As leis da lógica
Todos os cronistas do dia a dia têm momentos menos bons. Logo, o que os separa uns dos outros não é o facto de roçarem por vezes o bocejo. Não. É a capacidade de brilhar nos momentos realmente bons.
Ferreira Fernandes é um dos bons cronistas da praça não porque seja isento de momentos menos bons (tenho bocejado) mas porque nos encanta amiúde — mais amiúde, eventualmente, que outros.
Com Ferreira Fernandes devemos reaprender as leis da lógica, úteis em caso de sobredosagem de comentadores e analistas taróticos e apocalípticos. Devemos aprender com o artigo de ontem no Diário de Notícias, vai ser um ano ímpar! (referindo-se a 2009):
“Acho que estou a respeitar as leis da lógica: se todos os economistas se enganaram completamente sobre os dias de hoje, é provável, sendo unânimes sobre o dia de amanhã, voltarem a enganar-se. 2009 não pode ser a repetição da Grande Depressão, não pode ser a crise funda, não pode ser a deflação sem saída, não pode. A prova que não pode? Os economistas dizem que só pode.” Vão lá ler, se faz favor.
O animal (versão Ricardo Araújo Pereira)
Mão amiga fez-me chegar a crónica de Ricardo Araújo Pereira na Visão acerca do animal que está a devorar as sociedades do hemisfério Norte. É genial. Comprem a revista para ler na íntegra, aqui fica um aperitivo (negrito meu).
“A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.“
O animal
Confesso que quando a barracada estoirou, concordei nas medidas dos governos. Encobrir o buraco financeiro e dar às instituições onde aflui o grosso do produto gerado a oportunidade de se regenerarem — e com isso esperava eu que a política aguentasse o barco da democracia e pudéssemos operar numa lógica de evolução dentro da continuidade.
Começo a desacreditar, devo dizer.
Não é uma questão das pessoas. É o sistema. A natureza do sistema capitalista em que assenta a nossa economia é a seguinte: lucro.
O lucro é o seu objectivo. Razão de existência. LER CONTINUAÇÃO :.
Em Portugal não há trabalhadores nem patrões. Somos todos colaboradores e empresários
Em Portugal não existem trabalhadores, há colaboradores. Ninguém é despedido, há ajustamentos às necessidades de produção. As empresas não fecham a porta, deslocalizam a produção. Não existe perda do poder de compra, há contenção salarial. É populista e demagógico lembrar as crescentes disparidades salariais, devendo antes realçar-se que o mérito deve ser premiado e os gestores têm que estar identificados com os interesses da empresa. Que são os mesmos dos trabalhadores. Desculpem, dos colaboradores” escreveu Pedro Sales no Arrastão (O economicamente correcto) e eu gostava de ter escrito isto, limitei-me aqui a assinalar com negrito uma passagem particularmente gritante e portanto vão lá ler o resto, que recomendo (e daqui por uma horinha voltem, para mais um artigo sobre as crises).
O estado que comande
Francisco Vanzeller acabou de dizer na RTP algo verdadeiramente espantoso, para alguém como ele. Pediu que o Estado comande, oriente a economia.
Eu, francamente, acho esta nova posição dos liberais uma porcaria. Uma porcaria para todos os outros, claro, porque para os defensores do mercado, e em especial para quem dele retira lucro, faz todo o sentido: os lucros, privatizam-se, os prejuízos, nacionalizam-se.
E uma porcaria por outra razão. É ainda cedo para avaliar o impacto verdadeiro deste ataque cardíaco do capitalismo na economia. As finanças tornaram-se essenciais ao longo dos tempos, mas não são necessariamente decivisas para a economia, seja para o seu crescimento, seja para a sua manutenção. A finança é um instrumento da economia. O dinheiro tornou-se um bem como os outros e acabou por ultrapassar a importância de outros. Se perder, agora, alguma dessa importância, até que ponto isso será lesivo da construção económica?
Assim, esta aparente capitulação dos donos do dinheiro a mim diz-me o mesmo que as lágrimas dos crocodilos. Ignoro-a.
A crise económica é prévia à crise financeira e tem outros fundamentos. É até possível termos um cenário em que os agentes económicos, forçados a agir em função do trabalho (físico e intelectual) e menos em função das expectativas (é disso que tratamos quando falamos do sistema financeiro), sejam capazes de dar conta do recado da crise. Tirando também partido de matérias primas ao seu preço justo, e não ao preço do mercado, que exacerba o valor da expectativa sobre a sua rentabilidade.
Basicamente, sendo mesmo básico, o que falta à economia é dinheiro, liquidez, e não trabalho, matéria prima e ideias, havendo de tudo isto uma abundância a preços francamente convidativos.
A crise financeira actualizada ao minuto
A paciência é uma virtude. Foi preciso esperar algum tempo para conseguir dar ao Expresso multimedia um pouco mais que artigos. Fazer jus ao nome de multimedia. Mas já está. Acabo de publicar, com sucesso, o primeiro mashup num jornal português. Esta recombinação junta num único fluxo, ou lifestream, a “vida” da crise financeira actualizada ao minuto, numa só página, sem necessidade de refrescamento (o dep. de publicidade não vai gostar desta parte!). Vejam a crise financeira num mashup de actualização contínua, na edição multimedia do Expresso.
Durante a preparação desta peça de informação dinâmica — que combina posts de blogues, notícias e artigos de mainstream media, estando previsto que cubra mais social media, nomeadamente Twitter, YouTube e Flickr — dei por mim espantado com os números. Em todo o mundo de língua inglesa são publicados não menos de 600 artigos, notícias e posts por hora sobre a crise financeira. Uma média de 10 por minuto. Isto contas por baixo.
O busílis foi a parte da actualização das imagens das páginas. Usei um serviço pago, porque além de dar algumas garantias de actualização imediata posso apresentar as imagens sem o “carimbo”, como apresentam praticamente todos os serviços gratuitos.
Nunca na vida imaginei que um dia poderia apresentar como nota de despesa de um trabalho jornalístico o serviço de print-screens! ![]()
Agora resta melhorar a recolha. Em especial na parte dos blogs, os algoritmos do Google não produzem o melhor efeito.

del.icio.us
DoMelhor





Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou jornalista free lance, escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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