Portátil Magalhães: a internacionalização de um sucesso
Como escrevi em crónica no Expresso multimedia publicada aqui em 27 de Setembro e mais tarde republicada no Certamente! (link), o portátil Magalhães é uma verdadeiro caso de sucesso da política e da indústria portuguesas. Um dos raros casos de sucesso, o que é mais uma razão para o contentamento generalizado que lhe tem sido dispensado.
Mesmo o blá blá blá e a retórica da oposição ao governo, que, como lhe compete, instrumentalizou o caso para a rotina do ataque político, já deram lugar à conversa em torno dos pormenores do projecto. Tão embrenhada nos aspectos partidários do assunto, essa oposição (e pintaínhos adjacentes) só mais tarde percebeu que se tratava de um acontecimento extraordinário — e como tal merecedor de uma atenção extraordinária, que passou então a dispensar-lhe, seguindo a par e passo o avanço do Magalhães, nomeadamente a sua internacionalização.
O portátil Magalhães cumpre o seu quinhão de fado português. Dos ciclistas aos futebolistas passando pelos escritores, investigadores e até, mais recentemente, políticos, tudo o que de melhor temos obtém fora de fronteiras o reconhecimento do sucesso que lhe é sonegado dentro das ditas.
Não posso deixar de escutar atentamente as críticas que defendem que as escolas básicas (e não só) têm outras carências mais profundas, que deveriam ter sido contempladas antes da distribuição de portáteis (aqui). Se eu for colocar questões aos responsáveis políticos deste sucesso, tramá-los-ia com uma meia dúzia de aspectos que me parecem fracos, a começar pela ausência de programas e em que medida isto se relaciona com uma vaga de fundo para tornar o professor num ponteiro dos powerpoints puxados dos sites da indústria da educação: as empresas que já controlam o espantoso, maravilhoso negócio dos manuais escolares e que estão nos bastidores a puxar cordelinhos a ver quem consegue amarrar mais depressa o Estado a um contrato leonino.
A mim preocupa-me mais o assalto dos privados aos dinheiros públicos que os erros de gestão destes. Que querem — há gostos para tudo. E, assim como assim, e como lembrava José Alberto Carvalho num contexto semelhante, há 2 ou 3 semanas, o escrutínio sobre o Estado já é grande, mas ninguém parece interessado em escrutinar os privados que o parasitam, pressionam e enganam.
Outra pergunta que faria: porque não dignificam antes o professor, em vez de continuarem a remetê-lo ao papel de contínuo, dando-lhe formação informática e preparação e metodologia para o ambiente (in)formativo reticular em que os alunos hoje vivem?
Mas continuo a achar que é preferível distribuir o que se tem e pode — ferramentas informáticas indispensáveis no mundo do século XXI — do que o que não se tem nem pode.
Longe do espartilho partidário que desde o início marcou a conversa sobre o portátil Magalhães, a verdade permanece esta. Em termos do ensino, são mais (e de maior qualidade) as vantagens que as desvantagens (as críticas podem ser supridas independentemente do Magalhães). Não ser o que as escolas mais precisam, é um argumento óptimo, e útil, para pressionar o Estado a dar maior atenção às escolas — mas não serve de argumento contra o Magalhães.
Em termos da intervenção do Estado, mais vale usar algum dos mecanismos de financiamento ao dispôr do que perder meses com um debate público sobre qual deles usar. Recordo que esta é, nitidamente, uma daquelas decisões que são escrutinadas pelos técnicos e que só no fim de uma legislatura devem merecer o balanço da opinião pública. Não estamos a falar de uma política de fundo da Educação, de uma questão social como o aborto, ou do maior ou menor envolvimento do Estado na economia.
Em termos da economia, é cada vez mais clara a dimensão de sucesso. Tirando o futebol, não estou a ver mais nenhum produto produzido pela indústria nacional este século que tenha provocado a cobiça internacional, dispensando, até, as promoções e feiras com que o Estado tenta, à custa de milhões de retorno dificilmente mensurável, salvar algumas indústrias e relançar outras.
Paulo Querido, jornalista
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6 opiniões no artigo “Portátil Magalhães: a internacionalização de um sucesso”
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[...] pouco entrou, agendada, a republicação do meu artigo sobre o sucesso internacional do portátil Magalhães. É um mau timing, dirá qualquer pessoa. Tendo em conta as notícias recentes da questão judicial [...]
Caro Paulo,
“Tirando o futebol não estou a ver mais nenhum produto criado pela industria Portuguesa”
Comentário algo exagerado ou de quem acha que só porque aparece na TV existe.
A Renova (papel) é um caso de sucesso em termos internacionais, assim como a Compal em Espanha, a Critical Software, os vários produtores de moldes plásticos, etc, etc, etc. Não têm é necessidade de se promover internamente à custa de supostas “internacionalizações prometidas”, sim, que de concreto ainda não existe nada, para além de um acordo com Chavez…
Que o magalhães (nome fantástico para internacionalizar…) é uma iniciativa de louvar é uma coisa. Fazer disto um caso de sucesso internacional da industria, etc, etc, etc é outra. Estamos um bocado fartos das iniciativas prometidas e não cumpridas. Espero que daqui a um ano, como jornalista, verifique o que aconteceu ao Magalhães. Para o bem e para o mal.
Caro Nuno, a Renova é um caso, sim senhor (apesar de terem sido apanhados a plagiar um video de uma forma desavergonhada. No melhor pano cai a nódoa, sem dúvida).
A Critical Software é um exemplo menos interessante, tendo em conta a escala em que compete e a sua posição nessa escala. Para nós é orgulho, lá fora é yet another software house.
Idem para as restantes que citou: são bons exemplos, mas ficam aquém do interesse vivo e da admiração que despertam fora dos seus nichos de origem — era esse o sentido do meu artigo.
Mal comparado, é como as medalhas internacionais da Superbock ou os filmes publicitários premiados em Cannes.
“Comentário algo exagerado ou de quem acha que só porque aparece na TV existe”
Neste artigo abordo o interesse através da sua repercussão noticiosa, é um facto. As notícias dão conta do interesse em diversos países — não apenas no “amigo” venezuelano. As notícias de AGORA — não as notícias de há meses, quando a Renova lançou o papel higiénico preto, ou de há anos, quando descobrimos, fascinados, que uma empresa tinha ousado sair de Coimbra para competir no mundo.
É curiosa, essa invocação da televisão. Sobretudo porque Gonçalo Quadros e Diamantino Costa têm gozado da admiração quase à náusea, tendo um grande prestígio televisivo. E a Compal e a Renova possuem excelentes departamentos de marketing (que também erram de forma não menos “excelente”, como foi o caso da Renova, só atenuado porque, enfim, é da web social que estamos a falar, e para as empresas a web social é 1 mistério, algo que não se controla com press-releases, conferências de Imprensa e prendas). O mesmo não se poderá dizer da J.P. Sá Couto.
Paulo,
Mais um caso que pouco se fala: Aerosoles.
SObre este aparente sucesso internacional, a minha experiência diz-me que sempre que uma marca aparece no mercado nacional como de sucesso internacional isso é sempre mais para consumo interno e com objectivos de curto prazo. Há excepções claro, resultado de trabalho de jornalismo verdadeiro…
Da Renova nao sabia.
Do Magalhães, como lhe disse, de sucesso internacional apenas promessas. Fiquemos atentos, se isso interessar para alguma coisa…
Nuno, o jornalismo verdadeiro é o jornalismo que não inventa nem distorce.
Penso que se está a referir não a isso, mas à míngua de um dos produtos jornalísticos: a reportagem de investigação. Sim — isso falta. É um falta gritante, imho.
O país tem falhas desse género que são fodidas. Estatísticas, por exemplo. Não há. Os gestores portugueses gerem sobretudo por empirismo.
Informação sobre o Estado. Eu faço regularmente um teste. Pergunto quantos computadores há na Admin. Pública. E quanto gastam em licenciamento de software.
4 governos, 0 respostas.
Não estou a dizer isto para isentar os publishers portugueses das culpa por terem morto a investigação jornalística. Digo isto apenas para termos a noção de algumas das dificuldades com que nos debatemos.
Esse “nos” é nós sociedade, nó em geral, não particularmente nós jornalistas.