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Eu cá nã fui, sôpssôra!

Passo os olhos brevemente e ao de leve por cima das reacções da blogosfera e reparo, sem nenhum sentimento em especial, que a culpa do sucedido numa sala de aula do Carolina Michaelis é atribuída basicamente a toda a gente menos a nós próprios.
É do governo, é do anterior governo, é de todos os governos. É da professora, é da aluna, é da turma (o meu favorito, confesso). Que nada, é dos pais, é do sistema. É do Estado evidentemente, tal como é da anarquia a que isto chegou, dos programas escolares, da mãe trabalhar, dos ministérios que não planearam, das famílias que trabalham, dos divórcios, dos Conselhos Directivos, dos telemóveis, da falta de interesse curricular, do afastamento entre os alunos e as aulas, da geração Z estúpida e mal educada.
Só não é minha, topam?

O poder caído na rua, brrrrr

fat_cat.jpgO protesto dos professores teve uma peculiaridade curiosa. Informalmente suportado em estruturas de organização popular profissionais, vulgo sindicatos, dos dois lados do espectro partidário, teve um líder partidário a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e alérgico a elas e às manifestações “de rua” a atirar-se para as câmaras apoiando o protesto (é como ver um alérgico a gatos a afagar um bichano ao colo).
Teve os interessados em derrubar o governo, ou pelo menos em machucar-lhe a “imagem”, a apoiar o poder da rua — o cúmulo do ridículo atendendo a quantos desses guerrilheiros de poltrona nutrem pelo poder da rua um profundo asco, repetido com indisfarçável orgulho de “classe” noutras ocasiões.
Estes ridículos são proporcionais ao impacto da acção do fim de semana em Lisboa levada a cabo pelos professores. É por isso de louvar que vozes atentas os coloquem em perspectiva. É bom lembrar à direita convenientemente convertida ao poder da rua e súbita entusiasta dos sindicatos as palavras de Vital Moreira no Causa nossa; vamos lá “[...] saber quem governa: se o Governo eleito ou a oposição, se os cidadãos eleitores ou uma classe profissional na rua.”
Ficamos à espera de ver surgirem — já agora, também em prime time — em Portas e na direita que “desceu à rua”, num fim de semana “diferente”, os pruridos, edemas e finalmente a dispnéia, altura em que as câmaras podem, com pudor, retirar-se.

Se isto não é o descontentamento, onde é que está o descontentamento?

crimeviolento.jpg“Os partidos da oposição podem tentar cavalgar a onda. Sem êxito, refira-se. Há uma pergunta que deveriam fazer, sobretudo o PSD e o PP: como é possível que 100 mil pessoas se mobilizem e a oposição não consiga agregar todo este descontentamento que anda no ar?” — provoca Paulo Gorjão em O cachimbo de Magritte.
Eu arriscava uma resposta formulando outra pergunta: todo este descontentamento, Paulo?
É efectivamente um êxito que não pode ser ignorado e eu não tenciono ignorar, de todo. Mas resta-me compreender duas coisas. LER CONTINUAÇÃO :.

Crise no PSD e professores: com o mal dos outros posso eu bem

553609.jpgSe os estrategas do governo se fiam no mal dos outros — o vincar da crise no PSD, explorar as deficiências da comunicação dos professores — fazem mal.
Fazem o jogo dos que já estão a explorar os mecanismos do adormecimento, entre os quais acentuar o carácter quase fatalista da segunda maioria absoluta, evidenciar o mau estado do PSD e desviar os olhos para as contabilidades sectoriais.
O governo e o partido que o sustenta eleitoralmente têm de se manter focados no exercício da governação, ler e interpretar os sinais amplamente fornecidos pela sociedade civil — sem a olhar pelo filtro dos media e sobretudo dos fazedores de opinião, que não são nem representantes, nem representativos do eleitorado e agem em função dos seus interesses pessoais, dos seus grupos ou alianças de percurso.
A acção tem de ser desenvolvida como se o PSD fosse uma organização pronta para disputar as legislativas de 2009 taco a taco, como se cada greve ou protesto possa ser a gota de água. Em sociedades rápidas, como são as democracias do Norte neste início do século XXI, a lição de Andy Groove para a sobrevivência da Intel aproveita a qualquer organização: só os paranóicos sobrevivem.
A este governo sobra em autismo o que falta em paranóia.
Os professores estão a emitir um sinal de alerta. Não político, não imediato, é um sinal de alerta social e económico; um sinal que ainda não tem bandeira partidária (os professores são inteligentes) mas possui grande força e impacto na sociedade, pelo que se presta a ser manipulado em função de futuras circunstâncias eleitorais, e nessa altura será tarde demais para acções de correcção.
A lebre corre mais depressa, o que não a impede de perder a corrida para a tartaruga. É muito fácil: basta adormecer sobre os louros.
(foto: Luis Forra, Lusa)

Professores em protesto — caro PM, é melhor sair da toca

maria_de_lurdes_rodrigues_300.jpg Comecemos por aqui: eu estou de acordo com António Ribeiro Ferreira, que no Correio da Manhã teve a melhor síntese de 3 anos de Maria de Lourdes Rodrigues: “os professores vão para a rua porque uma senhora com um saudável mau feitio [...] acabou com o Ministério dos Professores e tenta, há três anos, criar o Ministério da Educação“.
Esclarecido o meu ponto, o protesto dos professores está para além do protesto dos professores e por isso mesmo o Primeiro Ministro deve ter — espero bem — as campainhas de alarme, os mails de alerta, a corte de analistas e sociólogos e politólogos a gritar-lhe aos ouvidos que o melhor é sair da toca e fazer alguma coisa.
Tipo, uma solução?
Qual — isso é com ele, é para isso que lhe pagamos, se eu tivesse bestunto para sacar soluções destas tinha feito o tirocínio e proposto ao cargo. Parece-me que não é atirar a ministra pela borda fora, mas isto sou eu a falar.
Está para além do protesto significa que é uma bandeira — a bandeira que os professores colocam nas mãos até aqui nuas dos entalados desta saudável obsessão com a economia que caracterizou 100% das acções do governo.
Mesmo que seja corporativo e injusto em si próprio, o protesto do professores encerra um descontentamento mais profundo. É o descontentamento das classes do meio, as mais prejudicadas do ciclo económico-político que começou em 1999, no rescaldo da Expo, e que tem vindo a erodir o poder de compra e o poder social — mas não o poder político, ATENÇÃO — do miolo da sociedade portuguesa.
Esse miolo é pai, filho e aluno dos professores. É o bancário dos professores. É o dono da leitaria onde os professores tomam o pequeno almoço. É o jornalista que dá as notícias do descontentamento dos professores. É o mecânico do popó dos professores. (Segue, porque há outra ilação a tirar daqui)