Ainda os trolls em comentários
Ando há mais de 18 anos no ciberespaço e já vi muita coisa no departamento da pulhice humana. Por isso não me surpreendeu o seguinte caso. É o caso de um blogue que começou por ter os comentários fechados e, há um certo tempo atrás, abriu-os. O autor só a custo assim decidiu. Tinha as preocupações típicas que os críticos dos sistemas de comentários sempre apontam. Receava a exposição, as perdas de tempo, os ataques, os trolls, em suma, o “contributo negro” para a parte menos agradável da cultura da partilha.
O autor tinha dos comentários a ideia de um mundo desagradável, povoado por criaturas de intenções duvidosas, a maioria anónimos, outros fazendo-se passar por quem não eram. Esta ideia, recebera-a das mãos de quem o trouxera para os blogues — esse admirável mundo novo que ia mudar a comunicação.
Mas decidiu-se, como já disse, e quando o fez, há dois anos, foi logo de peito aberto: sem intermediação prévia, em regime de publica-se primeiro e depois logo se vê. Foi coragem, como repetidamente enalteci (podia perfeitamente ter começado com moderação nos comentários, que é o mais sensato em qualquer caso).
Foi coragem e foi uma demonstração de generosidade.
Durante anos experimentou os benefícios: comentadores agradados, comentadores simpáticos, comentadores filosóficos, comentadores críticos, comentadores colaborantes. Não registou nenhum caso dos horripilantes. Nem sequer dos feios. Desagradáveis, só dois ou três sujeitos e sujeitas equivocados em relação aos conteúdos, enviados pelo Google em resultados especulativos de pesquisas, e que usaram o tratamento por tu indevidamente.
Até um dia. O dia em que passou a ter um novo nick a comentar. A “nova” personagem, descuidadamente inábil, comportou-se como um verdadeiro troll: comentários pessoais sem nível, depressa esquecido o disfarce de tentar estar dentro do tópico, depreciações ad hominem, considerações que revelavam a linha da proximidade.
O blogger meu conhecido não precisou de paciência, tempo e grandes investigações para confirmar as suspeitas sobre a identidade do seu troll — e raramente o pronome possessivo é tão bem aplicado.
Era nem mais nem menos do que a pessoa que o tinha repetidamente prevenido para os perigos das caixas de comentários. It just fits.
Desmascarado, não voltou. Ainda (durante algum tempo). Regressará (regressou) um dia destes muito provavelmente com mais um nick do sexo oposto — uma perversidade que encaixa tanto na pessoa como num quadro comportamental online algo frequente.
(Nota: esta história foi propositadamente sujeita a uma deturpação do tempo em que ocorreu e expurgada de marcas de individualidade. Não sendo nem uma ficção nem uma notícia ou um facto que eu pretenda comprovar, mas uma mera reflexão sobre a realidade que habitamos diariamente a partir de um caso que acompanhei, usei tais liberdades de ficcionista para a poder contar.)

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