Para compreender as eleições americanas
Para compreender as eleições americanas, eis uma prosa imprescindível de Pedro Dória — agora a escrever de Palo Alto, na Califórnia, onde vai ser o Knight Latin American Fellow na Universidade de Stanford.
“Clinton, o atual Bush e McCain são da geração que tinha idade o suficiente para lutar no Vietnã. (McCain saiu de lá herói; Clinton se recusou a lutar; Bush escapou com o pistolão do pai. Obama era uma criança.) Os Clinton já cruzaram a faixa dos 60 anos.
É a população norte-americana que decidirá se é hora de mudar a guarda ou não. [...]
Há uma disputa geracional dentro do partido e entre a população.” (em Entre Obama e Hillary, a crise geracional do Partido Democrata)
Quatro razões mais uma para Barack Obama ganhar as presidenciais americanas
Mark “Netscape” Andreessen apresentou quatro razões para Barack Obama ganhar as eleições presidenciais americanas a seguir à vitória nas primárias dos Democratas.
Andreessen teve o privilégio de falar com Obama ainda senador e desse encontro trouxe impressões que ajudam a encaixar o candidato num quadro de apoio inusitado e nunca antes testado ao ponto a que tem sido nestas primárias.
Refiro-me ao quadro da web social, que não é propriamente a mesma coisa que o punhado de blogues que já fez ferver a campanha anterior.
E é nesse quadro que eu acrescento uma razão, ou por outra, a ilustração simples de uma das charneiras entre os dois candidatos.
- Primeiro: este é um fulano normal. Andreessen passou algum tempo com um monte de políticos nos últimos 15 anos (desde que se tornou célebre — e milionário — com o primeiro browser gráfico, o Netscape) e diz-nos: “a maior parte fala contigo. Ouvir não é o seu ponto forte — de facto, muitos deles não são sequer bons a fingir que ouvem”. Obama ouviu-o. Ouviu-o muito para além da bandeirada de 10.000 dólares de donativos do casal Andreessen.
- Segundo, é um fulano esperto
- Terceiro, não é um radical
- Quarto, é o primeiro candidato presidencial credível post-Baby Boomer. Uma das razões, diz Marc Andreessen, para o senador Obama surgir tão fresco e diferente reside ser o primeiro que não vem da era da Segunda Guerra Mundial (Reagan, Bush pai, Dole e até McCain, nascido em 1936) ou da geração Baby Boomer (nascidos no rescaldo da vitória nesse conflito, Bill e Hillary Clinton, John Kerry, Al Gore e George W. Bush).
Leia as justificações de Andreessen (que não é um analista político, convém frisar) em An hour and a half with Barack Obama.
Estas parecem (e são) razões simples. Razões de fundo: o fenómeno de identificação do candidato com as energias de esperança e mudança no colossal país não vêm da retórica e da propaganda. Vem primeiro da proximidade. Barack Obama, o candidato dos social media, tem maior proximidade com as faixas mais energéticas do actual eleitorado americano e foi por aí que derrotou Hillary Clinton, a candidata dos mainstream media.
E para ilustrações simples, nada melhor que a comparação entre os Twitters dos dois candidatos: Obama, o que ouve, surge horizontal, integrado, rodeado de caras; Hillary, a que fala, surge vertical, intocável, desintegrada, sozinha.

Data mining: ultimamente só dá Obama
A web é uma mina de informação social e a sua mineração (data mining) é fundamental. Até para… calcular resultados eleitorais. Ultimamente só dá Obama nas notícias — o que pode ser visto como uma prova do profissionalismo dos jornalistas enquanto seguidores das tendências das massas.
Duas ferramentas diferentes explicam-nos num simples olhar esta tendência para Obama, quando se pressupunha que Hilary Clinton ganharia mais ou menos facilmente.
Uma saiu dos laboratórios da Google e é poderosa. Não apenas porque produz um gráfico com este (clicar para ver maior):

Mas também porque nos fornece um quadro dos momentos-chave que ajudaram a mudar as linhas de Obama e Clinton (link). Com links para as notícias dos dias em que se verificaram as alterações na atenção das massas, podemos perceber melhor o que faz mudar a opinião pública.
A ferramenta usa como matéria-prima, autênticas pepitas, os termos mais procurados pelos milhões de utilizadores do Google.
Um pouco diferente na aproximação à mina é o Icerocket: faz a contabilidade das citações descobertas nos milhões de blogues e publicações em rede, depura-as e produz gráficos como o de baixo (clicar para ver maior):
Quis afinar um pouco o gráfico do Google e por isso reduzi o tempo deste gráfico ao último mês, para ver até que ponto se confirma a tendência Obama (link)
A minha conclusão destas duas leituras é a de que dificilmente a vitória lhe escapará na convenção democrática. Olhando o gráfico, poder-se-ia contra-argumentar que da mesma forma que Obama conseguiu inverter a tendência para Clinton, esta poderia conseguir agora o mesmo. Aquela aproximação mesmo no extremo direito do gráfico sugerirá isso… Não creio: interpreto a aproximação como um sinal do esforço da candidata, mas se olharmos a um período de tempo maior, fica ali um pequeno pico apenas.
Por outro lado, há que situar o gráfico no contexto. não basta ter a possilibidade técnica: é preciso ter a vontade, a força — e o tempo. Entrámos na recta final da escolha do candidato presidencial dos democratas americanos, Clinton não dispõe agora do tempo que Obama teve ao longo do último ano e picos.
A mineração de dados extrai uma verdade da corrida: o trajecto de Obama é ascendente e o de Clinton é descendente. Só um acontecimento extraordinário provocará uma mudança nas linhas destes dois gráficos.


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