Sobre o fim da blogosfera

As pessoas, incluindo os profissionais de jornalismo, lêem o que cérebro os deixa ler. Um título de uma peça tem um duplo objectivo: sintetizar o assunto, ou teor, do artigo e chamar a atenção para ele.
(Versão de arquivo. A versão original está publicada no Expresso multimedia, aqui.)
No início da semana, recebi o mail de Rogério Santos a lembrar-me, gentilmente, o IV encontro de blogs na sexta-feira, pedindo o título da minha apresentação para o colocar no blog do encontro. Dei as minhas voltas. Já sabia sobre o que iria falar mas faltava-me ainda uma linha de força. Passado um determinado tempo, respondi-lhe: “A minha comunicação terá por título “O fim da blogosfera”. É um título provocativo e jogo com os sentidos da palavra fim, não tanto como no fim de um livro, mas mais no fim da margem de um lago — chegar a uma fronteira. É uma metáfora para o fim da fase das borbulhas da blogosfera, que entra numa idade madura — como aliás fazia notar a The Economist [...].
Nessa idade madura está a ligação ao tema do painel — cultura e negócio


E passados mais uns minutos, decidi-me. Era simplesmente irresistível fazer, no meu blog pessoal, um post intitulado o fim da blogosfera. Um post normal, informando do IV encontro a escassos dias da sua realização, e dando notícia do teor da minha apresentação.

Bem. Só não caiu o Carmo e a Trindade na blogosfera porque, a bem dizer, já não há (energia na) blogosfera. Um título destes em 2006 teria pegado fogo à blogosfera, que então existia, em todo a energia das suas juvenis borbulhas.

Foi, no entanto, curioso ver algumas reacções. Desde logo, e em primeiro lugar, o Rogério Santos, organizador do IV encontro, professor e blogger histórico. Rogério Santos admite (links no final deste artigo): “parece que a ideia romântica da blogosfera - onde cada um escreve o que pensa ser útil e o partilha com outros, formando uma comunidade - está rapidamente a desaparecer.

No 5 Dias Luís Rainha dá uma lição de como citar fontes relevantes e escreve: “desta forma, a «ascensão de uma nova forma de comunicação socializada: a auto-comunicação em massa» celebrada por Castells redundaria sempre numa multidão de profetas a clamar em desertos electrónicos, vendo apenas ao longe as luzes das cidades hospitaleiras, ocupadas e geridas pelos happy few do costume“.

João Pedro Pereira, no Tecnopólis, concorda: “Como cada vez menos se diferencia do resto dos sites, a blogosfera tende para o desaparecimento. Algo que não é diferente do que o rodeia não existe por si

Paulo Pinto Mascarenhas, no Atlântico, joga forte demais na antecipação: “posso estar enganado, mas presumo que Paulo Querido irá defender que os blogues hoje não existem ou estarão à beira do fim sem o recurso a outro tipo de ferramentas e instrumentos, como o Twitter, por exemplo“. Espero que não tenhas feito disso uma aposta, Paulo :) Na realidade, há cada vez mais blogues e estou relativamente seguro que o ritmo de publicação não diminuirá nos próximos anos.

O Paulo escreve ainda isto: “Fora da blogosfera, sobretudo quando falo com outros jornalistas, apesar de as conversas se iniciarem quase sempre com críticas ao blogue x ou ao autor y, apercebo-me de que nunca a blogosfera foi tão forte e tão influente nos meios de comunicação tradicional. O mesmo acontece com os bloggers com quem me dou mais“.

Ora, eu concluo o contrário. É precisamente porque essa proximidade aumentou que posso falar no fim da blogosfera. Como desenvolvi na apresentação no IV encontro (ver slides de apoio mais abaixo), parte das características essenciais da blogosfera perderam-se. A noção de blogosfera pressupunha, inclusivé, um antagonismo face aos jornalistas. Ou no mínimo um corpo comunicacional alternativo aos media, que até dava notícias, que marcava a agenda, obrigando os jornalistas a trabalhar naquilo que supostamente era o interesse “dos cidadãos”.

Exemplos disto foram, nomedamente, os casos Portugal Profundo e o diploma de José Sócrates. Eram “nós”, os bons, os puros, os bloggers, os cidadãos, contra “eles”, os jornalistas, vendidos, impuros, incompetentes, distantes.

De há já algum tempo a esta parte essa consciência colectiva de alternativa desapareceu. Uma boa parte dos bloggers que se distinguiram têm hoje funções remuneradas nos jornais. São pagos para escrever nos media. Republicam os seus artigos nos seus blogs, fazem links dos seus blogs para os artigos que escrevem a soldo dos jornais.

Representam uma fatia estatisticamente irrelevante da blogosfera, é um facto. Outro facto é que a miscenização entre mainstream media (MSM) e social media é muito mais ampla. Hoje, é difícil distinguir entre uma boa parte dos blogs do que são sites noticiosos e informativos. As fronteiras que delimitavam os dois campos esbateram-se, quase desapareceram.

Não apenas porque o número de publicações profissionais aumentou muito na Internet graças, em parte, à tecnologia do blog, à demografia do blog e às audiências da blogosfera.

Também porque — inevitavelmente — os jornais em geral já se aproximaram dos formatos narrativos que emergiram dos blogs (vistos como laboratório). Também porque um número impressionante de bloggers optou por se aproximar do estilo dos jornais, da função dos jornais — e dos modelos de negócio dos jornais.

Acresce que tanto na inclusão de diferentes formatos — o multimedia: texto, imagem, video — como ao nível do design a generalidade dos blogs se aproximou desse “centro ideal” para o qual convergiram os jornais online com a adopção das “modas” triunfadoras na blogosfera.

Não se trata de futurologia. Estou a descrever o presente e o passado próximo. As mudanças operadas na comunicação online nos últimos meses. Tal como fizeram Andreas Kluth (o autor do artigo da Economist que, já agora, explicou o título no seu blog pessoal), Nicholas Carr (no seu blog, bem como na Britannica) ou Paul Boutin na Wired de Novembro.

Dirão — mas mudanças não significam fim.

Direi — bastariam estas mudanças para justificar o título “o fim da blogosfera” numa comunicação onde se pretenda… apresentá-las, acrescidas de argumentos, para discorrer sobre este assunto.

Tratando-se de mudanças relativamente profundas, embora graduais (o que serve de atenuante para os bloggers não se terem antecipado aos jornalistas no engatilhamento do assunto), faz todo sentido falar em fim de ciclo, passagem para outro nível — e contra mim falo, porque o título assim começa a perder parte da sua graça, a graça de envolver o leitor pela controvérsia.

Contudo, na apresentação não me fiquei por aí. Apresentei 2 sinais — entre outros que nos rodeiam — para reforçar a tese do fim de algo mais que um ciclo. Sinais que, no caso da blogosfera portuguesa, vêm sido detectados desde 2006. Mas aflorei ainda aspectos que contribuem para tirar impacto aos blogues (e energia aos autores e leitores). O surto das redes sociais e da participação dos indivíduos nelas, bem como as alternativas editoriais como o microblogging, que é onde agora está a acção.

Eis, então, os slides que suportaram a apresentação.

Faço notar que são apenas slides. O que contém são pontos de partida para as explicações orais. No geral, os factos são apresentados as is. Num caso (o slide com logotipos dos serviços, em 2004 e 2008) optei pela acentuação da diferença através do exagero.

Para complemento e compreensão dos ciclos, recomendo este Hype Cycle for Social Software, da Gartner. Percebe-se onde está hoje a blogosfera: saiu da fase de desilusão (isto nos EUA: em Portugal estaremos em pleno centro dessa fase) e caminha para a fase em que se firmará como respeitável negócio, perdidos nas profundezas do Google os relatos dos pioneiros e a memória dos entusiasmos com o primeiro meme, com o link num blog de topo, com as guerras travadas “contra” os jornais.

Hype Cycle for Social Software, 2008

 

Links
Blogues - chão que deu uvas?, Manuel Pinto, dia 15
As notícias da morte da blogosfera são manifestamente exageradas, Paulo Pinto Mascarenhas, dia 14
Quem matou a blogosfera?, Sílvio Meira, dia 14
Ainda sobre a morte da blogosfera, Rogério Santos, dia 13, 09:00.
Morte da blogosfera? Não creio, Rogério Santos, dia 13, 12:46
O fim da blogosfera, lá longe, Luís Rainha, dia 13.
A morte da blogosfera, João Pedro Pereira, dia 12
Twitter, Flickr, Facebook Make Blogs Look So 2004, Paul Boutin, Wired de Novembro
Who killed the blogosphere?, Nicholas Carr, dia 7
The “death” of blogging, dia 6
Oh, grow up, The Economist, dia 6

Tweets

Debate

14 opiniões no artigo “Sobre o fim da blogosfera”

    1 atroni em 20 Nov 08 17:01

    Lendo esta frase “Só não caiu o Carmo e a Trindade na blogosfera porque, a bem dizer, já não há (energia na) blogosfera. Um título destes em 2006 teria pegado fogo à blogosfera, que então existia, em todo a energia das suas juvenis borbulhas.” só dá vontade de dizer que a Blogosfera passou rapidamente da idade adulta para a 3a idade: todos tentam falar o mais alto possível, todos em simultâneo; ninguém ouve e ninguém é ouvido…

    2 Paulo Querido em 20 Nov 08 17:03

    Sim… todos falam o mais alto que podem, em simultaneo, provocando um ruído indiscritível que torna difícil perceber as mensagens.

    3 António em 20 Nov 08 17:24

    Mas não é isso que se passa no Twitter? Toda a gente quer ser ouvida mas ninguém tem pachorra para aturar os outros (ainda hei-de perceber como se “segue” centenas de pessoas no twitter). E quem diz Twitter diz redes sociais.

    Eu discordo que em 2006 teria pegado fogo. Percebo o sentido mas em 2006 ninguém teria levado a sério…

    4 A blogosfera saiu de moda e perdeu o sex-appeal. É sério « Webmanário em 20 Nov 08 17:30

    [...] o sex-appeal. Sempre que alguém diz coisa parecida (recentemente foi a Wired, agora subscrita pelo jornalista português Paulo Querido), há uma movimentação de oposição quase nas sombras na [...]

    5 atroni em 20 Nov 08 18:07

    “Sim… todos falam o mais alto que podem, em simultaneo, provocando um ruído indiscritível que torna difícil perceber as mensagens” e quem diz perceber diz também fltrar a informação relevante.

    Embora, por outro lado exista ainda uma “auto-regulação” da comunidade que valoriza as melhores fontes.

    Um destes diias será necessário repensar o conceito de comunidade…

    6 Paulo Querido em 20 Nov 08 18:09

    António, seguem-se centenas (ou milhares) de pessoas no Twitter da mesma forma que se seguem centenas (ou milhares) de blogs. Aliás, é mais fácil.

    Hum… marcas um ponto nessa do levar a sério. Mas isso jamais foi razão para 1 conversa não pegar fogo, bem pelo contrário.

    7 Paulo Querido em 20 Nov 08 18:14

    atroni, auto-regulação das melhores fontes? Duvido. O que é uma boa fonte para mim não é para outra pessoa. E por muito que eu esteja dentro da “cultura de massas”, da “cultura da partilha” (até escrevi um livro sobre isso) e outras coisas que deliciam as “comunidades”, continuo consciente de que a “sabedoria das multidões” aplica-se a umas coisas e não se aplica a outras.

    Está para breve a altura em que vamos perceber isto e olhar de forma mais crítica para os efeitos desta colossal mole de egos que (julgam que) se exibem numa mundial feira.

    8 Nuno Pedrosa em 20 Nov 08 18:58

    Estava para comentar no semanário expresso mas o registo fez-me desistir. Aqui fica o comentário.

    Tenho de dar o braço a torcer ao título. Confesso que não o compreendi na altura. Também porque veio colado à questão twiter e pareceu-me, na altura, indicar substituição.

    Depois de explicado concordo totalmente. Blogoesfera é diferente de blogs. Esse núcleo que deveria existir (não frequentei e não o vivi mas acho que consigo imaginar) suponho que esteja em desagregação, em migração e em conversão. Esse núcleo seria uma blogosfera. Haver cada vez mais blogs não impede que a blogoesfera tenha desaparecido. Bem pelo contrário…

    9 jorge em 21 Nov 08 11:55

    o amigo Paulo pode por na lista também o fim das redes sociais myspace hi5 facebook …. e outros youtube porque seguem o mesmo principio :-) (é preciso ter muita pachorra para manter um prefil myspace pour exemplo)
    felizmente não é bem assim o que se esta aqui a analisar é simplesmente uma mudança normal e nada mais, os blogues de “nicho” funcionam muito bem e mesmo os mais modestos os myspaces music a mesma coisa e e sem falar do youtube

    10 albanoalfredo em 22 Nov 08 01:36

    Não concordo com o fim da blogosfera, mas entendo a preocupação e o debate, e o fim enquanto mudança de paradigma de utilização.

    O próprio debate que esta temática tem gerado na blogosfera é o típico debate que se desenvolveria no “auge” dos blogues. No entanto, actualmente o debate alastra para ferramentas como o twitter.

    É também interessante analisar o reverso da medalha do twitter. Assuntos e temáticas que dariam um post em tempos, com direito a uma reflexão mais cuidada, hoje em dia passam a um simples twitt, do tipo:
    olha q artigo interessante [tinyurl]

    perde-se um pouco o debate, e a essência do blog, diria. Exemplo: o carne p’ra canhão, numa “era pré-twitter” diria que teria conseguido mais posts, e comentários mais desenvolvidos.

    11 O fim da blogosfera | MUIOMUIO.NET em 22 Nov 08 12:26

    [...] que leiam os artigos Oh Grow Up do The Economist e o artigo Sobre o Fim da Blogosfera do Paulo Querido que no final acredito que todos concordamos com o facto de que a blogosfera [...]

    12 Espaço Aberto & Dois Apartes « O Peso e a Leveza em 8 Dez 08 12:03

    [...] Este blogue continua a sua “deriva”, com momentos de subpostagem. Não acredito que isto seja o fim da blogosfera, como afiança Paulo Querido e alguns gurus norte-americanos. Pessoalmente, sinto-me melhor num [...]

    13 ARREFECIMENTO DA BLOGOSFERA?! « Ildaborges’s Blog em 17 Dez 08 22:11

    [...] intitulou a sua comunicação para o IV Encontro de Blogues na Universidade Católica Portuguesa “O fim da blogosfera”. E isso já é um “arrefecimento de morte”. Mesmo que o autor referisse [...]

    14 Portugal 2.0 no ano de 2008 (parte XII ou “fim”) em 29 Dez 08 18:01

    [...] alguma ansiedade para ver o que 2009 nos reserva. Depois de em 2008 termos assistido à “morte da blogosfera“, à massificação do microblogging, à confirmação e ao surgimento de projectos que [...]

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