Se isto não é o descontentamento, onde é que está o descontentamento?
“Os partidos da oposição podem tentar cavalgar a onda. Sem êxito, refira-se. Há uma pergunta que deveriam fazer, sobretudo o PSD e o PP: como é possível que 100 mil pessoas se mobilizem e a oposição não consiga agregar todo este descontentamento que anda no ar?” — provoca Paulo Gorjão em O cachimbo de Magritte.
Eu arriscava uma resposta formulando outra pergunta: todo este descontentamento, Paulo?
É efectivamente um êxito que não pode ser ignorado e eu não tenciono ignorar, de todo. Mas resta-me compreender duas coisas.
1. Até que ponto podemos estabelecer um relação proporcional entre um sucesso de organização de uma classe profissional e o descontentamento que anda no ar sem que ninguém (nen os sindicatos…) o consiga agregar, o que devia fazer-nos desconfiar da quantidade e sobretudo da qualidade desse descontentamento.
2. Ao contrário de outras manifestações de organização popular (i.e., com pouca ou nenhuma responsabilidade dos aparelhos profissionais da agitação social), como o buzinão da ponte, a revolta dos professores é muito circunscrita a uma classe. Assim, até que ponto pode servir de rastilho para incendiar a sociedade?
Já aqui escrevi recentemente, mas com os dias a passar as certezas frouxas abrandam para a zona das dúvidas concretas em vez de endurecerem: mesmo que seja corporativo e injusto em si próprio, o protesto do professores encerra um descontentamento mais profundo. É o descontentamento das classes do meio, as mais prejudicadas do ciclo económico-político que começou em 1999, no rescaldo da Expo, e que tem vindo a erodir o poder de compra e o poder social do miolo da sociedade portuguesa.
Não sei. Temo bem que a onda de criminalidade violenta preocupe bastante mais as pessoas do que a economia, nesta fase. Ou mesmo que não preocupe, as respostas políticas a este problema — o ministro reagiu de pronto com o anúncio da contratação de mais 2.000 efectivos para PSP e GNR, o que é bem vindo pela população seja qual for o resultado — podem contrabalançar a falta delas no campo de batalha em que o ensino está transformado há mais de duas décadas.
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É difícil fazer transbordar o descontentamento e contaminar outros sectores. Há uma certa desconfiança em relação aos professores. O protesto marcou mas sobretudo baralhou.
Uma coisa é certa: a desconfiança é mais geral, a hostilidade é mais escrita, publicada, circunscrita, mediatizada, politizada… Professor não é monstro, é o vizinho do lado, é o professor do filho, é o marido, o filho, a nora. Por isso, nunca se sabe.
Outra coisa certa: os sindicatos perderam como intermediários. Anda por aí outra linguagem, com menos lugares-comuns, menos militante mas mais directa, desassombrada, eficaz. A net e os blogs proporcionaram o fórum de discussão que não existia antes. E já se prepara a continuação: a sugestão de alternativas pragmáticas e úteis: ao sistema de avaliação, claro, mas também ao sistema de educação como um todo. Como alguém disse por aí, num célebre blog (o Umbigo), precisamente para “tornar claro que os professores não são os últimos a perceber do ofício que exercem”.
«É difícil fazer transbordar o descontentamento e contaminar outros sectores»
Mas não.
O que o “post” sugere, é que esse transbordo está parcialmene incluso na manifestação dos 100.000 …
«a revolta dos professores é muito circunscrita a uma classe. Assim, até que ponto pode servir de rastilho para incendiar a sociedade»
Não pode, claro que não pode. A estratégia do dividir para reinar baseia-se nisso mesmo. É uma espécie de queimadas controladas.
Foi o que aconteceu com as férias judicias. Os juízes revoltaram-se, mostraram que a abertura dos tribunais não aumenta a eficiência, mas a “revolta” nunca se espalha, pois o resto da sociedade está contra e considera tratar-se do estrebuchar de uma classe a que se retiram privilégios.
Com os professores repete-se o filme, impõe-se as alterações, ignora-se os protestos, explica-se que se trata de privilégios e espera-se que o “incêndio” apague.
Politicamente é tudo muito claro, o que me assusta são duas coisas:
- os protestos podiam ter sido evitado de uma forma bem simples, aceitando a proposta de um “ano zero”, em que a avaliação fosse testada antes de implementada.
- a atitude egocêntrica de não ouvir, não ceder, não escutar, não mudar, não refletir.
Às vezes acerta-se, e estas atitudes fazem com que as reformas avancem mais rápido. Às vezes falha-se e temos a Otas, Jamés, TGV’s, Pontes, SCUT’s, etc.
É uma estratégia com riscos, e com vantagens também, e é evidente que a oposição tem estado desatenta e não capitaliza os riscos e os erros, mas entretem-se em jogos internos.
Carlos, é um estratégia com riscos que eu e muitos classificaremos de desnecessários. A principal vantagem parece-me ser a de concentrar a energia mais nas acções governativas e menos na parte política da governação (há alturas em que esta vantagem se torna desvantagem, o bom PM é aquele que sabe identificar e precisar esse momento e mudar em função dele).
A atitude egocêntrica a mim não me assusta. A minha conclusão sobre a prática de 30 anos de governos democráticos no país é a de que governar ao sabor da opinião publicada e “escutando” os interesses corporativos — navegar à vista portanto — não se traduziu em avanços de nenhuma espécie, enquanto os governos focados (egocêntricos se quisermos) avançaram decisivamente. Nem sempre de acordo com o que seriam as minhas prioridades, e muitas vezes contra — mas registámos avanços decisivos.
A mim o que me custa, até agora, é as que caem no chão. Com o pulso e o egocentrismo de Sócrates, Cavaco teria feito mais. Se é que me faço entender.
O descontentamento é essencialmente de outras camadas sociais, e que se encontra latente: falta de emprego, de ordenados e de trabalho condignos; desgosto pelo estado da falta de justiça para os “grandes”; o estado da saúde, etc; o estado da palhaçada da política demagógica…
Os professsores! Esses, do mal o menos! Pior, pior são os que ganham ordenados mínimos ou inferiores ao mínimo. Pior estão os que se encontram a recibos verdes; os que, qualificados, não encontram trabalho; e também os que, de qualquer modo, não têm trabalho.
Bem, vão os gestores e os funcionários públicos… Já repararam que só esta classe se dá ao luxo de fazer pontes e de gozar férias?! Como é que o descontentamento desta classe poderia servir de rastilho ao restante descontentamento social, se este se distancia daquele, porque é bem mais desesperado e profundo?!
E depois, sejamos adultos! Isto de se achar que cada vez que um(a) ministro (a) não vai de encontro ao que queremos tem de ir para a rua (qual birra de criancinhas que já não brincam mais e mandam o amigo para a rua!), tem que ser mais trabalhado nas mentalidades! Caramba, não há que negociar, renegociar, encontrar alternativas e outras soluções?!!! Vai ministro embora, começa e recomeça tudo de novo, e assim estamos nós na cauda da Europa, com todas as reformas estruturais por fazer, por elaborarmos a(s) mudança(s). Só por arrasto da imaturidade de vaidades pessoais e colectivas!
Chega de nos iludirmos e de nos deixarmos enganar pelos falsos fogos de artifício, de manifestações, protestos só porque sim, e de discursos demagógicos - para inglês ver!
Muito mal, muito mal vão os políticos (e outros) do bota abaixo, que nos seus discursos só mostram despeito, em vez de se apresentarem como alternativas construtivas, e mais: complementares!
Muito mal vão os apitos dourados, as casas pias.., por aí fora! Mais trabalho é o que precisamos, a começar pelas mentalidades!
Não se compreende como é que as agências de comunicação, pagas a peso de ouro, dizem tanto disparate aos clientes. Basta ler os estudos publicados a nivel internacional para perceber que os professores não são, em ponto nenhum do globo, assimiláveis a magistrados ou qualquer outra classe profissional similar; o mal-estar social revelado pelos professores é muito mais informativo do que qualquer sondagem de opinião. Na verdade deveriamos dizer que os professores cavalgaram a onda de contestação dos sindicatos e da oposição e não o inverso.
Paulo Querido:
Penso que esta não tenha sido uma manifestação tenha sido uma “organização de uma classe profissional”, como diz. Vejo-a antes como uma organização da militância política de base essencialmente “jovem”.
Nesse sentido, à sua primeira questão a resposta é: Não! Não há relação proporcional entre uma classe profissional e o descontentamento social. A meu ver haverá proporcionalidade entre interesse político de múltiplos quadrantes que assistem a verdadeiras reformas sociais, económicas e políticas e o descontentamento das diversas classes de desempregados (alguns dos quais professores ou aspirantes a professores.
Só assim percebo que se juntassem 100 mil - os desempregados são quase 500 mil inscritos nos centros de emprego(fora os outros que ninguém sabe contabilizar).
O facto de se ter centrado a manifestação nos professores evitou,que o “rastilho” se propagasse. Isso e o que o Paulo diz neste parágrafo certeiro (!!!) :
“A atitude egocêntrica a mim não me assusta. A minha conclusão sobre a prática de 30 anos de governos democráticos no país é a de que governar ao sabor da opinião publicada e “escutando” os interesses corporativos — navegar à vista portanto — não se traduziu em avanços de nenhuma espécie, enquanto os governos focados (egocêntricos se quisermos) avançaram decisivamente. Nem sempre de acordo com o que seriam as minhas prioridades, e muitas vezes contra — mas registámos avanços decisivos.”
Tomara que todos os governos fossem tão determinados no propósito para que foram eleitos - concordemos nós, ou não, com as políticas seguidas - o de governar!
Queria dizer:
Penso que esta não tenha sido uma “organização de uma classe profissional”, como diz.
Caro Arl,
Endosse as suas conspirações à Polícia de Segurança Pública. Eles visitaram várias escolas e escoltaram e coordenaram os autocarros para estes chegarem a Lisboa. Não há relatos de desempregados a entrarem à surrapa pelas janelas dos autocarros.
Pode também perguntar à esposa de António Costa se ela é desempregada ou aspirante a professora, ou se por outro lado o ensino é a profissão que exerce à largos anos.
Só com muita má fé (também noutros blogs chamada de pálas) se pode afirmar que foram os desempregados e não os professores que se manifestaram. Como se os desempregados estivessem preocupadíssimos com o sistema de avaliação de desempenho ou com a atitude da Ministra para os seus “professorzecos”.
O Ministério já deu o braço a torcer, em conjugação com o Concelho de Escolas. A avaliação vai ser simplificada nas escolas que precisarem. Segundo o CE, estas são a esmagadora maioria, e a “simplificação” vai passar pela suspensão de vários dos critérios de avaliação.
Os professores ficam assim vazios de motivos de protesto e acabarão por acatar a incipiente avaliação deste ano que só no próximo ano será a sério, e a Ministra além de manter o “assento” consegue também “mostrar” que não dá o braço a torcer, pois não suspende o processo, nem o implementa em regime de teste ou ensaio confirme todos pediam (professores e sociedade civil). Mantém-no, mas flexibiliza-o, mesmo que a flexibilização implique segundo o CE a avaliação simplificada a apenas aos professores contratados ou aos em situação de passagem de escalão.
A meu ver é uma clara vitória política.
Carlos, parece-me que é efectivamente uma vitória política.
A colagem dos desempregados nesta história não tem força para grudar.
Concordo com o Carlos quando diz:
“A meu ver é uma clara vitória política.”