprestar um pouco do lastro daquelas paredes ao homem nesta altura difícil da sua defesa — é um erro, porque representa um perigo politicamente. Se a escolha foi puramente acidental, revela insensatez, que não é um bom traço para um colectivo de deputados.

Agora, desculpem lá: numa semana de Venezuela e PSD, o restaurante da Assembleia é que é, abram negritos e caixas altas, A Notícia?

Está bem. Se é disto que o Bom Povo Português gosta, a seguir mandamos entrar os palhaços alegres.

Debate

2 opiniões no artigo “Resumo da semana: o restaurante da Assembleia e o fumo em locais proibidos (post iconoclasta da semana)”

    1 Pedro Aniceto em 17 Mai 08 09:59

    Não sei como é que descuras coisas tão importantes! Tu não sabes que os homens têm um intervalo de almoço de apenas uma hora? Que foi por isso mesmo que escolheram um restaurante que ficasse pertinho?

    2 Paulo Querido em 17 Mai 08 13:18

    Pedro, que os deputados recebam no restaurante da Assembleia os saloios todos do país, está certo: este é o país das chanfanas e dos dirigentes desportivos bafejados pelas divindades e eles os seus digníssimos representantes.
    Que os jornalistas tornem tal matéria na mais importante crónica da actividade política, não está certo nem é natural.

    Não fazer nada passa, mas todos os cuidados são poucos com os novéis guardiões da moral.

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