Viva o Magalhães! (ou: qual é o futuro para um país moitaflorado?)
Eestou cansado de ver a campanha contra a iniciativa do computador portátil Magalhães. Sem tirar o mérito e a oportunidade a algumas críticas ao processo, tenho lido demasiado lixo e atoardas, e dos media ao blogues poucos se safam. Estou indignado.
Uns (os media) insistem, medrosos e maricas, em dar as notícias pelo lado picaresco da coisa: o controlo parental, um tolice desmontada no Arrastão (ler O porco do Magalhães)
Outros (a maioria dos bloggers que reproduzem de cor) perdem-se a discutir os acessórios do suposto espectáculo do PM e não olham de frente para a excelente iniciativa.
Algum, tímido, debate sobre a escolha do modelo (o da Intel não é propriamente o único neste nicho de mercado potencial) faz sentido. Mas esse é a gota de água num oceano de má língua que tem por único fito afogar o governo. E, no caso da agência unipessoal de comunicação em campanha contra o Governo, é ainda pior que má língua: o dono da agência levanta uma cortina de fumo sobre as televisões e instrumentaliza os seus correspondentes na birra privada contra a RTP.
Ora, eu não sou salva-vidas de ninguém — mas esta iniciativa tem mais méritos, bastante mais méritos, que deméritos. Ao menos aqui José Sócrates sai bem na fotografia: não se trata de um projecto de papel, ou feito para agradar às cliques políticas, trata-se de algo urgente e vital para uma das principais necessidades do país: a educação em tecnologias de informação e conhecimento.
Eu diria que a nossa relação com o futuro da comunicação se moitaflorou: vivemos obcecados pelo lado negro das coisas, somos regidos pelo medo e pelo pavor. Um computador para os alunos do primeiro ciclo não é recebido como uma ferramenta essencial que chega, finalmente, ao futuro do país, mas olhado desconfiadamente como um canal para o pior do humano. Não queremos pensar que o miúdo vai brincar construtivamente com a sua futura prancha de desenho, como brinca com feltros — preferimos tremer de medo só de pensar que pode cair nas mãos das redes pedófilas, assassinas ou, na melhor das hipóteses, pornográficas.
É curioso: pensamos que os miúdos vão usar o computador à nossa (falo em abstracto) imagem e semelhança, isto é, vão usar o Google para p0rn, o Internet Explorer para ver gajas nuas e o sistema operativo para instalar todas as tralhas que nos enviam. Somos incapazes de pensar que eles descobrirão as suas próprias utilizações: conversar com os amigos e colegas, trocar informação, pintar, escrever, fazer contas, arquivar e ordenar o que vão escrever, pintar, idealizar. Alguns até aprenderão a — horror! — programar o computador: para fazerem os seus próprios jogos, pregarem uma partida ao amigo chato que interrompe os serões, puxar as músicas à noite quando a míngua de banda que o download provoca não vai afectar ninguém. Ou (para a Glória Eterna Entre Os Colegas) conseguir aceder ao computador da escola!
Nãp pensamos nas vantagens para eles (e para o futuro do país — ou já desistimos deste?). Pensamos nas nossas guerrinhas parvas, na nossa vidinha, no nosso desleixo enquanto pais (repetindo o Daniel Oliveira: só há um controlo parental: o controlo parental), ou, se somos sérios, pensamos que era melhor debater as opções, talvez o OLPC fosse mais indicado, e porque venceu aquela empresa e não outra.
(segue)
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19 opiniões no artigo “Viva o Magalhães! (ou: qual é o futuro para um país moitaflorado?)”
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[...] de desajustado e imerecido dado pela sociedade mediática portuguesa ao Magalhães, e depois da minha própria invectiva, reproduzo dois artigos de autores que, como eu, preferem não olhar apalermadamente para o [...]
[...] de desajustado e imerecido dado pela sociedade mediática portuguesa ao Magalhães, e depois da minha própria invectiva, reproduzo dois artigos de autores que, como eu, preferem não olhar apalermadamente para o [...]
Eu não critico o Magalhães, seja qual for a razão está a ser feito e distribuido. Não gosto da forma como o governo se apodera de algumas iniciativas para propaganda, mas é a vida e não é novidade nenhuma.
Mas os miudos que vão programar em vez de verem sites “improprios”, quando quiserem saber mais e tentar continuar os estudos já não terão um curso oferecido pelo governo, pelo contrário vão pagar caro por ele e se a seleção das familias mais carenciadas, escolhidas para receberem um Magalhães à borla, for igual a outras selecões que conhecemos e admiramos (de ficar de boca aberta mesmo) então não me admiro de ir um dia destes a uma feira e encontrar uma fila de Magalhães a 10 euros ao lado dos DVD’s piratas.
«então não me admiro de ir um dia destes a uma feira e encontrar uma fila de Magalhães a 10 euros ao lado dos DVD’s piratas.»
Eu admirava-me. Segundo percebi, para alguns será de graça, para outros custará 20 euros e para outros 50 euros. Isto para os estudantes, que é para quem este produto se destina. De certeza que esse preço incluirá uma qualquer espécie de garantia e de suporte e assistência técnica. Com jeito ainda arranjam um esquema para fazer upgrades aos Magalhães daqui a uns anos; ou talvez algo que envolva uma reciclagem de algumas das suas peças e abate no preço de um Magalhães 2.0. Agora, 10 euros na feira, obviamente, não incluirá nada disso.
Duvido que, tirando casos episódicos e naturais, resultantes da vida como ela é, venhamos a assistir ao fenómeno do abandono dos computadores.
Não é a mesma coisa que um DVD.
Há um genuíno interesse pelos computadores e pelo acesso à Internet, não é a mesma coisa que a electrónica de consumo.
E que apareçam nas feiras? A 10 euro, são brinquedos baratos e imensamente mais úteis que a porcaria com que os miúdos das classes desfavorecidas são condenados a “brincar”.
Mas o esquema de distribuição do aparelho não favorece o abandono.
[...] Recomendação de leitura do(s) artigo(s) Marco do Pedro e do Paulo. [...]
Está-me a irritar esta história do Magalhães!
1º Qual é o mal do Jornal da Tarde da RTP ter apresentado o portátil? Não sei qual é o problema! É a questão da treta do controlo parental? A maioria dos pais sabe menos que os filhos sobre máquinas, por isso possivelmente eles (os miúdos) se quiserem desligam aquilo, ou aprendem na escola com outro puto mais astuto…
2º Aquilo corre o Caixa Mágica, não vai ter malwares e vírus e outros lixos do mundo windows…
Neste país, qualquer boa iniciativa é mandada abaixo pelos “Pachecos Pereiras”/”Abruptos” desta praça.
Cumprimentos p’la forma corajosa como aborda o tema.
[...] Viva o Magalh
[...] ainda o artigo da Maria João, os três do Paulo Querido, aqui, aqui, e aqui. Ainda sobre a Sic e o Magalhães o artigo do [...]
Concordo com a perspectiva de que o controlo parental não é um aplicação mas sim uma atitude e uma forma de educação. Esse sistema sempre existiu, e foi com controlo parental que fomos todos educados. Quantos aos pormenores de pornografia e tudo isso, relembro que ela sempre existiu e que saiba as revistas, os filmes e tudo isso também continuam a ser acessíveis,como sempre foram, logo isso é uma forma ridícula de encontrar pontos negativos.
Na minha perspectiva, este programa é meritório, porque estamos a dar ferramentas e introduzir a perspectiva do computador como ferramenta pedagógica - não só para os alunos como para os professores,
Agora a escolha de dual boot na minha perspectiva não é a melhor,assim como a opção do classemate. Existem outras possibilidade, até o proprio Cloudbook da Via está disponivel com open source, podendo ser adaptado ás necessidades de cada um, e usar só um distro de linux seria uma forma de educar a ideia de opensource e software livre para um pais onde deficeé realidade mas continuamos a gastar balurdios em licenças para a função publica - kudos para o ministerio da justiça.
E já agora, para resumir, o e-escolas devia de ter começado pelo primeiro ciclo e subindo, e não nos mais velhos, que neste momento utilizam os pcs para jogar jogos, sacar filmes, e etc. Claro que todos temos o direito de decidir como utilizar os nossos computadores,agora não me parece justo pagar computadores para outros não aproveitarem como ferramentas pedagógicas, mas sim como maquina de diversão subsidiadas pelo estado
“um país moitaflorado” adorei… adorei… adorei!
Perguntinha Vi-nenosa:
“Magalhães” como o Fernão de…, ou como o José Manuel dos Santos de…?
Bem, tudo muito bem. Mas mantenho as minhas questões, que nunca foram sobre as criancinhas ou ensino.
Por um lado diz respeito á questão do jornalismo acéfalo que repete á exaustão os presse releases governamentais, plenos de mentiras.
Acredito quem desconsidere os meios, e realce meramente os fins. Certo, mas a mim continua a incomodar-me.
Custa-me também ver o esforço hérculeo da televisão governamental em promover tal produto, os seus mentores, repetindo novamente as falsas verdades e fazendo peças dignas dos tempos em que se lançaram o volskvagen ou o trabant.
Por fim, e sabendo-se que os tais 500 mil vão custar 80 milhões de euros, ainda sou dos que se espantam com o facto de sócrates ter decido por aquela empresa e por aquele produto sem concurso.
Eu era bem capaz de tentar também um consórcio, nem que fosse para ganhar um euro por computador. Já dava jeito……
Provavelmente, perante tão grandes «desígnios» estas questões serão consideradas irrelevantes. Paciência, para mim não.
Gabriel, longe de mim querer tapar o debate sobre o “jornalismo acéfalo que repete à exaustão os press releases governamentais”". Pelo contrário. Por exemplo, tenho reparado, a partir do Verão, numa mudança subtil nas televisões. Dou por mim a carregar no botão para confirmar o canal em que estou. A RTP tem andando mais perto da oposição e seus pontos de vista do que a SIC, que colou aos ministros, e a TVI, a que mais oscila entre o seguidismo simples e a “crítica” a eito.
Serei só eu a reparar?
Ou não convém falar no que está instituído, porque o que nos mexe não é a questão do jornalismo ser ou deixar de ser acéfalo, mas sim controlar e dirigir a acefalia à nossa medida?
Faz esta pergunta a ti próprio — ainda que não sobre ti próprio.
A dar esses números por certos, 160 euro por computador não me parece um mau investimento do Estado no ensino público. Ainda para mais sabendo que o investimento não se reduz ao ensino: estende-se ao sector industrial e tem potencial para alavancar a incipiente indústria portuguesa de electrónica, dar-lhe um bocadinho de lastro para exportação.
Não. 80 milhões parecem-me, até, baratos.
Eu não conheço as condições contratuais, não vou aqui falar do caso concreto, mas na experiência de observação. Não sendo defensor dos concursos públicos para tudo e para nada, sabendo que há vantagens — em determinadas condições, por exemplo onde a transparência não seja um assunto — em adjudicação directa ou por consulta informal, admito que haja uma explicação convincente para a decisão pela JP Sá Couto. Posso dizer ainda isto: a Intel não brinca propriamente em serviço com os seus ODM.
Há aspectos do Magalhães, como estes da “fabrico português” (explico depois as aspas) do Magalhães, que escaparam por completo ao “escrutínio público” (estas aspas não carecem de explicação), mais preocupado como é seu timbre e apanágio com os aspectos folclóricos do tema.
Gabriel: não sendo suficientes, na minha opinião, para maldizer o projecto, estas questões são não diria decisivas, mas importantes. Mas estas questões são debatidas por ti, por mim, e por mais meia dúzia de debatentes. O que vês no grosso da opinião pública, seja a “independente”, seja a manobrada pelos tenebrosos telejornais ao serviço, seja a independente, é um debate parvo em torno da vagina do Google (candidato a o sexo dos anjos dos tempos modernos?)
Irrelevante para o caso é, para mim, a eterna discussão do jornalismo acéfalo. Para mim, só faz sentido discuti-la na sua própria sede, e enquanto tema digno, e não a propósito de cada telejornal.
Termino, Gabriel, com uma pergunta para a qual te adivinho a liberal resposta, mas ainda assim: e o jornalismo acéfalo é só o dos coladores de press-releases, ou metes no embrulho os que perante um instrumento de comunicação e ensino falam de cona?
meto no embrulho….. (e só aí!)
«Ou não convém falar no que está instituído, porque o que nos mexe não é a questão do jornalismo ser ou deixar de ser acéfalo, mas sim controlar e dirigir a acefalia à nossa medida?»
também há gente dessa, também há.
btw, «país moitaflorado» é uma bela expressão
Gabriel, obrigado
Não tenho nada contra o senhor Moita Flores, aproveito para dizer. Apreciei escutá-lo em casos relacionados com a investigação judicial; a sua grande experiência no assunto e a fluência recomendavam-no. Como tele-espectador, penso que ele aceita cargos demais e paga o preço da sobre-exposição — mas isto é uma mera opinião pessoal.
Agora, em relação à Internet ele denota um pavor e exibe uma atitude pouco racional, trocando manifestamente as voltas à importância relativa de cada issue, tomando nem diria a árvore, mas a folha da árvore pela floresta e levando toda a gente e os jornalistas da SIC num turbilhão de sentimentos antagónicos, medrosos, incongruentes, maldosos, reactivos perante uma geografia das relações (comunicação e não só) que é mais que um facto assumido, representa por enquanto uma vantagem competitiva para um país da segunda linha como este.
Um país moitaflorado é isso, é um país que perante uma oportunidade rara (o portátil Magalhães) opta pelo cacarejo em torno da vagina do Google e do noticiário das 13, em vez de apreciar a coisa ou criticar onde realmente dói nos fagotes do projecto (a relação com os profs e o sistema de ensino, a falta de programas, a cena do concurso ou não concurso).
[...] Viva o Magalhães! (ou: qual é o futuro para um país moitaflorado?) [...]