Secção economia

Grupos de media americanos compram blogues

Enquanto em Portugal os media continuam a ver na blogosfera o papão e um antro de criminalidade e perdição (nas palavras do comentador Moita Flores), os grupos de media americanos começaram a comprar blogues. Esta semana cresceram os rumores sobre negociações entre a Time Warner AOL e o TechCrunch, com 20 a 30 milhões de dólares em cima da mesa.
TechCrunch O Techcrunch foi fundado há apenas 3 anos por Michael Arrington, que depressa se tornou numa figura à escala global. É provavelmente o blogue mais lido em todo o mundo, tem quase 900.000 leitores por feed e muito mais que isso diariamente no website. Factura mensalmente entre 100 e 200 mil dólares em publicidade e tem já uma pequena rede de sites satélites, produzidos por uma equipa profissional que inclui jornalistas, contratados por Arrington assim que percebeu que tinha um bom negócio entre mãos.
Os jornalistas americanos (e não só) de tecnologia e informação começam o dia com a leitura do Techcrunch, que se tornou numa referência essencial do meio.
Já há algum tempo que se sabia informalmente que Arrington estava no mercado. Kara Swisher, do All Things Digital (The Wall Street Journal), referia há dias as negociações de oito semanas de Michael com a AOL — que está numa fase de engorda, com a Time Warner a querer empandeirá-la para a Microsoft ou a Yahoo!, tentando aproveitar as movimentações do mercado. Sabe-se também que Michael recusou as primeiras ofertas, mas sem fechar a porta.
Michael ArringtonA concretizar-se, o que parece inevitável a curto prazo, esta aquisição do Techcrunch, que continua a ser um blogue colectivo, não é sequer a primeira do ano. Em Maio o grupo Condé Nast (Vogue, GQ, Wired, Vanity Fair, The New Yorker) comprou a Ars Tecnica, uma das publicações digitais dos anos 90 que, como a bOING bOING, apanhou a tempo o comboio dos social media e incorporou a filosofia e as tecnologias dos blogues. O negócio valeu 25 milhões de dólares.
E já em Julho o jornal britânico Guardian (yep, esse) comprou o blogue PaidContent, especializado na cobertura dos negócios nos novos media. Também valeu 30 milhões mas não foi só esse blogue a integrar o pacote: o que o Guardian adquiriu foi a empresa ContentNext, que tem mais três títulos bons e também organiza eventos e seminários ligados ao meio.
Esta última aquisição está associada a um pormenor pitoresco: a confirmação oficial pública foi dada através do Twitter pelo editor de tecnologia do Guardian (imagem abaixo).

(Imagens: TechCrunch e Michael Arrington via Wikipedia, Twitter via TubarãoEsquilo)
Zemanta Pixie

A maior parte das empresas de jornalismo vai desaparecer

É apenas uma das afirmações de José Cevera, director da Escuela de Periodismo Digital, na entrevista à Caspa.tv: a maior parte das empresas de jornalismo vai desaparecer, acha ele.
Eu também acho.
Mas antes disso, e sem precisar de ficar nos pontos radicais da entrevista, temos outras frases para ouvir, escutar, digerir. Ou por outra: para os jornalistas ouvirem, escutarem, digerirem. É do emprego deles, é da função deles, que falamos. Eu gosto particularmente das frases sobre diferenciação.
No mundo dos átomos, onde o negócio do jornalismo se baseia nas barreiras geográficas, republicar uma notícia de agência faz sentido e gera valor. Todos os jornais dão a mesma notícia porque cada jornal tem um público diferenciado.
No mundo da Internet a diferenciação não assenta na geografia e o público é indiferenciado: chega à notícia porque a procurou, não porque o jornal lhe prestou o serviço de a embrulhar e levar. Assim, a republicação não gera valor. O que gera valor é o carácter único, a originalidade, o tratamento diferente, a perspectiva nova.

(”Pesquei” n’O Lago, que a colheu noutras fontes)

iSheep

Steve Jobs é que sabe. É o verdadeiro hacker. Com base apenas em engenharia social, coloca a imprensa mundial a promover as vendas de um telemóvel caríssimo sem lhe pagar um cêntimo em publicidade e convence um rebanho incrivelmente dócil a 1) espalhar a messiânica mensagem e 2) a comprar um aparelho para o qual não tem dinheiro, nem agora nem para as mensalidades, julgando que é uma pechincha.
Steve Jobs é o mágico do século XXI e vale mais, sozinho, que a trindade que tornou a web numa máquina registadora chamada Google, para desespero dos berlusconis e balsemões deste mundo.
Há um ano, o iPhone era visto como um aparelho caríssimo e inacessível ao português médio, talvez até ao alto. 499 ou 599 euro por um telemóvel, mesmo um telemóvel que faz o pino e canta, é uma pipa de massa, para roubar a expressão a Belmiro de Azevedo.
Um ano depois, a corrente lusitana dos iSheep não só corre para as lojas para se sentir feliz a adquirir, pelo mesmo preço que 365 dias antes achava inalcançável e impossível, como o faz exactamente da forma que Steve Jobs (que é a Apple sozinho, simultaneamente o board, o staff de PR, o evangelista, o porta-voz, o engenheiro-chefe e o hacker) imaginou que o ia por a fazer: primeiro de gatas, depois a disparar por um corredor fora, como se a loja fosse uma pista de atletismo e o primeiro a chegar à meta ganhasse a glória. LER CONTINUAÇÃO :.

O negócio dos links. No Público

o negocio dos linksSaiu hoje a minha segunda reportagem produzida para o Público: O negócio dos links. Está no P2, páginas 8 e 9, e pode ser vista na imagem ao lado (abre maior clicando em cima). Também pode ser vista online na versão PDF do Público, aqui. Partindo do caso da Associated Press, a peça dá conta da emergência do link como uma nova moeda.
A teoria não é propriamente desconhecida na web, a vantagem do artigo é — e agradeça-se ao Público por isso — levar para o círculo de pessoas que ainda só confia no que lê no papel de jornal um assunto cada vez mais pertinente para a indústria do jornalismo.
Entre outros interlocutores a peça cita Bruno Giussani (Lunch over IP, Ted Conferences), que foi amável comigo na troca de correspondência que mantivemos sobre isto, e Pedro Dória (Pedro Doria | Weblog), O Estado de S. Paulo, cuja leitura seca e directa sobre a relação entre os mainstream media e a blogosfera é de grande valia.
A Questão Essencial, e à qual gostaria de ter tido a resposta de Jeff Jarvis, mas não chegou a tempo para a edição papel, é esta: a economia dos links gerará alguma vez valor suficiente para pagar os custos do bom jornalismo, que são pagos em dinheiro (para não falar das vidas)?

Energia nuclear é passado, futuro passa por economizar

reactor nuclearSinteticamente, a mensagem do ex-ministro alemão e conhecido “verde”, Jürgen Trittin, é: a energia nuclear é passado, o futuro passa por economizar. Eu, que tenho hoje uma abertura maior ao nuclear e não me oporia à construção de centrais em Portugal, penso porém que Jürgen Trittin marcou um ponto na sua entrevista ao El País.
Cheguei à entrevista, “El nuclear es un debate del pasado, no del futuro”, através de Pedro Dória, que tem um post curto e grosso sobre o assunto. De onde destaco (negrito meu):
O caminho, ele argumenta, não é este. Os que os europeus precisam fazer é enfrentar o fato de que importam 75% de sua energia. Precisam, portanto, economizá-la. Sai mais barato, coisa aconselhável em tempos de crise, e é melhor para o ambiente. É sua receita, aliás, para o mundo todo. Na Alemanha, a regulamentação para as construção de casas é rigorosa. Devem ter, por exemplo, isolamento térmico, que economiza na refrigeração ou no aquecimento do ambiente. É uma obra que se paga na conta de luz. O carro, evidentemente, deve ficar em casa de vez em quando“.

Critical Software: dez anos que mudaram Coimbra

Empresa poster-boy de um país com míngua de empreendedorismo, a Critical Software celebra dez anos. A evocação de Diogo Vasconcelos no blogue Geração de 60, é destes “role models” que eu gosto, é uma história para ler e recomendar.
Excertos:
Lembro-me como se fosse hoje do final da Escola de Verão de Empreendedores, organizada no âmbito da Academia dos Empreendedores que lancei, na ANJE, nos tempos de Fernandes Thomaz. João Carreira apresentou aí o plano de negócios da empresa que iria criar, com os seus colegas Gonçalo Quadros e Diamantino Costa. Focada no desenvolvimento de software para sistemas críticos, um dos seus primeiros clientes foi a NASA.
Há empresas que mudam uma cidade, resgatando-as de declínios anunciados. Tal como Michaell Dell (Austin), Bill Gates e Jeff Bezos (Seattle), o trio de fundadores da Critical foi decisivo no renascimento de Coimbra.”
A pedido da Câmara, a Brisa mudou a placa da A1. Coimbra passou a ser, “Coimbra,  Cidade do Conhecimento”. Coimbra não é Cambridge, mas está a mudar – e essa mudança é já visível

(foto de João Carreira, visível com mais pormenor no post original)

Spamado por uma associação de defesa do consumidor? Sim: pela Deco


Hoje recebi em n mails que uso diversas versões da mesma mensagem comercial não solicitadas, enviadas por uma conhecida empresa do ramo, em contrato com o que eu supunha ser uma associação de defesa do consumidor, a Deco, e que como tal se apresenta.
Digo supunha porque em tempo até fui sócio. Há muito tempo, sim, mas apesar de achar que já não me servia, continuei a supor que era uma associação de defesa do comsumidor.
Supus até hoje. Tudo tem um limite. Como é evidente, a Deco fará questão de ignorar a minha opinião e faz muito bem, porque ela não é nada favorável. E continuará a usar os inestimáveis serviços da fabulastico, que adivinho dispor da maior e mais fabulosa base de dados de cândidos alvos do marketing sem permissão, para enviar as suas ofertas comerciais de canetas, agendas e calculadoras a pilhas. Mas no meu correio só entra uma vez. E com protesto público e agravamento da má reputação cá em casa e notificação de spammer em tudo o que eu tiver à mão.

Disclaimer: a prática do spam é legítima e o recurso sem limites de nenhuma espécie a endereços de e-mail obtidos à força, sem o consentimento nem conhecimento dos seus utilizadores, é garantido pela lei em vigor no país e na União Europeia. Faço notar que, como tal, as consequências para a reputação das empresas e entidades que do spam fazem uso estão igualmente legitimadas.

Infelizmente não se pode ter tudo
Este artigo servirá os intentos da fabulastico e pode, inclusivé, ser apresentado ao seu cliente, no caso a Deco, como prova dos bons serviços prestados.
Esqueçam o facto de eu ser um consumidor a protestar: isso é para a fotografia. A verdade é outra. Sou apenas um tik num formulário, na secção “objectivo cumprido”.
Mas como não forneço os endereços que foram atingidos, tendo falado propositadamente num número vago e irreal, o tik do meu resultado vale menos.
Pode a fabulastico apresentar pesarosamente desculpas à Deco. Infelizmente, não se pode ter tudo porque há meia dúzia de consumidores resilientes como eu. Felizmente, o número de consumidores do meu género é estatisticamente desprezível.

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