Porque pode Pedro Passos Coelho perder estas directas
Repito que aos olhos de alguém como eu, que olha para o PSD exclusivamente como um caso de estudo, sem envolvimento, Pedro Passos Coelho é o mais simpático dos candidatos. Isto para apontar porque acho que Pedro Passos Coelho pode perder esta directas.
Curiosamente, a explicação para a eventual possibilidade encontramo-la no próprio blogue de apoio à sua candidatura, no post onde Rui Albuquerque dá as suas razões de adesão (negritos meus):
Na verdade, se as origens do PSD (PPD) são inteiramente liberais, desde logo, ainda com a «Ala Liberal» dos tempos de Marcelo Caetano, donde nasceria o partido no pós-25 de Abril, e com a orientação ideológica e pragmática que lhe imprimiu Francisco Sá Carneiro, o PSD afastou-se do liberalismo quase imediatamente a seguir à morte do seu fundador. Pelo contrário, o discurso social-democratizou-se com Balsemão, e a prática governativa de Cavaco Silva foi assumidamente keynesiana e intervencionista, defensora de um Estado Social e não de um modelo liberal.
Daqui resultou um partido intrinsecamente ligado ao Estado, defensor das posições do Estado, e apenas liberalizador no indispensável para uma sociedade de um País que pertence à União Europeia. Cavaco privatizou, mas ampliou substancialmente as funções do Estado Social e quase duplicou o número de funcionários públicos. Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite atacaram o défice das contas públicas, mas agravaram impostos e não reduziram o peso do Estado, menos ainda reformaram a Administração Pública.
Com isto, mais as constantes lutas intestinas em que o partido se tem envolvido na última década, o PSD afastou-se da sua matriz inicial e virou as costas ao seu eleitorado preferencial: a classe média. Se Pedro Passos Coelho for capaz de voltar a falar com ela, se lhe apresentar um programa político que passe por uma concepção do Estado português que não se limite a tentar recuperar o Estado Social, tarefa que deve caber a um partido socialista e não a um partido liberal e reformista, ele poderá, de facto, protagonizar o volte-face político de que o País há muito espera do PSD.
O problema é um problema do tipo pescadinha de rabo na boca: no Governo o PSD contribuiu em larga escala para o downsizing das classes médias portuguesas, reforçando o peso das classes altas na economia e retirando poder político e de intervenção na orientação económica a todas a classes excepto as altas.
Se se deixar enrodilhar no eixo intelectual liberal que hoje passa por ser a opinião pública alternativa e está tão bem representada na blogosfera política quase se confundindo com ela, Pedro Passos Coelho fica a discursar para uma pequena multidão de entusiasmados que não lhe regateará “vivas”.
A chave de leitura da frase anterior não é “entusiasmados” mas sim “pequena”.
Ser realista em Portugal ainda passa, por largos e bons anos, pelo Estado. Nenhum líder vencerá eleições — mesmo partidárias — contra o Estado.
Teorias à parte sobre a quem compete ou deixa de competir produzir reformas, os únicos esboços de reformas dignas de nota do Estado português foram capitaneadas por governantes saídos do Partido Antes Conhecido Como Socialista, em geral à custa de grande impopularidade, como é normal. (O que não é normal é o actual governo pragmático eleito pela esquerda estar com os índices de popularidade tão altos em final de mandato.)
Não duvido que Pedro Passos Coelho possa ser o líder redentor, capaz de devolver o partido à minoria liberal da sua matriz fundadora (o Partido Popular Democrático / Partido Social Democrata nunca foi o Partido Liberal Democrata, e Sá Carneiro não foi o seu único mentor ideológico, é apenas o fundador mítico, porque morto)
Opino é que isso o desgraçará logo junto dos primeiros eleitores: os militantes do PSD.
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Mas será que alguém leva a sério o discurso de PPC? A historia do liberalismo é só para mostrar que “é diferente”. Se alguma vez chegar ao poder, depois logo se vê.