Magalhães: o sucesso público
Mais que no milhão de portáteis Magalhães comprados pela Venezuela, o sucesso público da melhor iniciativa do actual governo em matéria de sociedade da informação e respectivas tecnologias e economia está no brilho do olhar dispensado por quem passa por ele na FNAC.
Fiquei surpreso. Indiferentes às “críticas” estéreis acerca do “marketing político” e da origem geográfica dos seus componentes, o público dispensa ao portátil o olhar que merece um computador:
- barato
- leve
- potente
- agradavelmente transportável
- versátil
- pedagógico
- estimulante
- fracturante
Mal me conseguia abeirar da vitrina, sempre rodeada de gente. Todo o tipo de gente. A família modesta, com os olhos da miúda a brilharem e o pai de calções a deixar o interesse sobrepôr-se à timidez. O par jovem, ambos estudantes, ambos interessados nas características. O casal bem na vida, um olho no preço outro na capacidade.
Nunca vi, na informática de consumo, um tão grande interesse num computador.
Em quase 30 anos a segir a micro-informática, é a segunda vez que vejo um aparelho com potencial para estimular a criatividade informática a uma geração (ou duas). Portugal teve um hiato de uma geração condenada a usar as ferramentas impostas, sem forma de criar as suas ferramentas, de dar vazão à curiosidade.
Não estou a dizer que o aparelho vai mudar isto. Nada muda isto, excepto a vontade colectiva. Há lacunas na distribuição pelas escolas. Há escolas sem condições básicas onde o Magalhães será alienígena. Há professores que nunca usaram um computador, que outra coisa poderão fazer além de proibir o seu uso, ou desconfiar dele? Um aluno de barriga vazia, que poderá fazer com o Magalhães?
Com tão poucos professores capazes de elaborar materiais digitais, uma boa parte do capital do aparelho desaparece na menor valia dos jogos. Não nos faltam críticas para fazer, evidentemente.
Mas o aparelho abre portas que estavam fechadas. Quebra barreiras. Aproxima as pessoas do novo paradigma da sociedade da comunicação: aparelhos diversos e baratos com acesso global às ferramentas e à informação disponíveis numa rede ubíqua.
Há quem insista em não ver que a era dos computadores pesados, carregados de violentíssimo hardware, terminou. Já só são necessários para servidores. Porque para ler, escrever, até mesmo jogar, ver o mail, preencher o formulário do IRS, editar o blogue, ver o Youtube, descarregar as imagens e os filmes das câmaras para a net, não é preciso um computador de última geração com 4 GB de RAM, placa gráfica de 250 euro — e as caríssimas licenças de carradas de software anacrónico e inútil que os lojistas nos impingem como “essenciais” e “fazendo parte”, se fossemos atrasados mentais (e porque têm prémios para vender esses salvados da indústria informática). Ter o Microsoft Word de origem é como comprar um Renault com jantes de crómio especiais de marca — não precisamos delas para andar, mas para outra função qualquer.
Na informática, andamos a comprar “carros” ultra-kitados como se fossem modelos normais — e não nos queixamos. O Magalhães poderá ajudar a perceber a diferença.
O Magalhães é da nova era — a dos aparelhos versáteis, pequenos, económicos, que se levam para todo o lado e permitem aceder a tudo o que necessitamos no trabalho (e nalgum lazer): o mail, os ficheiros, a web.
O Magalhães encerra dentro de si a semente do hacker — o miúdo curioso que gosta de saber “como funcionar por dentro” o aparelho que usa, antigamente eram os rádios e as televisões, agora é a informação, a programação.
O Magalhães faz-me lembrar aquelas canetas gordas, com 4 cores diferentes: quando surgiram, houve professores que as achavam o fim do mundo, a sociedade de consumo a entrar pela sala de aula, um elemento perturbador da ordem. Outros viram apenas uma caneta que os miúdos usavam com maior prazer — e estimularam-nos a usá-la de formas criativas.
Para os professores que, através dos tempos, souberam converter o desconhecido num aliado da educação, estimulando a curiosidade ao aluno e instilando-lhe alguma disciplina e segurança, o Magalhães é um must. Para os outros, não é nada. Como uma caneta de quatro cores.
O Magalhães é o primeiro produto informacional (ou relacionado) do Estado português que é livre — e só por isso já devia ser saudado. Com o Magalhães, as nossas crianças não são obrigadas pelo Estado a usar o software de um só fabricante. Podem escolher. Gostava de ter visto os habituais críticos do Estado realçarem este ponto, que é um ponto a favor do cidadão, um ponto a favor da transparência de processos. Não é um ponto pequeno: toda a relação informacional do Estado com o cidadão devia garantir a livre escolha, o que não sucede.
Ao concentrarem os esforços na perseguição política ao governo pelo uso de soundbytes sobre o Magalhães, os adversários fizeram-lhe o grande favor de elevar a fasquia da expectativa pública. Mas sairam mal na fotografia. Perderam. Desta vez, perderam. A iniciativa deu certo.
O Magalhães tem um potencial tal que quando chega às mãos (ou olhos) do público, toda a expectativa se cumpre. O Magalhães está muito para além de uma boa acção de comunicação do Governo. Com ele nas mãos, ninguém vai querer saber se foi montado em Famalicão ou Taiwan, e se alguém se lembrar que o governo aproveitou para aparecer nas fotografias, encolherá os ombros e dirá, “pois fez muito bem”.
O Magalhães é um sucesso público. E isso é encorajador para a sociedade portuguesa. Nenhuma pessoa de boa vontade espera que seja perfeito no lançamento, ou que venha resolver todos os problemas estruturais e endémicos da educação, do país. Mas é um passo em frente no trajecto. E um passo largo.
O mercado reagiu tão bem ao Magalhães que antecipou a sua saída com produtos concorrentes, uns melhores, outros não. Ou seja, há um novo mercado aberto e estão cimentadas as condições de mudança, nomeadamente para completar a massificação da banda larga e da informática no país.
O Magalhães é, também, para já, um sucesso industrial, caso raro no país. Mas fica para outra altura.
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Paulo, não resisto: «….a semente do hacker». Que belo título num filme!
Não quero ofender mas o seu texto parece-me uma colagem de ingenuidade e alguns preconceitos. Espero sinceramente que seja eu a estar errado.
pedro, não quero ofender, mas o seu comentário parece um despejo de fel dirigido à minha pessoa, sem capacidade argumentativa em relação ao que aqui se escreveu. Espero com não menos sinceridade estar enganado.
Conheci em vídeo e achei muito lindo, as crianças a digitarem, os dedinhos e olhares espertos, curiosos, sensacional.
Sums it all up, suponho que seja a expressão mais adequada.
Excelente texto. E de facto na mouche.
Parabéns!
Acho piada ao Magalhães. A sério que acho.
Acho piada à comparticipação do Governo. A sério que acho.
Acho piada aos impostos de milhentas empresas de distribuição informática servirem para engrossar os bolsos de um concorrente. A sério que acho.
Deve ser a isso que chamam economia. E eu devo ser o estúpido…
Acho piada à maledicência! A sério que acho!
Que eu saiba os impostos servem para tudo na sociedade. Essa noção estúpida de que “os meus impostos vão para isto e aquilo” é uma burrice de todo o tamanho! O Estado, como promotor da igualdade, tem que gastar dinheiro, dinheiro esse que vem dos meus e seus impostos, trabalhemos em que área trabalhemos.
E já agora, qual era a opção? Concurso público, lento, e ao qual empresas como a Intel nunca se iriam meter? Ou ter um ajuste directo com um parceiro, em que há garantias? Não há mal nenhum nisso… E é para um bem comum, não esqueçamos isso!
Estou farto de malta que não atinge, e só mesmo questões mesquinhas (aka, políticas) é que levam a estas questões estéreis e sem grande sentido!
ARRE!
Indiferentes às “críticas” estéreis acerca do “marketing político” [do Magalhães]
Concordância total!
É de um enjoo… O pior é que a crítica para além de ser fraquinha surge em manada, uns repetem os outros, uma falta de imaginação preocupante, o que revela muito sobre quem critica.
[...] como a FNAC e perceber a reacção da grande maioria dos seus visitantes ao Magalhães, como Paulo Querido tão bem comentava ainda há [...]
Bom, arriscando-me ao rótulo das «“críticas” estéreis acerca do “marketing político” e da origem geográfica dos seus componentes», ocorre-me que a curiosidade daqueles que passam pela FNAC decorre precisamente do extenso marketing político que tem sido feito a esta iniciativa. Não me surpreende que haja curiosidade em saber o que é esse gadget que os seus rebentos poderão ter por 50 € ou menos.
O Magalhães é inquestionavelmente um sucesso político e comercial. Falta saber se também o será no plano educativo. Poderemos ter palpites vários e até já há quem tenha estudado o assunto das IT na educação mas, entre nós, só daqui a alguns anos teremos material análises.
Entretanto, encontro-me a recolher informação sobre o tema para estabelecer a minha própria percepção que, entretanto, hei-de publicar no Fliscorno.
PS: comentário escrito num primo do Magalhães, o Asus EEE PC 901, Linux edition.
Paulo Querido, acho que um blogger deve manter alguma honestidade intelectual e não enviesar os factos. O magalhães é muito bonitinho sim senhor, mas não houve qualquer concurso público para o governo comprar os 500.000 magalhães (isso é livre, para não dizer legal e democrático?), vem com o windows XP (será que não existem alternativas mais livres e que possam germinar a semente do hacker, como Linux?) e foi anunciado como tecnologia portuguesa made in portugal… Quanto é que o Paulo Querido recebeu do PS? Inovador? Então e o eePC que vem com Linux e foi dos primeiros computadores deste tipo, ou o Acer Aspire One que também vem com Linux? Para não falar do OLPC que foi o computador original, verdareiramente opensource, do qual a intel saltou fora quando a AMD entrou e depois fez este computador, chamado classmate PC mas agora renomeado Magalhães. Era bonito ver o Paulo Querido a referir também estas questões, ao invés de passar um pano por cima disso tudo, dizendo que existem críticas que foram completamente desconstruídas, sem as referir. Um equipamento livre não pode ter escondido por detrás acordos multimilionários, escondidos ao contribuinte, com empresas como a Intel e a Microsoft. Era bom ver isso sim, projectos desses e investimentos destes serem feitos com tecnologia verdadeiramente livre.
Que eu saiba o Magalhães dado nas escolas vem com o Caixa Mágica, que por acaso é um Linux made-in-Portugal…
Eu também não morro de amores p’la Micro$oft, mas convém ver as coisas como elas são! E refiro o que referi, lá em cima: Empresas como a Intel não se iriam meter em concursos públicos - querem parcerias e garantias. O Estado tem que poder fazer isso…
Primeiro que tudo o Magalhães vem com dual boot, windows XP e Linux caixa mágica. Portanto alguém paga o windows XP à microsoft.
Mas e então e o mercado livre que tão em moda tem estado nos últimos tempos? E a concorrência? Parece que para grandes negócios não é chamada. Bela democracia.
Mais ainda, quem me garante a mim, contribuinte, que a parceria Intel/Microsoft para um pc para as escolas é a melhor? Existem alternativas abertas e não foram consideradas, porquê? Alguém sabe?
O Estado tem de ser transparente e claro, ou não? Não pode fazer manobras de marketing como este magalhães e o outro recente caso do carro eléctrico da Nissan. Pega-se em tecnologia já existente, muda-se o nome e diz-se que é português. Mas o povo português é burro?
Quanto dinheiro irá este projecto custar ao estado português? Não seria melhor equipar as escolas com computadores e outro material importante como aquecedores e professores? Em vez de fazer a jogada mais fácil e eleitoral de dar um computador a cada criancinha? Fazendo um cálculo a 100E por computador, isto custará cerca de 50.000.000E. Quanto deste dinheiro fica em Portugal?
Acho que estas questões são importantes de esclarecer e reflectir sobre elas.
Outra coisa que me esqueci.
Não defendo que o estado não deva redistribuir os impostos, muito pelo contrário, acho que o estado redistribui muito mal os impostos, deveria fazê-lo ainda mais.
Agora, uma coisa é redistribuir os impostos em acções e projectos que cujo objectivo é beneficiar a população portuguesa, outra coisa é fazer acordos milionários com empresas e depois encapsular isso tudo com uma imagem de equidade social.
A equidade social não vem com um pc em cada colo.
Ok,
Então vamos supor que as coisas iriam funcionar de forma harmoniosa e perfeita:
a) Iríamos primeiro que tudo equipar as escolas com aquecedores e professores não é? Então vamos lá:
a1) Concurso público para aquisição de aquecedores, quadros e outra parafernália realmente necessária - como iria ser a nível nacional, quê, dois anos de concurso público?
a2) Admissão/redistribuição de professores - bom, para isto passam-se também uns dois, três anos se calhar - porque depois começavam as greves, manifs e afins dos contras do costume…
b) só depois iríamos tratar de um “Magalhães”, mas sem recorrer a nenhuma empresa previamente, sem contactos, sem parcerias, sem nada - tudo limpinho, cristalino e transparente! Claro que depois viriam os outros (os maldicentes portanto…) dizer que estávamos na cauda da Europa em literacia digital (se é que algo assim existe…), e dizer que deveria ter sido feito há mais tempo e por ajuste directo… Ah! e depois dos contratos para o hardware, viriam os contratos para o software… mais um concurso público. Talvez só daqui a uns 5 anos teríamos um Acer Aspire One com um Edubuntu para aí não?…
PS: eu gosto muito de Linux e outras plataformas alternativas, aliás, uso-as no meu meio profissional quando são adequadas!
“O Magalhães é inquestionavelmente um sucesso político e comercial. Falta saber se também o será no plano educativo.”
Jorge: medir o sucesso educativo é um bocado difícil. Agora, acho um pouco tonto pretender que o Magalhães tem a missão de mudar o ensino em Portugal.
Tonto e ridículo.
O Magalhães é uma ferramenta. Tem o estatuto de um lápis. Ou, vá lá, de uma ardósia com telefone incorporadao. E não mais que isso. Ou as PESSOAS são capazes de o usar em proveito, ou não. Serão as pessoas a fazer o sucesso ou o insucesso.
O Magalhães é apenas uma ferramenta. Necessária porque moderna. Essencial, pelas razões da competitividade futura dos jovens, que trabalharão num mundo informatizado onde a informação digital e a capacidade de a manipular e criar com ela são o ar que a economia respirará. A literacia digital não é um termo de salão.
Artur Palha: nenhum blogger, ou jornalista, detém a versão última e absoluta de A Verdade.
Também acho que os comentadores devem manter alguma honestidade e não disparatar ANTES de lerem o que, ou quem, vão comentar. Se me ler, verificará que já mencionei como um ponto controverso a inexistência de explicações sobre a falta de concurso. Eu até as conheço e aceito — mas a percepção do público é a de que isso não é admissível (é admissível e é prática frequente).
“o governo comprar os 500.000 magalhães (isso é livre, para não dizer legal e democrático?)“. É. Livre. Legal. Democrático. Mais. É o que se espera que um governo faça. Que trabalhe para o bem público. As medidas são tomadas pelo governo. Debatidas pela sociedade. E votadas, ou vetadas, no final de cada legislativa. Chama-se democracia. Não olhe para mim, não tenho nada a ver com isso.
“Quanto é que o Paulo Querido recebeu do PS?”
Eu não sou assalariado de nenhum partido político ou associação e nunca recebi um centavo de nenhum partido político ou associação, excepto pela prestação de serviços de alojamento de um website (do PND, se quer saber).
E o Artur Palha, quanto recebeu do PSD para andar a dizer mal do Magalhães?
A pergunta incomoda-o?
A mim não. Cansa-me, apenas. Eu não sou, sequer, considerável como simpatizante do PS. E neste ambiente (inovação, tecnologia) já defendi políticas e políticos do PSD e ataquei políticas e políticos do PS. Concluo asim: vá comer sabão.
A questão do OLPC está muito mal contada. Sim, tenciono contá-la melhor um dia destes. Não tenho a pretensão de explicar o mundo num post. Um cheirinho: o OLPC é uma iniciativa. Não um produto.
“Existem alternativas abertas e não foram consideradas, porquê? Alguém sabe?”
Quem afirma que não foram consideradas? Você? Sei um pouco mais que você, então. Foram consideradas alternativas. Aliás, o Magalhães foi bastante bem estudado na fase preliminar. Talvez o nosso chefe do Plano Tecnológico deva ter uma prestação pública mais forte, e possa explicar tudo isso aos bloggers… Ou prefira os canais tradicionais.
Não. A equidade social não vem dos computadores, como não veio das canetas serem Bic ou Parker. A equidade social constrói-se. O Magalhães faz parte da solução da educação em Portugal. Não faz parte do problema.
Mas o objectivo é fazer coisas para amanhã (ou para as eleições) ou fazer as coisas bem feitas e com uma estrutura lógica e sólida?
É que para mim, estas coisas rápidas e ágeis de ajustes directos de 50.000.000E parecem-me sempre acordos debaixo da mesa.
Os projectos de desenvolvimento não são a curto prazo, não são para ontem. São projectos longos, não se transforma um país subdsenvolvido em desenvolvido em 6 dias (a menos que se tenha algum poder sobrenatural).
Do que estou a falar é disso mesmo: este projecto não é um projecto de desenvolvimento coisa nenhuma. É uma manobra política e como tal deve ser criticado. Há outros projectos que trariam um desenvolvimento mais sustentado para POrtugal, com os mesmo custos. É disso que estou a discutir.
Outro exemplo destas jogadas políticas.
Existia uma empresa chamada SRE - soluções racionais de energia, que desenvolvia pilhas de combustível (fuel cells). Essa empresa desenvolvia produtos inovadores, tinha bons resultados e seria capaz de competir no mercado international. Seria portanto, penso eu, benéfico para Portugal a médio longo prazo. O que foi feito por este governo? Um acordo milionário com uma empresa da Malásia, para esta construir uma fábrica em Portugal. Resultado, a SRE desapareceu do mapa e todo o investimento que foi feito pelo Estado na forma de apoios à investigação que permitiram a criação daquela empresa foi desperdiçado. Mais uma vez tornámo-nos uns meros assembladores, altamente susceptíveis às oscilações do mercado laboral internacional, sendo trocados sempre que existe um país com mão de obra mais barata e um clima com menos agitação social.
O Magalhães ou outro que tal vai mesmo resolver os nossos problemas de subdesenvolvimento? Vai trazer melhores resultados em matemática? Acho bastante ingénuo pensar que sim, que um objecto vai resolver os problemas estruturais da educação e equidade social do nosso país.
Só mais uma coisa.
Estou farto desses lugares cumuns de que o Estado só empata com a sua burocracia, que os funcionários públicos são do pior. Alguém já olhou para a privada? Para a privada em Portugal? Onde é que já se viu mais burocracia e mais incompetência? Parece que nunca ninguém teve clix, ou tvcabo, ou um seguro, ou nunca trabalhou numa empresa privada e viu o que por lá se faz e como se faz, etc..
Estou farto de se dizer que o Estado é mau quando funciona e regulamenta e actua com medidas a médio, longo prazo, mas bom quando há problemas na tão boa e dinâmica privada que é preciso injectar 700.000.000.000 de dólares para salvar a privada e reduzir os efeitos da doença de parkinson que afecta a mão invisível do mercado.
Também estou já saturado desse discurso simplista que ataca as greves e as manifs sem qualquer noção de que a quase totalidade das condições de trabalho actuais (inclusivé as 40 horas semanais que o Ricardo Ramalho fala no seu blog) foram obtidas apenas por muitas e dolorosas greves e manifs.
Para terminar, para não monopolizar a discussão.
1- Não pertenço nem ao PS, nem ao PSD, nem ao CDS tão pouco, nem ao BE nem ao PCP. Ideologicamente sou comunista, espero que a afirmação não incomode o Paulo Querido, porque a pergunta que me fez não me incomodou nada.
2- Se está tão bem informado, porque não nos informa das razões que levaram à escolha do Magalhães em detrimento de outras? Ou isso é segredo de Estado.
3- Democracia não é opinar sem qualquer consequência e, de quatro em quatro anos, colocar um papel com uma cruz numa caixa.
Apesar das discordâncias claras entre nós, acho bastante positiva esta oportunidade de discussão, em vez do marasmo.
@ Ricardo Ramalho,
Espere até o Estado fazer um negócio com uma empresa concorrente da sua e a levar à falência (com a contribuição dos seus impostos). Depois falamos…
Entretanto, pela sua lógica, o Estado não deveria ter comprado Magalhães.
Senão vejámos:
Permissa 1. As escolas não tem professores e aquecedores.
Permissa 2. Não adianta fazer concursos públicos, porque demoram tempo.
Conclusão = as escolas continuam sem professores e aquecedores.
Agora passemos para a segunda parte da equação proposta por si e tentemos analisar a falha na lógica:
Permissa 1. As escolas não têm Magalhães
Permissa 2. Não adianta fazer concursos públicos, porque demoram muito tempo.
Conclusão mais lógica (tendo em conta as permissas anteriores)= As escolas continuam sem magalhães.
MAS, as escolas têm Magalhães, o que não têem é aquecedores, professores… até mapas de Portugal, imagine!
PIOR, num sistema educativo onde prevalece o facilitismo, não me admira que os exames e os testes passem a ser enviados por e-mail, com prazo de uma semana para resposta…
Mas, lá está, deve ser a isto a que chamam Prioridades. Mas ficou provado que o estúpido já não sou eu…
@Artur Ralha
Desculpe-me o off-topic, Paulo!
A questão das 40 horas faz sentido, sabendo que sou informático e lendo o texto ao qual liguei… Se o leu percebe onde quero chegar com aquele post.
E quanto às greves… Não são as greves de um dia que têm consequências, são as que param efectivamente um sector do país, seja ele público e/ou privado. Isso não acontece neste país, como se sabe. As manifs de 200000 num dia em Lisboa pouco valem porque só fazem barulho, e geralmente são inconsequentes. Como se tem visto. Greves a sério são aquelas que param sectores por longos períodos.
Mas pronto… Este não é sítio para me alongar sobre esta questão.
Desculpe-me mais uma vez, Paulo.
@Karl Macx
O que estava a tentar dizer é que há coisas mais importantes por vezes do que andar a fazer concursos por tudo e por nada! A situação é mais importante do andar a perder tempo com burocracias da treta.
Não deve ter percebido a figura de estilo…
@ Ricardo Ramalho
Precisamente o meu ponto. Podemos andar com “burocracias da treta” para aquecedores, lápis, papel higiénico, até folhas A4 de papel cavalinho. Mas para o Magalhães não.
Prioridades…
É certo que o artigo do PQ sobre o Magalhães estava um pouco enviesado. Mas enviesado como o olhar dum pai (PQ) para um filho (Magalhães).
Também não acredito que PQ tivesse uma cor política, excepto a da defesa dum conceito de sociedade mais info-incluida. Agora, temos que ter a consciência que o actual governo teve aí uma acção (questionável no que toca às alternativas que considerou e nos critérios que definiu) que lhe valeu muitos pontos na popularidade.
Por outro lado, e entendo a perspectiva do Artur, que é um grande amigo meu, o Magalhães é um composto de peças estrangeiras montadas em Portugal. E que portanto não temos assim tantas razões de estarmos tão orgulhosos. O Magalhães é um bocado a imagem do PoSat, o primeiro e único satélite português, que foi todo concebido, montado e assemblado em Surrey (Inglaterra), sendo Portugal pouco mais que um cliente. Dito isto, o PoSat, no quadro académico, formou engenheiros qualificados que, anos mais tarde, fundaram empresas na área do espaço (estou a pensar no Ivo Vieira que fundou a Lusospace e fabricou, qualificou, patenteou e vendeu o primeiro magnetómetro (sensor de satélite) 100% português!).
Portanto, eu acredito que, apesar de ser um pouco “fachada”, o Magalhães catalizará toda uma série de eventos positivos para Portugal. Talvez o primeiro computador realmente criado por portugueses?
Viva o Magalhães!
Paulo, “pretender que o Magalhães tem a missão de mudar o ensino em Portugal” são palavras suas que não reflectem o que escrevi no comentário anterior. Se o reler, constatará que refiro haver “quem tenha estudado o assunto das IT na educação”, o que nem é tonto nem ridículo. Pelo menos, assim o devem achar todos os que dedicaram tempo a escrever papers sobre o assunto, como pode constatar no ERIC.
De resto, sobre o Magalhães ser apenas uma ferramenta, já sobre isso havíamos falado.
Não vejo que haja problema em os miúdos da primária terem acesso a um computador. Mas é necessário terem o seu próprio computador? Não disponho de base para fundamentar uma opinião neste assunto mas não me parece que seja linear. Por outro lado, há investimento estatal ou não? Tenho ouvido dizer que estes dinheiros saem das licenças UTMS mas há pontos que não batem certo. Como por exemplo a diferença entre o valor pago na FNAC e aquele que tem sido anunciado no e-escolinhas. Há, pelo menos, o investimento de 280 € (?) por aluno que tenha o computador à borla por causa da acção social. Quero eu dizer, há investimento estatal, apenas (!) não temos tido conhecimento dos números envolvidos. Havendo investimento, há que colocar a questão do custo de oportunidade e novamente se era mesmo necessário que cada criança tivesse o seu portátil. Estamos a falar da escola primária, note-se. Temos que perguntar se uma sala informática devidamente equipada na escola não cumpriria os objectivos da obviamente necessária literacia informática.
Há, ainda, mais um aspecto. Nos anos que vêm, continuarão os miúdos do primeiro ano a receber computadores? Tivesse o investimento sido feito na escola e todos os novos alunos dele beneficiariam; desta forma, depende da continuidade da atribuição de portáteis.
Portanto, qual é o custo de oportunidade desta iniciativa? Ou seja, o que poderia ter sido feito em alternativa com este mesmo investimento? Palavras como este é «o maior investimento bla bla bla» ficam bem nos telejornais mas não respondem a estes tópicos.
Contr ao Magalhães nada tenho. Já há muito que era necessário entrar no mercado um computador feito a pensar nas crianças.
O meu fel é todo contra os «Magalhães» oferecidos pelo estado português às crianças. Um custo para os bolsos públicos. Por diversos motivos.
Há falta de meios tecnógicos e de livros nas bibliotecas portuguesas, inclusivé atraso na digitalização de obas de relevo. Há falta de condições nas escolas. O défice está em equilíbrio precário. Está-se a passar pelo pico de uma grave crise económica. No ensino superior o financiamento tem sofrido uma grande quebra, pondo em causa coisas essenciais como os direitos de trabalhadores e as condições para os estudantes. Fracos incentivos do Estado português ao desenvolvimento científico e tecnológico. Etc.
Perante estes e outros aspectos, considero que o que se gastou na aquisição de computadores Magalhães para os distribuir sem critérios de relevo por crianças, devia ter sido gasto no desenvolvimento no país, na resolução de problemas graves imediatos ou gardado para melhores planos no futuro.
«Para os alunos do primeiro ciclo terem o Magalhães, não temos marcador [para escrever no quadro].» .»Professora catedrática, ensino superior português.
[...] no Expresso multimedia publicada aqui em 27 de Setembro e mais tarde republicada no Certamente! (link), o portátil Magalhães é uma verdadeiro caso de sucesso da política e da indústria [...]