Jornalismo viral — ou as diferenças entre um divórcio, um requerimento e um despacho (2)

letrasdejornais.jpgComo vimos na primeira parte deste artigo, há diferenças entre um divórcio, que depende de um despacho, e o requerimento para o divórcio. O que não houve, regra geral, foi um jornalista para dar por isso (duas excepções de onde menos se esperaria, ler abaixo).
Oriunda da Lusa, a história foi contada e recontada em dúzia e meia de órgãos de comunicação social no seu formato original, notando-se as variações de tratamento somento ao nível cosmético: títulos, chamadas, rearrumação de parágrafos.
Um único órgão de comunicação fez a confirmação dos factos ou pelo menos procurou dar outro lado, outro ângulo. Assim, este é um bom exemplo de caso para apresentar aos estudantes de jornalismo e aos interessados na profissão sobre os perigos do jornalismo viral — uma nova formulação para uma prática antiga que consiste em colar o telex da Lusa, ou o recorte de outro jornal, de olhos fechados.
O simples recurso ao Google permite-nos fazer o tracking da notícia e ver como, eventualmente na ânsia de dar aos “seus” leitores a informação, não se cuidou na esmagadora maioria das Redacções de acrescentar valor — que é, afinal, o factor diferenciador para um título conquistar a admiração pública e manter as audiências e o prestígio.
O único jornal que o fez — isto, dos 14 que cuidei de verificar a partir da lista obtida no News Google — foi o Correio da Manhã, que publicou uma notícia na secção de Tecnologia e deu-lhe um enquadramento próprio (com foto do seu repórter) e correcto, com um título chamativo mas ambíguo quanto baste. O Tek.sapo teve a virtude de “ler” o despacho da Lusa e editá-lo, suprimindo o pior.

Como leitura complementar para os conceitos de link journalism e networked journalism, é essencial ler Scott Karp em Publishing 2.0, aqui sobre McCain e aqui sobre a história de Eliot Spitzer.

Agradecimentos à Ana, que ao publicar no Dados pessoais um post que colocou o assunto na perspectiva correcta me motivou para a elaboração deste estudo de caso.

Debate

6 opiniões no artigo “Jornalismo viral — ou as diferenças entre um divórcio, um requerimento e um despacho (2)”

    1 Certamente! media: Jornalismo viral — ou as diferenças entre um divórcio, um requerimento e um despacho (1) em 13 Mar 08 19:53

    [...] artigo está dividido em duas partes e a segunda parte está aqui) Data: 13 Mar 08 18:11 Autor: Paulo Querido   Arquivo: media  Tags: divorcio, [...]

    2 Uma Senhora de Idade Que Passou Por Aqui em 13 Mar 08 23:01

    Uma belíssima lição! Abaixo o sensacionalismo apressado!

    3 Marta em 13 Mar 08 23:10

    O Correio da Manhã também tratou o assunto correctamente o que até é irónico tendo em conta a sua fama.
    “Tecnologia: Empresa encaminha processos
    Divórcio pela internet
    Maria Pinto Araújo e Carlos Rocha divorciam-se hoje na Conservatória do Registo Civil de Lisboa, transformando-se no primeiro casal português a fazê-lo com recurso à internet, graças ao portal http://www.divorcionahora.com.”

    4 Paulo Querido em 13 Mar 08 23:37

    Marta, sim, eu referi o Correio da Manhã no post e citei o ante-título, o título e a entrada…

    5 Marta em 14 Mar 08 11:44

    Peço desculpa. deve ter sido o sono.
    Estou em crer que não dava uma boa jornalista.

    6 Certamente! media: Divórcio na hora: o segredo está na abreviatura em 19 Mar 08 08:55

    [...] semana passada aqui publiquei uma nota dupla (1 e 2) sobre o perigo da indiferenciação do produto jornalístico quando na Redacção se desiste de [...]

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