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Da série this is Portugal: o atraso como instituição

Se há traço distintivo da cultura lusitana de 800 anos, é o atraso. Gostamos de andar a reboque do futuro. Vem este pensamento sombrio a propósito da tirada certeira de Vasco Campilho sobre o PSD e os seus reservatórios de pensamento:
Devo dizer que a apresentação me inspirou um estado de espírito algo nostálgico, e não apenas pela evocação de Francisco Sá Carneiro. Fiquei sobretudo nostálgico de algo que nunca foi, e devia ter sido: esta revitalização do IFSC devia ter sido conduzida logo em 2005-2006, no consulado de Marques Mendes, para dela estarmos a recolher os frutos hoje. Eu sei que havia na sua direcção quem tivesse essa perspectiva. E tenho pena, muita pena, que isso não tivesse acontecido” (em bem vindos!).
Tem o Vasco TODA a razão. Não se lança o debate de ideias e a interacção com a “sociedade civil” a 6 meses das eleições. O PSD é um partido atrasado. Valer-lhe-á que os portugueses, triste sina, já se conformaram com a institucionalização do atraso.
Pelo menos os portugueses mais antigos.
E os portugueses mais recentes?

Bater mais no ceguinho

As sondagens dão-nos conta de que o PS está a subir nas intenções de voto, enquanto o PSD e Manuela Ferreira Leite, a Credível, descem.
Invocar as questões exógenas não explica tudo. Aliás, não explica nada, mas isso sou eu que penso. Seja como for, as razões resumem-se a duas onomatopeias.
Ou o PS está a fazer uma governação tipo uau!, ou o PSD está a fazer uma oposição tipo duh?.
Eu não acho que este governo seja assim tããão bom. Resta, portanto, continuar a bater no ceguinho.

PSD renova site: web social chega finalmente aos partidos

O site do PSD surgiu totalmente renovado na semana passada. E para muito melhor, devo dizer. Em todos os aspectos. Foi um salto quântico e tanto mais surpreendente que passou despercebido à maioria. Um take da Lusa dá conta das boas intenções da líder do partido, nomeadamente a sua “genuína vontade de partilharmos a liberdade e a controvérsia, considerando que esse é um dos grandes contributos sociais da Internet“. Mas não teve repercussão.
A Internet não deu por isso ainda e duvido que se venha a estabelecer um diálogo real. O salto dado agora é louvável, mas não tenho ilusões sobre a falta de capacidade dos políticos instalados para lidarem directamente com os eleitores aguerridos que compõem a grande maioria dos frequentadores activos (i.e., que participam debatendo) da web social.
Mas isso não importa nesta altura. A verdade é que o PSD foi o primeiro dos partidos com história a aderir realmente à web social. E isto fora do tempo eleitoral, altura em que, manda a tradição religiosamente cumprida, os partidos se sacrificam a “descer” à procura das massas.
O PSD é o segundo partido que eu posso seguir por RSS (o primeiro foi o Bloco de Esquerda), e é o primeiro a assumir no site os canais oficiais nas redes sociais — Youtube e Flickr, para já. No canal do Flickr está já a colecção de cartazes do partido desde 1974, o que pessoalmente saúdo: é a primeira vez que consigo ver reproduções decentes e com o bónus de estarem juntas, poupando trabalho de pesquisa.
Também saúdo em particular o facto de o PSD ter feito justiça aos seus fundadores e antigos líderes. No antigo site era impossível encontrar uma simples lista das pessoas que já presidiram. E vi agora, pela primeira vez, uma foto de Nuno Aires Rodrigues dos Santos e alguma informação, ainda que curta, sobre o mais obscuro presidente do partido. Este membro da Maçonaria presidiu ao PSD em 1983-84. Perdi várias horas à procura de dados sobre ele, numa pesquisa para um trabalho inovador que está para publicação em breve.
É evidente que está muito caminho por andar. O site precisa de mais conteúdo e espera-se a presença do partido — de pessoas que falem por ele, que a ele estejam realmente ligadas — nas redes sociais habitadas por um número cada vez maior de portugueses.
Para mim, melhor que a surpresa de ver o esforço do PSD na direcção certa da web das pessoas, é encontrar no site do partido aquilo que me interessa. E isto não acontecia antes, por incrível que pareça.
(Uma nota sobre DNS à atenção dos técnicos. Sei que é correcto usar o indicativo www, mas não apontar o nome de domínio, psd.pt, também ao site é uma prática que já não faz sentido há mais de uma década. Muita gente, eu incluído, deixou de se dar ao trabalho de digitar o www. E não encontrar o PSD sem o indicativo www é desagradável.)

MEP: uma abordagem correcta


Aproveito o balanço para referir o site do mais recente membro do espectro partidário português. O MEP - Movimento Esperança Portugal começa com o mais “web 2.0″ dos sites institucionais que já vi entre nós, batendo mesmo o do Bloco.
A lista de redes sociais em que o MEP está presente, devidamente apresentadas, com orgulhoso destaque, na entrada do site, bem pode servir agora de inspiração ao PSD. Além do blogue, o MEP tem presença na Wikipedia, YouTube, Slideshare, Picasa, Twitter, Technorati, Hi5, Facebook, MySpace e até no The Star Tracker, uma rede que, apesar do nome em inglês, é suposto agrupar o “talento” português.
A abordagem do MEP à Internet foi correcta. Tem um site institucional que, sem deixar de o ser, consegue apresentar-se pouco formal. E do qual saem, como troncos de um árvore, os ramos de comunicação que estende na direcção dos diversos públicos. Com grande economia de processos, devo dizer.

[ Reprodução de artigo publicado originalmente no Expresso multimedia ]

Mel e fel

Pedro Santana Lopes tem mel, disse-me Mário Resendes há pouco na SIC Notícias, citando vagamente João Soares. Pacheco Pereira, o antipático e carrancudo grilo falante do PSD (e da RTP, e da ERC, e dos jornais, e das televisões e da blogosfera e do Governo e do país e do mundo e até de Marte e dos planetas exteriores) tem fel, deduz-se das reacções da Distrital de Lisboa do PSD e também de Luís Delgado.
Eu acho que PSL é o melhor candidato e só a pequena política interna evitará que os social-democratas vão à luta na CML com um candidatura capaz de fazer a vida muito difícil a António Costa e ao PS. Mas a acusação da Distrital, por muito bem justificada que esteja, cai pelo termo escolhido. JPP será fel, mas cobarde político, não me parece o mais indicado para o qualificar.

O telemóvel devia estar ocupado

Manuela Ferreira Leite teve a primeira atitude de bom senso político com a aceitação da candidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara Municipal de Lisboa. E foi barbaramente zurzida por isso por conselheiros (que pelos vistos tinham o telemóvel ocupado e desta feita não puderam aconselhar a Manuela o que fazer) e ex-conselheiros. O PSD real respira de alívio.
Ao sinal, o blogosférico pessoal pulou de contente. Pulou mal. A chefe esteve bem. A chefe não tem de cuidar da imagem que os outros acham que ela deve ter. Cuidar, Manuela cuida dos de sua casa. No partido, a preocupação do líder é chegar ao poder. Os santos estão nos altares e os teóricos escrevem manuais. No caso concreto, e tendo em conta a real politik que a alguns parece ter esquecido, o único caminho do PSD para eventualmente chegar ao poder em Lisboa é Pedro Santana Lopes.
Já lá esteve.
Tirando a argolada do Parque Mayer (estou a dar de barato que o seja; conheço o assunto pelos jornais), não estava a fazer uma presidência má. É hipocrisia assacar-lhe todas as culpas pelo estado a que a gestão da CML chegou. Nunca percebi exactamente o que se passou na Figueira, mas não deve ter sido nada mau — as más notícias correm bem mais que as boas neste Portugal depressivo.
Politicamente, PSL é um valor seguro. É combativo. É conhecido. É “eleitoral”, no melhor sentido da palavra. É experiente. Gere bem pessoas, desde que o não soltem demasiado. Aprendeu. Sai menos à noite e nas colunas sociais. Nada despiciendo: será menos uma voz a moer, e mais um aliado. De circunstância? This is politics, man, get real.
É o trunfo político que Fernando Seara nunca seria e Paula Teixeira da Cruz talvez venha a ser, um dia. (Se houve mais alguém apontado, ou a sonhar, com a CML, não dei por isso.)
Manuela Ferreira Leite teve de tomar uma decisão difícil, sabendo que não seria bem engolida por algumas elites do partido. Teve a coragem suficiente para o fazer. É a decisão certa. Não é nada fácil ganhar a António Costa, um peso pesado astuto, mas se o PSD tem alguém para um combate de pesos pesados, esse alguém é Pedro Santana Lopes.
Mais difícil será a Manuela mandar Passos Coelho para Bruxelas…

Desculpem perguntar: onde está Manuela Ferreira Leite?

Desculpem interromper o recreio-Magalhães, e desculpem perguntar: onde está Manuela Ferreira Leite?
Ontem vi o esforçado Paulo Rangel a defender a honra do convento no debate quinzenal — o primeiro depois do combate de rentrées, que terminou com a vitória do PS com o KO da “mudança”.
Hoje procuro afanosamente UMA palavra da líder do PSD sobre o debate. Debalde. É sem dúvida culpa do Google News. Não. A culpa é do noticiário das 13, que é governamentalizado. Não. A culpa é dos jornalistas de esquerda que dominam a Redacção do Público. Não. A culpa é dos webmasters do site oficial do partido, que mantém como “novidades” o “documento dos princípios orientadores da Estratégia das Eleições Autárquicas de 2009″ e como “manchete” “Manuela Ferreira Leite estranha silêncio de Carlos César sobre proposta de nova lei eleitoral”. Não. A culpa é dos editores de esquerda que dominam os jornais. Não. A culpa é dos webmasters do site do grupo parlamentar do partido, que só colocaram Rangel, Negrão e Guilherme Silva, omitindo as reacções de Ferreira Leite e, deixa ver quem é o vice-presidente que ainda aparece às vezes nos jornais, ah, António Borges. Não. A culpa é, definitivamente, dos algoritmos do Google, que só fazem aparecer estas notícias.
Há uma crise financeira mundial?
O Presidente Cavaco Silva faz um discurso importante na ONU, que envolve Portugal, a CPLP e a língua portuguesa?
Os jogos de bastidores para a Câmara de Lisboa começaram?
Vai um regabofe nos preços da gasolina e o Governo assobia para o ar, uma exelente oportunidade para o olhar de frente e fazer 2 ou 3 Perguntas Realmente Importantes?
A Rangel dava jeito sentir a líder por perto, para a tarefa de entalar o Primeiro-Ministro no debate quizenal e tentar marcar pontos para o orçamento que virá dentro de 15 dias?
Nada disto tem o menor interesse para os estrategas deste enigmático PSD. O espaço disponível para o PSD no sistema de partilha de espaço em capa e prime-time a que alguns reduzem o jornalismo está ocupado com os problemas de tribunal de Santana Lopes e Valentim Loureiro e o come-back de Marques Mendes. De Manuela, Borges — ou, vá lá, Rui Rio e Aguiar Branco — nem rasto.
Nem uma chamadita.
Uma evocação.
Uma legenda?
Um discurso directo, nem que seja requentado?
Nada. Népias. Nil. Null. 0.

Como escreve António Bento em carta a Luís Paixão Martins, “quanto mais invisível e privada, quanto mais privativa e ascética for a imagem física da líder, acredita-se, tanto mais o fantasma da sua ausência se tornará presente e se fará sentir, insinuando-se na “alma” do eleitorado” (em A credibilidade do silêncio de Manuela Ferreira Leite)
Mas no cubo de Rubik que é a vida, a cor do silêncio não está associada só aos cubos “asceta” e “puro”.
Uma rotação — e o cubo “cadáver” pisca-nos o olho, sorriso maléfico.


© rabiscos vieira, publicado no Arrastão

Irracionais e mimados

Eh, pessoal, os Estados bancam a cena! Bute lá continuar a jogatana! — É assim que escuto as notícias que me chegam sobre o comportamento das bolsas na sequência do anúncio da intervenção estatal sobre a finança americana, em risco de fazer colapsar o sistema financeiro e provocar danos económicos de amplitude desconhecida, capaz, até, de provocar uma mudança de regime.
Esse comportamento é irracional e digno de miúdos mimados, a quem os papás aparam todos os golpes.
É neste exacto enquadramento que ouço na televisão António Borges — um reputado financeiro — dizer que a seguradora podia não ter ido à falência, que tinha tido interessados em comprá-la antes, mas que os accionistas não deram cobertura às propostas do management.
Traduzindo: a posição de António Borges é de passar uma esponja sobre os actos da equipa de gestão responsável pela trágica evolução dos colossos americanos que mergulhou a economia mundial na incerteza nos últimos 12 meses. Provavelmente, ainda os acha credores de (mais) um prémio milionário.
Não viria daqui incómodo algum — não se desse o caso do mesmo António Borges ser vice-presidente de um partido português com aspirações a governar.
Tenham medo.

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